semana cultural para profissionais da educação da prefeitura municipal – teatro guaíra, curitiba/pr

_DSC6988aweb

A Semana Cultural para os Profissionais da Educação promovida pela Prefeitura de Curitiba iniciou na tarde desta segunda feira, 21/10, no Teatro Guaira. Mais de dois mil profissionais da rede municipal de ensino assistiram a aula-show “Cem anos de Vinícius de Moraes” ministrada por José Miguel Wisnik, pela cantora Paula Morelenbaum e pelo compositor e violonista Gabriel Improta. O espetáculo faz uma retrospectiva da vida e trabalho de um dos maiores poetas brasileiros e foi realizado através de uma parceria entre a Prefeitura de Curitiba e o Sistema Fecomércio Sesc/Senac Paraná. A realização da Semana Cultural é uma das ações do EduCultura.

Link para a página do Projeto EduCultura

_DSC7001web
A solenidade de abertura contou com as presenças da secretária municipal de Educação, Roberlayne Borges Roballo, do presidente da Fundação Cultural de Curitiba, Marcos Cordiolli, do presidente do Sistema Fecomércio Sesc/Senac PR, Darci Piana, da gerente executiva do SESC Paço da Liberdade, Celise Niero, do deputado estadual Péricles de Mello e do deputado federal Angelo Vanhoni, dentre outras autoridades.

Durante a cerimônia, o presidente da Fundação Cultural de Curitiba anunciou que a partir do próximo ano todos os espaços culturais pertencentes ao município manterão uma cota específica de ingressos livres para os professores e trabalhadores da rede municipal de ensino e ressaltou a importância da aprovação do Plano Nacional de Educação para as políticas públicas de Educação e Cultura no país. “O PNE seguramente vai ser o maior plano de educação da história mundial assim que estiver implementado. Ele tem muitas qualidades pelas quais todos nós lutamos, mas tem uma peculiaridade muito pouco ressaltada que é importante: é um plano que apresenta a integração da Cultura com a Educação numa proporção pouco vista em qualquer outro país. Nós vamos nos tornar um país cuja relação entre Educação e Cultura vai ser referência para o mundo todo. Será o grande projeto de transição entre aquilo que temos na educação brasileira e aquilo que ousamos conquistar.”

_DSC7054web

A garantia de acesso à arte e a bens culturais é uma das condições básicas da cidadania. Por isso, a Prefeitura e a Fundação Cultural de Curitiba estão de parabéns pela realização da Semana Cultural. Evento que está disponibilizando 31 mil vagas gratuitas em espetáculos, shows, debates, passeios, exposições e cursos aos professores e trabalhadores da Rede Municipal de Ensino. Com o Projeto EduCultura e eventos como a Semana Cultural, além de valorizar seus professores e profissionais da educação, Curitiba antecipa uma das principais propostas do Plano Nacional de Educação que tramita em fase final de aprovação no Senado Federal: a transversalidade entre os eixos da Cultura e da Educação com o objetivo de formar gerações mais críticas e criativas de brasileiros e brasileiras.

Angelo Vanhoni

_DSC7173web

O professor e compositor José Miguel Wisnik destacou em sua aula a importância da aproximação entre as linguagens erudita e popular na produção artística brasileira. A fusão entre estas duas vertentes, embora pareçam a primeira vista contrastantes, é o que caracteriza a genialidade de algumas das obras e composições que mais admiramos no repertório popular.

Este aspecto ressaltado por Wisnik demonstra a importância da educação, do estudo e do conhecimento das diversas tradições que nos influenciaram culturalmente para a produção artística de qualidade. Ou seja, uma boa canção, como os sucessos imortais das parcerias de Vinícius de Moraes, ocorre justamente quando este diálogo entre o universo culto e o leigo, o erudito e o popular, opera em sua potência máxima.

