exposição inaugural do museu de periferia do sítio cercado (mupe) – curitiba/pr

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Dentre os objetos que compõem a mostra estão utensílios e ferramentas utilizadas pelos moradores durante o período das ocupações irregulares nas décadas de 1980 e 90.

O Museu de Periferia do Sítio Cercado (MUPE) realizou sua exposição inaugural, intitulada “Memória e Sonhos do Sítio Cercado”, na última sexta feira, 16/12. A sede do museu fica na rua Francisco José Lobo, 213, no Xapinhal, em espaço compartilhado com a Associação de Moradores Nossa Senhora da Luta. A mostra estará aberta a visitação até o dia 23 de dezembro. Após este período as visitas podem ser agendadas para 2012. O MUPE conta com a consultoria técnica do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) através do Programa Pontos de Memória, do Ministério da Cultura.

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O artista plástico Claudinei Silvestre Pereira, residente no Bairro Novo e membro da Associação Família e Solidariedade, grafitou o muro do museu durante a abertura da exposição.

O processo de instalação do museu, que contou com o apoio do mandato do deputado Angelo Vanhoni, teve inicio em março de 2009 através de um intercâmbio entre integrantes do Museu da Maré e do (MUF) Museu de Favela (RJ) com moradores do Xapinhal, no Sítio Cercado, Curitiba. Após este contato a comunidade se organizou para solicitar as oficinas de museologia do IBRAM que ocorreram durante os anos de 2009 a 2011. O primeiro conselho gestor da entidade foi constituído em 22 de maio de 2010 com a presença dos consultores do IBRAM e de diversas lideranças comunitárias. A Assembléia de Fundação do Museu de Periferia do Sítio Cercado ocorreu na sede da Prefeitura Regional do Bairro Novo, no dia 15/04/2011.

Neste período o MUPE vem organizando ações de sensibilização para a memória viva do Sítio Cercado em escolas públicas, a exemplo do projeto “Como você vê o seu bairro?” realizado em parceria com a Escola Guilherme Lacerda Braga Sobrinho (CAIC), e também através dos diversos “Cafés da Memória“, identificando moradores antigos e reunindo as comunidades em torno do resgate de seus relatos da construção do bairro de maior adensamento populacional da cidade.

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Na imagem, da direita para a esquerda: Inês Gouveia, consultora do IBRAM, Marcelo Rocha, coordenador do MUPE, Palmira de Oliveira, conselheira e coordenadora do MUPE, José Paiva, fotógrafo, e Marcelo Vieira, cenógrafo. A abertura da exposição contou ainda com a apresentação artística do grupo de dança Ka-Naombo, da Associação Cultural de Negritude e Ação Popular (ACNAP).

Após um longo período de pesquisa e identificação de acervos documentais e fotográficos existentes no bairro, a montagem da exposição “Memórias e Sonhos do Sítio Cercado” foi concebida pelos integrantes do museu durante a oficina de expografia ministrada pelo artista plástico e cenógrafo carioca Marcelo Vieira, um dos pioneiros da museologia social no Brasil, Vieira realizou também a cenografia da primeira exposição do Museu da Maré no Rio de Janeiro, inaugurado em 2006.

A mostra conta com três momentos em sua dramaturgia: O periodo de formação do bairro, desde os primeiros moradores até os imigrantes pioneiros, as ocupações de terra a partir da década de 80 e a luta social por moradia, e o bairro nos dias de hoje, com seus avanços em infraestrutura e os diversos problemas decorrentes do grande adensamento populacional e dos altos índices de violência.

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O nome do atual bairro Sítio Cercado encontra a sua origem no passado de um sítio de 175 alqueires com o mesmo nome. Cercado pelas águas dos arroios do Padilha, Cercado e Boa Vista. O seu proprietário era o Sr. Laurindo Ferreira da Cruz, nascido em 1862, e casado com Maria Pereira de Andrade. Com a morte do Sr. Laurindo em 1932, o sítio foi dividido entre os seus 3 filhos: Júlia, Sezinando e Isaac. Isaac ficou com a casa paterna e a área de frente do sítio hoje formada pela vilas Rio Negro e Santa Celeste. Isaac casou-se com dona Magdalena Claudino da Cruz que lhe deu 3 filhos: Deusita, Eurides e Isaíde. Em 1947, após a morte precoce de sua filha Isaíde, o Sr Isaac abandonou o sítio e se mudou para o Pinheirinho. O sítio foi entregue aos cuidados de seu agregado José Gonçalves e sua esposa Ana. A partir de 1953 o Sr. Isaac, que já havia vendido 10 alqueires de terra, vende o restante da herança e o antigo sítio passa a ser dividido em loteamentos.

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É a partir dos anos 70, forçadas pelo êxodo rural, que milhares de famílias vindo inicialmente de Santa Catarina, depois do Norte do Paraná, vão ocupando os novos loteamentos. Nesta época surgem os loteamentos da Vila Americana (1968), Vila Nossa Senhora de Lourdes, Santa Joana, Jardim Tranquilo, Jardim Irati (1974), e outros. Mais tarde em 1978, a Vila Nova Aurora. Em 1985, a partir das desapropriações feitas pela prefeitura municipal para assentamento de famílias surgem as moradias Olinda e Del Rey. Em 1987, esta parte do Sítio Cercado contava com mais de 6.000 famílias ou aproximadamente 24.000 pessoas.

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Xapinhal, durante a ocupação em 1988 – acervo MUPE.

