o plano nacional de educação e o ensino bilíngue para surdos – entrevista com sueli fernandes

Entrevistamos a professora Sueli Fernandes a respeito dos avanços contidos no Plano Nacional de Educação (PNE) para o ensino dos surdos. Sueli é professora de Fundamentos da Educação Bilíngue para Surdos, na UFPR. Formada em Letras, com mestrado e doutorado em Linguística, é coordenadora do Curso de Graduação em Letras Libras. Trabalhou na Secretaria de Estado de Educação do Paraná com gestão de políticas educacionais para os surdos, de 1993 a 2008, é colaboradora da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis/PR) e participou ativamente dos debates do PNE para a implementação das políticas de educação bilíngue para o ensino dos surdos.

Blog Vanhoni: Que avanços o Plano Nacional de Educação trouxe para a educação dos surdos?

Sueli Fernandes: Primeiro é preciso destacar que o PNE legitima um importante avanço da educação especial nas últimas décadas: ser compreendida como parte integrante da educação geral. Assim, as conquistas da educação como um todo se refletem também no campo específico da educação especial, buscando superar a perspectiva clínica que sempre orientou suas concepções e práticas.

Embora o movimento surdo reivindique sua desarticulação da área da educação especial como espaço para debater as políticas voltadas à sua educação, legalmente e institucionalmente, há uma identidade histórica entre educação de surdos e educação especial. Por isso, o movimento dos surdos vem lutando nos últimos 20 anos para que a educação dos surdos não tenha enfoque clínico-terapêutico como tem sido historicamente praticado no Brasil. A escola especial para os surdos era concebida como um ambiente onde eles iam se “reabilitar” da audição e da fala e, nesse sentido, funcionava quase como um hospital. Os professores eram vistos como terapeutas e as técnicas praticadas eram da fonoaudiologia. Ou seja, a educação para os surdos era uma educação “especial” que visava apenas a reabilitação da fala e desconsiderava o ensino, a parte pedagógica, que poderia ser desenvolvida através da língua de sinais. Em muitos casos os surdos eram inclusive desestimulados e até proibidos de utilizar sinais para se expressar. Neste sentido a educação especial estar hoje integrada como modalidade na educação geral devolve a ela o caráter pedagógico e educacional que se perdeu historicamente. Portanto, o PNE traz estas duas conquistas muito importantes: a reafirmação da educação especial como transversal à educação regular e o caráter pedagógico que deve caracterizar a educação especial.

Paralelamente à luta pela integração da educação especial à educação geral, vem o movimento dos surdos. A comunidade dos surdos, entretanto, não reivindica a escola especial como espaço educacional, mas defende uma escola como outra qualquer, só que uma escola bilingue, que se utilize de uma língua que seja acessível para os surdos, que é a língua brasileira de sinais (Libras), como primeira língua e o português ensinado como segunda língua.

A partir da década de 1960 e 1970, os primeiros estudos da língua americana de sinais são sistematizados e as crianças surdas, que eram filhos de pais surdos e que tiveram a língua de sinais como principal meio de expressão começaram a ser estudadas comparativamente às crianças ouvintes. Aí se percebeu que o desenvolvimento cognitivo, linguístico e acadêmico dessas crianças é muito superior em relação à criança que não teve acesso a língua de sinais como língua materna. Ficou comprovado que é muito mais fácil para o surdo aprender uma segunda língua, no nosso caso, o português, a partir do domínio de uma primeira língua, a Libras.

Esta demanda é vital para a comunidade dos surdos e o deputado Angelo Vanhoni, em seu relatório contemplou esta possibilidade na redação final da meta 4, incorporando a reivindicação do movimento surdo. O texto anterior previa que o ensino para os surdos devia acontecer no contexto regular prioritariamente e que haveria uma complementação no contraturno, o chamado atendimento educacional especializado. Agora, com a meta revisada, abre-se espaço para que o surdo possa efetivamente ter a escola bilingue e não apenas o bilinguismo como complementação pedagógica em regime de contraturno, como a redação da meta antes estabelecia.

