“Boa
noite Curitiba , Paraná. Boa noite artistas,
produtores culturais, críticos da cultura, jornalistas e gestores públicos,
artistas plásticos, poetas, enfim todos aqui presentes trazendo esta grande
audiência numa segunda feira a noite neste teatro tão bonito. Quero
cumprimentar a mesa. Começar pelo querido deputado Angelo Vanhoni, presidente
da Comissão da Educação e Cultura que fez aqui uma bela intervenção e
parabenizar em nome dele todo o trabalho desta Comissão , trabalho este que vem
dando à pasta cultural um espaço inédito na pauta do Congresso Nacional. Hoje
podemos dizer que a cultura tem um espaço no legislativo que nunca teve no
passado. São inúmeros os projetos tanto do próprio legislativo como do Executivo,
tramitando com muita força a partir desta construção republicana a luz do dia
num processo de legitimação que tem marcado esta agenda no Congresso.
Cumprimento
ao Paulo César, anfitrião deste evento, diretor do Fecomércio, representando o
Sesc da Esquina. O ator e produtor teatral Isidoro Diniz representando a
Secretaria do Estado da Cultura do Paraná, o Nilton Cordoni representante
da Fundação Cultural de Curitiba, o ......representando o Fórum de Dirigentes e Secretários de Cultura
das Capitais e região Metropolitana – fórum este muito importante e que tem
pautado temas importantes e estratégicos para a cultura brasileira. Também
cumprimentar o deputado estadual Péricles Holleben que representa também
a Comissão de Educação e Cultura da Assembléia Legislativa e
, o Vereador Pedro Paulo da Câmara Municipal de Curitiba. Também
agradecer a presença do deputado federal Ricardo Barrros, que teve que sair,
mas é um grande aliado da cultura no Congresso. Atualmente é relator do projeto
que cria o Vale Cultura. Cumprimento a Sra Avani Slompi presidenta da
Associação Comercial do Paraná, o Roberto Velozo da Confederação Nacional do
Comércio e o cineasta Paulo Munhoz representando a Federação das Indústrias do
Paraná. Quero destacar aqui a importância de nesta mesa recebermos a
representação da classe empresarial. É preciso criar um mecenato como temos na
Europa, temos no Estados Unidos. Acho que o momento que o Brasil vive hoje
demanda de todos nós aqui – Estado, setor privado e o setor cultural o que eu
chamaria de um novo ciclo de responsabilidade.
Estar
aqui como convidado deste debate é um momento de grande alegria. Eu diria que
uma grande vitória da cultura brasileira pois, hoje,
realizamos uma aspiração antiga do setor cultural – que é debater a luz do dia ,
amplo espaço e de janelas abertas uma nova lei de cultura para o país. Todas as
leis anteriores da cultura brasileira não tiveram consulta pública. Quero
registrar que esta é a primeira vez que nós realizamos e construímos para a
cultura brasileira um processo de elaboração de uma lei com consultas públicas
e debates como este. Isso tem muito a ver com as questões colocadas pelo
Vanhoni, anteriormente, quando ele falava do
momento em que o Brasil passa: aprofundamento da democracia, liberdade de
expressão, liberdade de pensamento e a participação da sociedade na
construção dos grandes temas nacionais. No caso da cultura, não poderia
ser diferente e mais ainda esta presença é importante porque o setor
cultural é um setor dinâmico, criativo e polêmico. Não
poderia ser de outra forma, pois ele tem que vibrar. Quando ele não vibra,
quando ele está em silêncio, tem algo estranho. Mas não, estamos aqui vivendo
este momento magnífico.
