entrevista com mirian gonçalves, vice-prefeita de curitiba e secretária municipal do trabalho e emprego

Blog Vanhoni: Mirian, quais são os projetos para a vice-prefeitura de Curitiba?

Mirian Gonçalves: Nós estamos ainda principiando. Nós chegamos à prefeitura e encontramos não só uma dívida muito grande, mas, também problemas de administração. Então, neste primeiro momento estamos fazendo ajustes, mas daqui para a frente temos que trazer um recorte maior do PT na administração pública.

Nós fizemos uma coligação não só para a eleição. Isto ficou claro desde o início. Temos a nossa forma de entender a cidade e o processo de governo, que não é incompativel com o que o Gustavo pensa, muito pelo contrário, há uma confluência de pensamento e de intenções, mas a nossa contribuição tem que ser colocada.

Neste primeiro ano o nossso gabinete tem trabalhado em diversas frentes. Estamos trabalhando em parceria com a Secretaria de Educação na implementação da Lei que determina que 30% da alimentação das escolas venham da agricultura familiar. Isto é fundamental em nosso compromisso com o governo federal e com os trabalhadores rurais de menor produção, de menor poder aquisitivo. Também, por outro lado, há um compromisso com os cidadãos e com as crianças. Nós acreditamos que os alimentos provindos destes produtores farão uma diferença positiva na alimentação das crianças. Hoje, em Curitiba, a maioria dos alunos está com sobrepeso e  isto é preocupante. O que nós estamos pensando? Em introduzir alimentos mais naturais, mais saudáveis, para que a gente possa através de uma reeducação alimentar resolver em parte este problema.

Para isso trabalhamos em conjunto com o Ministério do Desenvolvimento Agrário, a Secretaria de Educação, a Secretaria de Abastecimento, a Emater, a Vigilância Sanitária, a representante do Ministério Público Municipal. Já fizemos várias reuniões com cooperativas pequenas para criar um edital que possibilite esta participação. Os números, para você ter idéia, são preocupantes. Hoje nós servimos em Curitiba, entre a escola, as creches e as conveniadas, 280 mil refeições diárias e no ano passado foram comprados apenas R$ 3.600,00 da agricultura familiar.

Faremos agora em março uma convocação para a discussão do edital. Isto será aberto, todos os produtores que tem interesse em participar estarão ali para a gente discutir. Desde o  ponto de vista da democracia desta chamada pública, de como vai funcionar, quais são os ítens, enfim, esta atitude é inédita e tem, sem dúvida, a marca do Partido dos Trabalhadores. Além disso, temos projetos também na área da transparência da administração pública, na discussão das ciclovias, em projetos na área de transporte público, radares e monitoramento, e no diagnóstico da segurança em Curitiba.

Blog Vanhoni: E na Secretaria do Trabalho e Emprego? Qual o diagnóstico deste setor? O que você prospecta como prioridade?

Mirian Gonçalves: Temos diversos problemas. Precisamos desocupar a sede atual, que está muito precária e que era cedida pela COHAB. O Coronel Frederico, da Guarda Municipal, disponibilizou prontamente um espaço bem razoável, onde estava a Secretaria Antidrogas. Há necessidade de recursos para fazer a adequação, mas isto nós vamos resolver. O maior problema, porém, está no SINE, que atende tanto o Seguro Desemprego como a intermediação de mão de obra. Eles estão localizados nas Ruas da Cidadania e o maior movimento está no terminal do Pinheirinho.

A gente encontrou situações de pessoas chegando lá as 4 horas da manhã para fazer fila e retirar senhas para o atendimento, que começa às 7h30. O espaço é muito pequeno, inadequado e o serviço é todo tercerizado, não é feito pela prefeitura. Isso ocasionou um atendimento de quase 120 mil pessoas no ano passado. Mas há um deficit bárbaro! Foram 33 mil vagas abertas e a Secretaria conseguiu efetivar um pouco mais de 1.240 vagas. Ou seja, um aproveitamento em torno de 4%, apenas. O atendimento é muito demorado, os empresários estão desistindo de buscar este serviço, assim como as pessoas que estão procurando emprego. Nós não temos nenhum tipo de comunicação de sistema que nos informe se a pessoa foi realmente efetivada, para qual vaga e se permanece no emprego. Não temos um site para informação, para retirada de senhas, e também não temos ainda nenhum atendimento eletrônico.

Blog Vanhoni: E a questão da profissionalização. Qual a participação da Secretaria do Trabalho neste área?