Blog Vanhoni: Como é o movimento dos surdos no Brasil? É um movimento unitário ou existem vozes discordantes?

Sueli Fernandes: Hoje a organização política dos surdos defende hegemonicamente a educação bilingue, embora haja vozes dissonantes, inclusive de grupos de surdos que negam a centralidade da lingua de sinais como símbolo identitário e reafirmam a língua oral como a única lingua legítima, discriminando os surdos que sinalizam por não terem aprendido a oralizar. Há uma controversia muito séria em relação a isso, que reflete também a disputa social.

Porém, a organização política do movimento dos surdos bilingues é muito expressiva, aqueles que defendem a centralidade da língua dos sinais para seu reconhecimento identitário. A única legislação nacional, neste sentido, é a lei de Libras (Lei Federal 10436/2005), que reafirma e conceitua o surdo como o sujeito que vive uma experiência visual e que manifesta sua cultura pela língua brasileira de sinais.

Blog Vanhoni: A língua de sinais depende da existência de uma comunidade de falantes que inclui também os ouvintes. Como ficou esta questão no Paraná?

Sueli Fernandes: Quando eu comecei a trabalhar na Secretaria de Educação do Estado com gestão de políticas para surdos eu pude ter uma visão mais ampla das questões políticas que estão além da sala de aula. Houve uma confluência de fatores que nos levaram, desde 1998, a construir um ambiente político, acadêmico e no interior das escolas para mudar a perspectiva clínica que dominava a educação dos surdos. Quando a Libras foi oficializada no estado do Paraná, de uma forma pioneira, junto com o estado de Goiás, o Brasil ainda não tinha a lei de Libras. O Paraná saiu na frente institucionalmente, e durante muito tempo fomos a principal referência nacional na educação bilíngue.

A nossa tentativa era difundir a língua de sinais através da formação de comunidades linguísticas vivas no estado. Durante alguns anos tivemos encontros anuais em Faxinal do Céu onde ficávamos em imersão com mais de 700 pessoas (cerca de 500 surdos) de diversos lugares do estado, para formar uma rede de relações, para que os surdos tivessem uma referência em outros modelos linguísticos e identitários para que a política de bilinguismo pudesse acontecer nos municípios. Isso gerou uma grande transformação linguística e cultural no estado e por isso a gente luta muito pelo espaço das vivências em Libras como uma língua viva de interação e produção de conhecimento. Você tem que reunir os surdos. Não tem outro jeito de fazer a língua circular como meio principal de comunicação e acesso ao conhecimento, e se os surdos estiverem dispersos isso não acontece. Por isso, a escola bilingue é importante.


Blog Vanhoni: Qual a oferta que existe hoje de capacitação em Libras para falantes em Curitiba?

Sueli Fernandes: No âmbito público não existem cursos de Libras para a comunidade. A UFPR ofertou Libras como curso de extensão, durante alguns anos, mas atualmente não temos professores suficientes para dar conta dessa demanda. As secretarias de educação também não oferecem cursos gratuitos para a comunidade. Há, no entanto, algumas igrejas que oferecem alguma formação, com taxas simbólicas.

Blog Vanhoni: Qual a população estimada de surdos no país?

Sueli Fernandes: A Organização Mundial de Saúde apresenta o número de 10% da população mundial com deficiência, dos quais 1,5% seriam surdos. O Censo de 2010 aponta mais de 9 milhões de brasileiros (5,2%) com algum grau de perda auditiva. Nos achamos que há um índice de 0,5% da população brasileira de surdos potencialmente bilíngues, ou seja, que necessitariam da Libras e do português para se comunicar. Aqui em Curitiba esta estimativa é de aproximadamente 50 mil surdos nessa condição.

Blog Vanhoni: Quais livros você indicaria para quem quer aprender Libras?