Nós
fizemos 20 anos de Lei Rouanet e por que não dizer que a Lei Rouanet representa
um momento do Brasil. Ela foi criada lá no início dos anos 90 representa,
portanto, muito bem como o Brasil pensava cultura...Não era tema prioritário,
não era política estratégica para o país, não haviam
debates como este. Posso dizer também que o setor cultural era pouco
organizado. Passávamos por um processo do fechamento de importantes
instituições de cultura. Fim da Embrafilme. Fim da Funarte. O Ministério da
Cultura que tinha sido criado em 1985 foi então eliminado do nosso aparato
institucional... Então, o setor cultural tinha duas opções frente a este
contexto: ou não ter nada, ou ter a Lei Rouanet . E só
a lei era muito pouco, e assim foi, como os 20 anos da sua história
demonstraram que ela não deu conta das grandes questões. E nós da cultura, não
podemos nos acostumar com pouco! Temos que demandas um outro tratamento
de política pública assim como acontece em outras áreas. Vou dar um exemplo:
Ciência e Tecnologia. Enquanto a cultura eliminava as instituições públicas de
fomento, a pesquisa no Brasil criou as suas,
enfrentava os problemas modernizando, inclusive, suas instituições como Capes,
Cnpq e a Fapesp , por exemplo. Podem ter seus problemas, mas colocam apoio direto aos cientistas e pesquisadores, permitindo
desenvolvimento científico no Brasil.
Já no
caso da cultura, fomos submetidos ao laboratório da renúncia fiscal. Ao dar
ênfase na renúncia fiscal, que deveria ser e acreditamos que seja, um dos
vários mecanismos, mas ao fazer dela o único mecanismo deixa claro que o
Estado transfere todo dinheiro público e sua responsabilidade a
algo que não faz parte de um projeto, de uma política cultural, de um
planejamento inteligente para as questões fundamentais. Se a isenção fiscal
tivesse ido para as empresas cultuais no passado, teríamos aqui inventado uma
economia da cultura forte. Mas , nem isso a Lei
conseguiu. O que foi feito através da lei foi um modelo muito concentrado no
que se refere ao patrocínio. Uma das alternativas não pode ser a única! E, além
disso, uma questão que vocês já conhecem, apenas 3% dos proponentes conseguiram
captar mais de 50% de todo o dinheiro, isso são oito bilhões. Como já disse o
Vanhoni, é muito dinheiro gerado pela Lei. Porém, foi muito mal distribuído.
Duas cidades do Brasil com 80% . E no diagnóstico que
realizamos, este dinheiro é basicamente público. 95% deste dinheiro é estatal, vem do contribuinte. Por exemplo, o Festival
de Curitiba que nós tivemos orgulho de financiar com três milhões do governo
federal. O restante, por exemplo, as empresas e
bancos quando vamos ver o que foi investido é tudo dinheiro do contribuinte. Seria
muito importante que as empresas tivessem seu próprio recurso para complementar
o dinheiro público, para que a gente crie um verdadeiro mecenato privado no
Brasil. A Lei Rouanet criou uma falsa imagem. Muitas pessoas dizem: olha só
tantas empresas aparecem nos cartazes, mas no final das contas a maioria dos
projetos tem 100% de dinheiro público.
Então,
o que o projeto propõe primeiramente em relação ao patrocínio? A mudança é
gradual e de espírito de parceria com o setor privado com um patamar mínimo de
20% de investimento das empresas como patrocinadoras em projetos culturais. Isso
vai criar a Parceira Público Privada e, inclusive, já
conversamos com as estatais e com patrocinadores e há um espírito de
modernidade. Portanto, a lei está gerando uma repactuação entre o setor público
e o setor privado.
A lei
cria também um Fundo Nacional de Cultura forte. Assim como a educação criou o Fundeb , um fundo público com recursos para dar conta das
metas educacionais, a cultura precisa de um fundo público ä altura no país. O
projeto propõe a criação de 7 fundos a exemplo da
Ciência e Tecnologia. Portanto serão os fundos de Artes Visuais, Artes Cênicas,
para Infra Estrutura, Diversidade, Fundo para
Audio Visual, Inovação e para Patrimônio e Memória. Este
fundos precisam ter pelo menos o mesmo valor ao ano que tem a
renúncia fiscal. Tem que ser equipados e modernos, não podem ser os
burocráticos de hoje que exigem 20% de contrapartida dos artistas, dos pontos
de cultura, o que muitas vezes inviabiliza a relação destes com o
fundo...Portanto, uma mudança na lei é o fim dos 20%. Se for traduzir
aqui o que o fundo faz em relação ao patrocínio. Muito simples. Dos 10 mil
projetos que vão atrás de patrocinadores são poucos os que conseguem. Ficam
apenas com o certificado, sem patrocínio. Como é que vai funcionar com o fundo?