Mírian Gonçalves: A maioria dos cursos de profissionalização na cidade são financiados pelo governo federal através do Sistema S e dos Institutos Tecnólogicos. Mas, cabe ao município diagnosticar as demandas locais e direcionar estes cursos para atender as necessidades de cada bairro de acordo com a sua vocação. Pelo relatório do ano passado houve um grande número de profissionalizações. Porém, os empregadores tem nos procurado para pedir que a gente rediscuta alguns dos cursos. Está faltando profissionais na área da construção civil. Conforme dados do Sinduscon, está faltando azulejistas, mestres de obras, encanadores, eletricistas, etc…

Este ano a repactuação dos cursos profissionalizantes encerra em 15 de março. É um periodo muito curto para fazermos uma avaliação, mas nós percebemos que há um número de cursos que não interessam tanto ao mercado e que também não atendem a demanda dos trabalhadores. Nós temos que construir, em diálogo com os trabalhadores, sindicatos, assim como com os empresários novas propostas, outros cursos. Estamos falando de trazer professores, outros temas, outros locais, mas para isso precisamos fazer um geo-referenciamento e saber qual a vocação de cada bairro. Isso é um projeto da Secretaria. Espero que até o final do ano a gente possa fazer uma avaliação mais precisa.

Blog Vanhoni: Como você vê a questão do trabalho informal, a exemplo dos carrinheiros e catadores de papel?

Mirian Gonçalves: Esta é uma questão muito grave e muito ampla, pois estamos tratando do principal ator de reciclagem em nossa cidade. Quantas vezes por semana o caminhão de reciclagem passa? Duas ou três? O carrinheiro trabalha todos os dias! Eles prestam um serviço essencial para a cidade e são, neste sentido, explorados. Eles não tem local adequado para alimentação, carregam peso excessivo, o material coletado não é recepcionado diretamente pela empresa que faz a reciclagem, e tem um intermediário, onde o carrinheiro é mais uma vez explorado.

Blog Vanhoni: Que possibilidade de transformação esse paradigma tem?

Mirian Gonçalves: Não é um problema simples. Ele é interdisciplinar e tem que ser tratado desta forma. Toca em questões de educação, de saúde, de assistência social e de infra-estrutura. As pessoas ainda não sabem quais são os materiais realmente recicláveis. O acrílico, por exemplo, não é. Quantas pessoas colocam garrafas de vidro junto com outros materiais, e que muitas vezes machucam o catador? Há a necessidade de reeducarmos as pessoas para o ciclo. Temos que resolver a questão dos intermediários, incentivar as cooperativas de catadores e desenvolver outras formas de recolhimento.

Blog Vanhoni: Fale um pouco sobre você, sua formação e sua trajetória política.

Mirian Gonçalves: Eu sempre tive um trabalho de bastidores dentro do PT, como advogada, desde o início do partido. Trabalhei também com a Gleisi na campanha dela ao senado, fiz o plano de governo, mas, o que marca mesmo a minha trajetória e a minha vida é a dedicação ao movimento sindical dos trabalhadores. Já com 19 anos, quando estava no escritório do Edésio Passos, eu fui formada para isso. Nós tinhamos o maior escritório de defesa da luta dos trabalhadores do sul do Brasil. Aos 21 anos eu já era advogada dos trabalhadores da área da segurança. Trabalhei muito na defesa do direito à moradia, desde a época da ocupação do Xapinhal, no Sítio Cercado, sempre fui atenta a essa luta. Formei o IDD, o Instituto de Direito e Democracia, que é dedicado a várias áreas do direito humano.

Blog Vanhoni: Mirian, obrigado por nos receber e nos conceder esta entrevista. Você teria alguma consideração final?

Mirian Gonçalves: Eu estou muito otimista! Embora neste período inicial esteja um pouco chocada pela situação que a gente encontrou. Mas, nós temos excelentes secretários, uma equipe competente e motivada. Estou certa de que faremos um bom trabalho.

Entrevista: Octavio Camargo
Fotos: Gilson Camargo

1 Comentário

  1. Paulo T M Vieira
    9 de março de 2013

    Com relação aos recicladores de materiais recicláveis é importante frisar que são responsáveis pela coleta de 2/3 do volume gerado em Curitiba, e as empresas que tem contrato milionário com o poder público coletam o outro 1/3. Em contra partida o valor aplicado para os recicladores é quase nulo. Efetivamente precisamos mudar totalmente o enfoque e partir para a remuneração dos recicladores, mas com o conceito da multidisciplinaridade. Provendo educação e saúde, notadamente na formação dos direitos inerentes ao cidadão . Isso é primordial, o desenvolvimento da cidadania.

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