Há muito tempo Vinicius de Moraes tinha o desejo de unir o Brasil branco, da elite letrada, com a grande tradição da cultura popular brasileira, da cultura oral, festiva, dançante, afro, e num determinado momento essas duas coisas se cruzaram num “insight”, quando ele imaginou um espetáculo musical que tivesse o mito de Orfeu vivido numa favela do Rio de Janeiro. Ele passou 14 anos até realizar este projeto, quando em 1956 estreou a peça teatral “Orfeu da Conceição”, que depois virou um filme de um cineasta francês chamado Marcel Camus, “Orfeu Negro”, que correu o mundo e se tornou uma das grandes referências da imagem do Brasil no exterior. Tudo isso nasceu daquela idéia, que era unir a África com a Grécia na América do Sul, como acontece com grandes músicas populares do mundo que são resultado deste cruzamento, como por exemplo nas grandes cidades escravistas de Nova Orleans, de onde irradiou o jazz pelos Estados Unidos; de Havana, de onde surgiu a música caribenha; e de Salvador e do Rio de Janeiro, para onde vieram aqueles baianos depois da abolição e onde, portanto, surgiu o samba. Era tudo isso que estava se juntando agora num espetáculo de erudição para tomar isso como uma coisa universal, como da ordem do mito grego.

Quando Vinicius realizou esta peça, ele tinha que encontrar quem fizesse as canções; então veio a conhecer, ou os deuses fizeram com que ele conhecesse a pessoa certa para isso, que era Tom Jobim. Um jovem compositor que fazia arranjos para as gravadoras, que gostava de Villa-Lobos, que tinha formação erudita e que lia Drummond. Portanto havia nos dois esse cruzamento da cultura erudita com a cultura popular.

Foi neste complexo cultural de níveis diferentes e de misturas, como é próprio da cultura no Brasil, que veio a se formar este espetáculo que teve grandes consequências, pois gerou não só esta peça teatral, mas as parcerias entre Tom e Vinicius que continuaram depois disso e também a Bossa Nova como movimento marcante no meio do século 20 no Brasil.

Esta grande passagem gerou no Brasil uma geração de artistas que transitam entre a literatura e a música popular, como Chico Buarque, que é autor de quatro romances, Caetano Veloso, que tem dois livros de ensaios, Antônio Cícero, que tem dois livros de filosofia, livros de poesia e muitas canções em parceria com Marina e Lulu Santos. Mas, tem também Paulo Leminski, Alice Ruiz, Wally Salomão e Arnaldo Antunes.

Nós professores, eu e vocês todos, temos que ter consciência desse fato, que é uma singularidade da cultura brasileira. Nós temos um déficit, somos uma sociedade com baixo letramento médio e cabe a nós, professores, entender e lidar com isso. Ainda se lê pouco no Brasil. Ao mesmo tempo que percebemos essa deficiência, o Brasil produz uma música popular altamente poética nesse cruzamento. Quem inventou isso, quem abriu o campo e fez isso se declarar, quem generalizou esse fato foi ninguém menos que Vinícius de Moraes.

Na noite em que foi apresentado a esta música, Vinícius de Moraes achou que o Samba em Prelúdio, composto por Baden Powell, era plágio de um prelúdio de Chopin. Horas depois, convencido do contrário pelo parceiro, saiu-se com a pérola:
“- o Chopin se esqueceu de compor essa!”

A canção “Insensatez”, de Tom Jobim, espelha integralmente o encadeamento harmônico do prelúdio Opus 28 N°4, de Frédéric Chopin, e é também um dos grandes sucessos do cancionismo brasileiro dentro e fora do país.

Água de Beber foi feita quando Tom e Vinícius estavam em Brasília, que estava sendo construída, ía ser fundada e eles foram lá para fazer a Sinfonia da Alvorada. Ali, perto do Catetinho, nessa Brasília em construção, havia uma fonte da qual saía essa água e a música então se chamou Água de Beber.

_DSC7171web

Isso aqui não é merchandising não. Essa aqui, independente da marca é a bebida do santo, a bebida da entidade. Vinícius de Moraes não fazia um show sem ter ao lado a garrafa com o que ele chamava de “O melhor amigo do homem. O cão engarrafado”. Então, essa aqui é a bebida consagrada desse ritual. Vinícius de Moraes engarrafado. Saravá Vinícius de Moraes em seus 100 anos!

José Miguel Wisnik

Fotografia: Gilson Camargo

One Trackback

  1. By A Cultura no Plano Nacional de Educação | Vanhoni 1322 on 18 de setembro de 2014 at 13:06

    […] Leia mais sobre a Semana Cultural para Profissionais da Educação da Prefeitura Municipal de Curitiba, uma das açõe…. […]

Publicar um comentário

Seu e-mail nunca será publicado. Campos com * são obrigatórios

*
*

Preencha os campos corretamente!