O projeto entra , ele é avaliado pelo parecer técnico,
vai para CNIC, portanto ela será mantida. Há um conselho formado por
representantes da sociedade civil que fiscalizam e qualificam o processo. Nós
fortalecemos este controle. Só que no momento em que a CNIC aprova, em vez de
você pegar o certificado para conseguir o patrocinador – essa opção continuará
existindo, mas também a outra opção é que o dinheiro vai direto para a conta. Ë
dinheiro direto para o artista. O Estado vai eliminar uma etapa que é uma
verdadeira via crúcis para a maior parte dos artistas e produtores
culturais de todo o país.
E,
assim deixaremos para trás um modelo de estado autoritário, repressor da nossa
diversidade cultural, promotor da censura e do dirigismo que busca construir
uma imagem única de Brasil, não percebendo a nossa rica diversidade. Este tipo
de estado foi deixado para trás pela democracia. Mas ainda no processo de
redemocratização do Brasil, nós não construímos uma parceria entre Estado e
Cultura. O Estado num primeiro momento se absteve, disse :
“olha na democracia eu estado não tenho papel, cabe a terceiros, ao modelo de
terceirização.” Então, nós estamos construindo aqui esta nova legislação a
muitas mãos, a milhares de mãos. Construindo uma nova relação entre o Estado e
a Cultura. Um modelo moderno, de responsabilidade compartilhada, de parceria,
onde o Estado não somente se responsabiliza como combina democracia com um
papel importante no financiamento a cultura no Brasil.
A outra
mudança importante é o Sistema Nacional de Cultura. Hoje o fundo que nós temos
não pode passar dinheiro para as Secretarias estaduais e municipais de cultura,
que estão brotando em todo o Brasil, graças a
constituição de um Sistema Nacional de Cultura. Vamos ter este sistema como
várias outras áreas, a exemplo da saúde e educação. Neste sistema temos que 30%
dos recursos devem ser repassados automaticamente para estados e
municípios voltado para políticas públicas de cultura. Isso não estava incluído
na lei anterior e agora está.
Outra
mudança proposta por vocês e inclusive aqui no Paraná eu já escutei muito esta
reivindicação: os critérios. A lei não pode deixar para regulamento os
critérios. E vocês diziam: “tudo bem, a Lei Rouanet não fala em critérios, mas
a nova lei tem que falar explicitamente.” Através das
consultas públicas, entre as quase 30 mudanças que o Ministério fez para este
projeto que está nas mãos de vocês, está a incorporação de critérios públicos
que vão permitir um sistema de distribuição de recursos baseados em critérios
republicanos , de análise ;por especialistas, com uma rede de pareceristas
autônomos e independentes. Vamos sair deste atual modelo de avaliação que há
muitos erros.
E por
último gostaria de destacar um último ponto importante, que é
a possibilidade de criar fundos privados, a exemplo de modelo europeu, para
manutenção de instituições públicas oriundas não do governo, mas da
sociedade civil. Temos muitas pelo Brasil. Há ainda a possibilidade de um
incentivo novo, de que cada pessoa física no momento de declaração de imposto
de renda possa doar 1% da sua declaração para o Fundo Nacional de Cultura. O
cidadão irá escolher entre o tesouro e a cultura brasileira. Há também a
autorização para uso educacional de bens financiados com dinheiro público, que
é uma oportunidade de fazer circular bens culturais ( após
o uso comercial) dentro das escolas.
Para terminar
quero apenas citar os números de concentração regional que está neste material
didático que todos receberam. Tocantins captou 10%, Roraima 10%, Rondônia 10,
5%, Mato Grosso do Sul 0,05%, Amazonas 0, 08%, Sergipe 0,15%, Paraíba 0, 17%,
Maranhão.....
Isso
não representa a diversidade cultural do país, nem a criação intelectual e
artística extraordinária dos artistas e produtores brasileiros, não representa
esta força criativa que sempre surpreendeu. Portanto, este é o momento de
repactuação pois não se pode fazer cultura com uma
distribuição tão desigual como diagnosticamos. Muito obrigado e um bom debate a todos nós.”
Alfredo
Manevy – secretário executivo do MinC - Curitiba 03/05/10