mupe – museu de periferia do sítio cercado – abaixo assinado solicita oficinas do ibram para criação de um ponto de memória na comunidade

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Moradores do bairro Sítio Cercado, em Curitiba, reuniram-se na Associação Vila Vitória, no dia 22/05/2009, com o objetivo de criar um Ponto de Memória na comunidade. O encontro resultou numa lista de assinaturas solicitando uma oficina de museologia ao Instituto Brasileiro de Museus – IBRAM. Uma próxima reunião foi agendada para o dia 04 de Julho de 2009 na atual sede da ACNAP/Casa Brasil. A carta é endereçada à Mário de Souza Chagas, Coordenador de Processos Museais do IBRAM.

Os Pontos de Memória são uma iniciativa do Programa Nacional de Justiça com Cidadania – PRONASCI, uma parceria entre o Ministério da Justiça e o Ministério do Cultura – MinC. Em abril deste ano a ACNAP / Casa Brasil, no Sítio Cercado, recebeu a visita de contadores de histórias do Rio de Janeiro vinculados ao Museu da Maré e ao Museu de Favela – MUF para uma troca de experiências sobre a implantação dos Pontos de Memória em suas comunidades

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Moradores do Sítio Cercado e amigos do MUPE – Museu de Periferia, presentes na reunião do dia 22/05/2009.

O texto abaixo foi  lido por José Afonso Filho ( Zuca), durante a reunião na Vila Vitória em 22/05/2009. Trata-se de uma compilação de relatos sobre as primeiras familias que ali residiram e conta a história do bairro até 1987.

“O nome do atual bairro Sítio Cercado encontra a sua origem no passado de um sítio de 175 alqueires com o mesmo nome. Cercado pelas águas dos arroios da Padilha, Cercado e Boa Vista. O seu proprietário era o Sr. Laurindo Ferreira da Cruz, nascido em 22/12/1862, e casado com Maria Pereira de Andrade em 07/07/1888. A casa onde morava tinha 14 peças, era feita de pedra natural e de barro, e localizava-se onde hoje existe o conjunto de Moradias Olinda, no encontro das ruas Apucarana e Sertaneja. Além de criações de gado suíno e bovino, possuía também um pomar de laranjeiras, mimoseiras, figueiras e pessegueiros. O acesso ao sítio se dava pela linha seca através de um portão, hoje defronte a igreja de futurama. Com a morte do Sr. Laurindo em 23/05/1932, o sítio foi dividido entre os 3 filhos herdeiros: Júlia, Sezinando e Isaac. A Júlia, casada com Pedro Ferreira, ficou com a parte dos fundos do sítio, uma faixa de terra encostada no arroio Cercado. Ao Sezinando coube a parte do meio, hoje formada pelas vilas desde o Jardim Irati até o rio das Padilhas. Isaac ficou com a casa paterna e a área de frente do sítio hoje formada pela vilas Rio Negro e Santa Celeste, Isaac casou-se com dona Magdalena Claudino da Cruz que lhe deu 3 filhos: Deusita, Eurides e Isaíde. Em 1946 o Sezinando vendeu a sua parte à colônia dos Irmãos Menonitas, que para criação de gado leiteiro, distribuiu a área em faixas de terra entre os leiteiros alemães, de acordo com as condições e possibilidades de cada um. Em 1947, após a morte de sua filha Isaíde, o Isaac abandonou o sítio e se muda para o Pinheirinho onde ele constrói na entrada da estrada para Umbará uma casa e inicia o Posto de Gasolina Pinheirinho. O sítio foi entregue aos cuidados de seu agregado José Gonçalves e sua esposa Ana, que moravam numa casa localizada entre o portão e a casa original. Em 25/05/53 o Sr. Isaac F. da Cruz que já havia vendido 10 alqueires aos leiteiros alemães vende o restante da herança dele ao Sr Maciel Augusto José Bohn, Newton e Gilberto Agiber, que em sociedade começou a lotear a Vila Rio Negro. A Vila Santa Celeste será loteada já em 1972. O Sr. Domingos Campos adquiriu a chácara com a casa original, área entre as ruas Parecatu e Astorga, onde hoje se localiza o conjunto de Moradas Olinda. Em 21/04/1955, em circunstâncias bastante confusas e suspeitas, queimou a casa original. Falava-se de um suposto tesouro escondido nas paredes ou embaixo da casa. Por falta de infra-estrutura e interesse dos compradores a povoação do loteamento vai demorar bastante. Era considerada uma área sem futuro ou condições de progresso. É a partir dos anos 70, forçadas pelo êxodo rural, que milhares de famílias vindo inicialmente de Santa Catarina, depois do Norte do Paraná, vão ocupando os novos loteamentos. Os leiteiros alemães, pressionados pelo avanço da cidade, vendem as suas terras às companhias de loteamento e então vão surgindo os diversos loteamentos: Vila Americana (1968), Vila Nossa Senhora de Lourdes, Santa Joana, Jardim Tranquilo, Jardim Irati (1974), e outros. Mais tarde em 1978, a partir de uma ocupação da área por famílias sem casa surge a Vila Nova Aurora. É por fim em 1985, a partir das desapropriações feitas pela prefeitura municipal para assentamento de famílias que surgem as moradias Olinda e Del Rey. Hoje, em 1987, esta parte do Sítio Cercado conta com mais de 6 000 famílias ou 24 000 pessoas.”

A memória do Sítio Cercado com seus pastos e gado continua viva através do Sr. José Gonçalves, Dona Ana e seus filhos Adis e Jorge que moram na rua Assaí, criando gado em terras alugadas fora do Sítio Cercado. Esta história foi escrita a partir de depoimentos da Dona Deusita, do Sr. Eurídes, Sr. Jango (filho da Dona Julia), o velho Maneco (empregado do Sr. Isaac) e o Sr. José Gonçalves.

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  3. […] mupe – museu de periferia do sítio cercado – abaixo assinado solicita oficinas do ibram para criação de um ponto de memória na comunidade Por vanhoni 2 Comentários Categorias: Uncategorized O conteúdo deste post encontra-se em http://www.vanhoni.com.br/2009/05/mupe-museu-de-periferia-do-sitio-cercado-abaixo-assinado-solicita-… […]

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