"Boa noite a
todos artistas, a todos produtores culturais, boa noite a todos os gestores
públicos, boa noite a todos os cidadãos e cidadãs.
Nestes últimos meses vem
acontecendo uma mudança muito profunda em nosso país. O Brasil está em ritmo de
crescimento econômico, e isso está visível. Tem outras coisas que só quando
vemos todo o conjunto é que podemos perceber as mudanças profundas, e posso
exemplificar com dois setores. Um deles é a educação: aprovamos há um anos
atrás uma mudança na Constituição que muda o papel do Estado em relação a educação. Historicamente era apenas obrigação da União
cuidar das universidades, do ensino superior federal. Ficava para os estados, a
responsabilidade pelo ensino médio e da prefeitura cuidar do ensino
fundamental. Agora, com esta mudança a obrigatoriedade do ensino passou de 7
para 4 anos. Incluímos o nível da educação infantil como obrigatório e portanto que merecerá outra forma de atendimento pelo
Estado. E de 14 anos passamos para 17 anos. Ë responsabilidade do estado pela
educação e permanência do jovem na escola até os 17 anos. Além disso, colocamos
na Constituição a possibilidade de tirar um percentual do PIB, para os próximos
10 anos, para garantir que o Estado tenha condições de realizar estas mudanças
na educação do Brasil. Então, a Câmara dos Deputados não pensou só em alargar
os direitos da sociedade brasileira no que diz respeito ä educação, mas também
aprovou que este percentual do PIB estará disponível ao povo brasileiro para
que esta meta possa ser cumprida. Mais um adendo desta lei: nós votamos que
fica proibido que qualquer governo daqui para frente possa mexer naquilo que a
gente chama de verba da educação. Ou seja, não será possível ser desviado este
recurso para outros fins. Uma mudança importante na função do estado no que se
refere á educação. Nós sabemos o quanto a educação é
importante porque é através do conhecimento que nós nos transformamos em seres
humanos, que nós construímos relações pessoais e sociais. Que nós consolidamos
uma sociedade com direitos civis consignados e perspectivas de avanços
civilizatórios.
Eu trago este preâmbulo para
que possamos refletir sobre o momento que estamos atravessando na área da
cultura. Estou há três anos como deputado federal e
tenho conduzido meu trabalho em dois aspectos: um na educação e outro na
cultura. Minha visão é que a cultura deve ser tratada como prioridade nacional
e através do viés da cultura que devemos articular outras áreas do governo,
principalmente a educação, a comunicação, a ciência e tecnologia e a
assistência social. Ao meu ver, estas áreas deviam estar matriciadas pela área
da cultura. No entanto, nós pagamos um preço caríssimo porque tivemos governos
elitistas que trataram a cultura, as manifestações simbólicas e expressivas do
ser humano, sem o denodo necessário. Trataram isso como um direito da elite.
Nunca a entenderam como direito do cidadão. Isto é, interessa ao conjunto do
povo brasileiro. Reflexo histórico de um Brasil discriminatório do ponto de
vista das políticas públicas de cultura. Ainda entre muitos gestores públicos,
cultura é vista como adereço. Pois, em outros países a cultura já está
consolidada como política de Estado e encarada como direito social. Aqui
começamos a caminhar neste sentido… Daí a importância de um debate como esse
que já estamos realizando aqui em Curitiba pela 2´ vez.
Aliás, a classe artística e cultural da nossa cidade está de parabéns, porque
no ano passado no Teatro Fernanda Montenegro realizou uma das melhores
audiências públicas para debater Lei Rouanet, naquele momento
coordenadas pelo Ministério da Cultura. Além da participação
significativa, as intervenções de qualidade impressionaram a todos. E mais uma
vez hoje estamos reunidos, esta já é a terceira Reunião
Pública, organizada agora pela Comissão de Educação e Cultura. Antes daqui de Curitiba, fizemos uma em São Paulo e outra em
Salvador. E depois mais quatro na outra semana. A presença de vocês aqui é
muito importante porque agora o projeto não é mais um projeto do Ministério.
Está sob responsabilidade da Câmara dos Deputados que fará a relatoria e deverá
aprovar a lei, após todas estas discussões. Nós, da Comissão de Educação e
Cultura optamos por acolher estas sugestões para que tenhamos um resultado mais
fidedigno, para que a gente não erre.
Sabemos que a lei precisa ser
modificada. Ao longo da sua história, ajudou muito a arte
brasileira, pois não tínhamos instrumento algum, porém com o tempo
trouxe também grandes distorções. A maior parte dos recursos concentrada no
eixo Rio-São Paulo; a maior parte dos recursos sendo destinado a três por cento
dos proponentes. A grande maioria dos estados sem acesso aos mecanismos de
financiamento da cultura. O espírito da lei era para que cada grupo de teatro,
cada grupo de folclore, cada manifestação artística do nosso país tivesse a
liberdade e um instrumento jurídico de captar recursos na sociedade – seja de
um posto de gasolina, seja de uma cadeia de supermercados numa cidade do
interior do Brasil, obtendo isenção fiscal, garantindo assim fomento cultural. O
diagnóstico feito pelo Ministério da Cultura também demonstrou que a iniciativa
privada participou muito pouco como proponente. Aqui em Curitiba e no Estado do
Paraná todos vocês conhecem qual é a participação, é muito pequena em relação a Lei Rouanet, por distorções ocorridas inclusive com
direcionamento de forma imprópria dos recursos das empresas do estado do
Paraná, como a Copel, a Sanepar que direcionaram para apenas um setor.
As correções precisam ser
feitas, estas e outras que devem ser apontadas por vocês. Até o mês de junho
nós queremos encaminhar pela Comissão de Educação e Cultura o relatório final
feito pela deputada Alice Portugal. Todas as reuniões estão sendo gravadas para
que possamos repassar as sugestões para a relatora.
Desejo a vocês um bom debate e
que cada um se sinta á vontade para fazer as contribuições ,
fazer uma pergunta, estabelecer críticas ao texto que hoje discutimos. Para nós
que desejamos valorizar a cultura em todo o território nacional
, é importante que esta seja uma lei o mais perene possível. Quanto
menos erros apresentarmos no texto futuro, melhor para a sociedade presente e
para as futuras gerações que terão um arcabouço jurídico como política de
estado para ajudar o fomento da cultura e a expressão artística do nosso povo. Muito
obrigado!"
Angelo Vanhoni, deputado federal,
presidente da Comissão de Educação e Cultura da Câmara Federal - Curitiba 03/05/10