A grande explosão demográfica do bairro, no entanto, começou a acontecer a partir da década de 1980. Um dos marcos deste período é a ocupação do Xapinhal, palco do maior movimento social por moradia em região urbana da história brasileira. Em outubro de 1988, ocorreu a ocupação da área conhecida por Xapinhal, fruto de um trabalho organizado por 16 entidades comunitárias dos bairros Xaxim, Pinheirinho, Sítio Cercado e Alto Boqueirão. O movimento levou dois anos para se concretizar; teve início em 1986, e seu objetivo central era resolver o problema de moradia para a população desses bairros.

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O momento da conjuntura política e econômica nacional era o do início dos planos econômicos. O Plano Cruzado, criado em fevereiro de 1986, começou a desmoronar no final desse mesmo ano e início de 1987: os preços, inclusive dos aluguéis, descongelaram e os salários não acompanharam o ritmo, sofrendo perdas. Em junho de 1987, foi substituído pelo Plano Bresser, que registrou uma inflação inicial de 3,05% em julho de 1987, mas terminou, em janeiro de 1989, com a inflação na casa de 37%.

Diante desse quadro de desesperança, em 1988, ocorreu a primeira ocupação numa área particular, denominada Sítio Cercado. Nessa ocupação, os números finais apontaram a participação de 16 associações de moradores, 3.200 famílias e mais de 10 mil pessoas.

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Xapinhal 1988 – acervo MUPE.

O afluxo de famílias para a área atingiu uma dimensão tal que extrapolou em muito as expectativas daqueles que se prepararam longamente para o acontecimento. No total, foram oito levas de ocupação, chegando a ocupar a totalidade da área de 441.000 m2. Outras áreas do bairro foram ocupadas de forma semelhante na década de 90, dentre elas, a Vila 23 de Agosto e o Campo Serrado.

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Os Pontos de Memória têm por concepção reconstruir e fortalecer a memória social e coletiva de comunidades, a partir do cidadão e de suas origens, histórias e valores. Com metodologia participativa e dialógica, trabalham a memória de forma viva e dinâmica, como ferramenta de transformação social. Em estágio pleno de desenvolvimento, os Pontos de Memória são capazes de promover a melhoria da qualidade de vida da população e fortalecer as tradições locais e os laços de pertencimento, além de impulsionar o turismo e a economia local, contribuindo positivamente na redução da pobreza e violência.

Também são considerados espaços de referência nos territórios, por estarem associados a locais de riqueza histórica e cultural. Além disso, os pontos valorizam o protagonismo popular e concebem o museu como instrumento de mudança social e desenvolvimento sustentável. Ademais, entendem a memória como resultado de interações sociais e processos comunicacionais, os quais elegem aspectos do passado de acordo com as identidades e interesses dos componentes do grupo. Ainda por considerarem o patrimônio cultural como um processo social afirmativo de identidade coletiva e cidadania.

No momento estão em desenvolvimento 12 Pontos de Memória, situados em comunidades populares nas seguintes cidades: Belém/PA (Comunidade de Terra Firme); Belo Horizonte/MG (Comunidade do Taquaril); Brasília/DF (Comunidade da Estrutural); Curitiba/PR (Comunidade do Sítio Cercado); Fortaleza/CE (Comunidade Grande Bom Jardim); Maceió (Comunidade do Jacintinho); Porto Alegre/RS (Comunidade da Lomba do Pinheiro); Recife/PE (Comunidade do Coque); Rio de Janeiro/RJ (Comunidades do Pavão-Pavãozinho-Cantagalo); São Paulo/SP (Comunidade da Brasilândia); Salvador/BA (Comunidade do Beiru) e Vitória/ES (Comunidade do São Pedro).

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Contato para agendamento de visitas:
MUPE – Rua Francisco José Lobo, 213. Xapinhal, Curitiba, PR
(41) 9678-4399  / 8834-5228
e-mail: museudeperiferia.mupe@gmail.com
blog: mupesitiocercado.blogspot.com

Fotos: Gilson Camargo

2 Comentários

  1. João Bispo
    9 de junho de 2012

    Parabéns galera do Sitio Cercado, belo trabalho e eu me orgulho de estar fazendo parte desse grupo da Museologia Social do Brasil. Salve Salve….

  2. Ana Claudia
    17 de janeiro de 2015

    Parabéns pela Exposição! Gostaria de saber como é feita a visitação no Museu, existe um valor cobrado? Tem monitoria ? Precisa Agendar? Eu sou de Belém do Pará e Gostaria de saber se eu quiser visitar o Sítio Cerrado como faço ?

4 Trackbacks

  1. […] O dia de votação possibilitou ainda o encontro de velhos companheiros para um café da manhã na casa de Jairo Graminho de Oliveira, 84 anos, um dos militantes mais antigos do partido e uma forte liderança do “Movimento por Moradia”, na década de 80. Edésio Passos, um dos fundadores do PT no Paraná, também esteve presente e lembrou a importância das lutas socias por moradia para o surgimento do PT em Curitiba. O Xapinhal e o Bairro Novo, no Sítio Cercado, foram conquistas deste movimento, além da regularização de propriedades em diversos bairros da periferia da cidade. Links para:  “Os anos heróicos” ,  sobre os primeiros anos do PT no Parana. e Museu de Periferia do Sítio Cercado […]

  2. […] do Sítio Cercado aqui em Curitiba, que hoje se mobiliza para regatar um pouco a sua história no Museu de Periferia (MUPE), já fizeram um museu, querem se relacionar com as escolas da região e com a comunidade. Que estas […]

  3. […] cultural com o Museu de Favela e o Museu da Maré (RJ) Formação do Conselho Gestor do MUPE Assembleia de Fundação do Museu de Periferia do Sitio Cercado Exposição inaugural do MUPE Blog do […]

  4. […] Leia mais sobre a exposição inaugural do Museu de Periferia do Sítio Cercado (MUPE). […]

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