Sueli Fernandes: Para o leitor iniciante, um bom livro para conhecer aspectos gerais  é “Libras, que língua é essa?”, de Audrei Gesser, publicado pela editora Parábola, no qual a autora se propõe a desmistificar preconceitos acerca da língua de sinais, dos surdos e da surdez. Não é um livro para aprender Libras, mas sobre ela.

O primeiro grande teórico da linguística da Libras, em termos mundiais, foi William Stokoe, que pesquisou extensivamente a língua de sinais americana como fruto de seu trabalho na Universidade Gallaudet, a única universidade para surdos do mundo, em Washington, D.C. Ele publicou obras importantes como Sign Language Structure (1960) e A Dictionary of American Sign Language on Linguistic Principles (1965), que servem de base para estudo das línguas de sinais de todos os países.

Em português temos estudos importantes realizados por Ronice M. Quadros, Lodenir Karnopp e Tanya A. Felipe, e um dicionário trilingue (Libras, português e inglês) que documenta mais de 9 mil verbetes da Libras. Na versão digital, há um dicionário de Libras disponível no sítio http://www.acessobrasil.org.br/libras produzido pelo Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), com recursos do governo federal.

Entrevista: Octavio Camargo
Fotos: Gilson Camargo

5 Comentários

  1. Sandra Patrícia
    31 de janeiro de 2013

    Excelente, a entrevista da Professora Sueli Fernandes. A votação do PNE no Senado Federal precisa legitimar o texto aprovado na Câmara dos Deputados com a redação do relator Vanhoni, no qual acolhe a reivindicação justa e cientificamente respaldada, de um grupo da sociedade civil representativo, consciente e militante de suas necessidades. As escolas bilíngues nas quais a Libras como primeira língua e o português escrito como segunda língua são línguas de instrução, conferem uma melhoria considerável à educação dos surdos.

  2. Rodrigo Pimenta
    12 de abril de 2013

    Oi, Bom dia! gostei seu texto muito que voce apresentou educação de surdo na escola bilingue é importente que voce podemos ajudar aqui em Santana-AP sem comunica encontrar pessoa conta relação surd@ especialista/ mestrada onde acontecer?

    Obrigado!

  3. Marcia Tegangno
    19 de abril de 2013

    Excelente entrevista com a Prof Sueli. O mundo da comunidade surda realmente é recheado de acontecimento que, deste lado, o do ouvinte, não temos conhecimento. A sociedade necessita saber sobre as coisas que acontecem em nossa comunidade, com nosso semelhante, as diferenças colocam as pessoas no encontro de experiências muito diferentes daquelas que estamos acostumados a vivenciar.

  4. Sonia Maria Teixeira
    25 de setembro de 2013

    Adorei a entrevista e acrescentou muito a meus conhecimentos.

  5. Alberto J. Santos
    23 de agosto de 2014

    Parabéns pela entrevista uma excelente matéria, foi muito legal te encontra apesar de ter sido muito rápido no elevador da UFPR dia 07 do corrente mês Alberto Patrícia.
    A Educação especial para surdos nós caracterizarmos como BASES sendo uma sala de aula preferencialmente distribuída na educação infantil, e ensino fundamental, organizada de forma a se constituir em ambiente próprio e adequado ao processo ensino/aprendizagem do educando portador de necessidades educacionais especiais para os SURDOS. A base não esta na escola mais nos seus profissionais que exigem Ética, Conceitos, Solidariedade e participação do individuo surdo que muitas vezes aceita a criança surda no espaço escolar mediante seu diagnostico não especifico sobre seu potencial.
    São Paulo Agosto 2014
    e-mail. psicopsurdo@uol.com.br

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  1. By Olhar Comum » o plano nacional de educação e o ensino bilíngue para surdos – entrevista com sueli fernandes on 22 de fevereiro de 2013 at 17:28

    […] produzido pela Olhar Comum e originalmente publicado em http://www.vanhoni.com.br/2013/01/o-plano-nacional-de-educacao-e-o-ensino-bilingue-para-surdos-entre… Category : Índice facebook Twitter del.icio.us digg […]

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