cultura popular – entrevista com itaercio rocha – curitiba/pr

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Itaercio Rocha, músico, bonequeiro, carnavalesco e saci dos Garibaldis, nasceu em Humberto de Campos (MA), cidade que possui o maior bumba-meu-boi do Brasil. Foi sempre um estudioso das manifestações populares brasileiras e morou nas cidades de Olinda (PE), São Luis (MA), Campo Grande (MS), Rio de Janeiro e Maringá (PR) antes de se estabelecer em Curitiba a partir de 1996. Através de sua atividade artística e iniciativa, fomentou na cidade de Curitiba um bloco pré carnavalesco de grande expressão, que hoje reúne milhares de pessoas em suas apresentações no Largo da Ordem. Itaércio é presidente da Associação dos Amigos do Garibaldis & Sacis e nos concedeu essa entrevista em sua residência, neste sábado, 11/02, véspera da última apresentação do bloco no pré carnaval de 2012.

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Blog Vanhoni: Onde você nasceu e qual foi a sua trajetória antes de chegar em Curitiba?

Itaercio Rocha: Na verdade eu já tenho muito mais tempo de Paraná do que o resto da minha vida nos outros lugares. Eu me sinto mais paranaense, mas guardo a referência da minha infância e adolescência no Maranhão, em São José do Ribamar. Eu visitei no ano passado a vila onde nasci; Pedras, no município de Humberto de Campos, no Maranhão, onde só se chega de barco. Não tem luz elétrica nem água encanada. Construíram, ano passado, um posto médico para atender os casos mais sérios. Meu pai, minha mãe e meus irmãos nasceram lá. Depois a gente se mudou para São José de Ribamar, onde morreu meu pai, depois minha mãe, e eu fui para o Rio de Janeiro morar com meus tios. Em 1975 mudei para Campo Grande e em 1977 voltei para o Maranhão. Desta vez fui morar na capital, em São Luis, até 1982. Sempre fui apaixonado por São Luís e vivi intensamente esta cidade. Apaixonado de querer beijar as pedras!

Blog Vanhoni: E o teu interesse pela cultura popular, de onde vem?

Itaercio Rocha: Eu não tenho outro viés, não tenho outro caminho. Meu pai era músico de bumba boi, tocava cordas e era músico prático no interior do interior do Brasil, para acompanhar ladaínha, para acompanhar procissão, acompanhar bumba boi. Minha avó botava uma brincadeira de bumba boi, minha mãe botava pastoril. O meu entendimento estético é bumba boi e carnaval na veia.

Sempre tive o desejo de ser artista e trabalhar com arte educação. Com 12 anos cantei num festival no interior do Maranhão e depois fui cantar na capital. Eu fazia teatro na escola, acompanhava todas as atividades artísticas da minha mãe nas Festas de Nossa Senhora, na Festa de São Sebastião e na Festa de São Pedro, que ela trabalhava. Minha mãe visitava todas as festas de terreiro da cidade, as festas de Tambor de Minas, e as festas do Divino Espírito Santo. Ela era uma grande diretora de cena.

Quando saí do Maranhão, em 1982, morei 11 meses em Olinda e fui fazer teatro de bonecos lá. Fui estudar frevo, capoeira, caboclinho, mas eu já fazia bonecos no Maranhão. Lembro de ter assistido a dois espetáculos que me influenciaram muito. Um deles era chamado “Tempo de Espera” do Aldo Leites, que fez muito sucesso no Brasil e na Europa, e o outro se chamava “Cavaleiro do Destino”, que tinha bonecos gigantes, bonecos de vara. Eu me apaixonei e disse para mim mesmo: “é isso que eu quero fazer!”. Era um espetáculo todo na linguagem popular. Eu caí de cabeça nessa coisa de teatro de bonecos, que ligava teatro, dança e música, especialmente embasado na cultura popular do Maranhão daquela época. De lá para cá todo o tempo que eu moro na capital eu faço isso. Quando vou à Olinda vou fazer isso, no Paraná faço isso, volto pro Rio e faço isso.

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Blog Vanhoni: Como foi o início do bloco Garibaldis & Sacis e qual é o seu repertório atual?

Itaercio Rocha: Quando começamos o repertório surgiu das marchinhas de carnaval. Na verdade iniciou com as rodas de cacuriá que eu fazia no Largo da Ordem desde que cheguei em Curitiba, em 1984. Eu tinha um caso de amor pro lado de cá, era bonequeiro e a gente fazia umas rodas de cacuriá no Largo da Ordem. Em 1992 voltei para Maringá e fui depois morar no Rio de Janeiro, mas continuei frequentando Curitiba. Em 1996 vim morar aqui definitivamente, período em que cursei a FAP. Naquela época eu ouvi num programa de rádio alguém falar que o carnaval de Curitiba não era legal, algo como “parece que Curitiba não tem batuque”. Eu fiquei indignado. É impossível que se fale assim do carnaval de uma cidade no Brasil! Eu já tinha ido a terreiros de candomblé na cidade, frequentado o carnaval de Curitiba e percebido coisas incríveis. O desfile de rua aqui é aberto por um grupo de afoxé! Eu achei isso tão legal e ao mesmo tempo surreal. Isso é tão afro, tão bacana de se fazer, e acontece aqui em Curitiba! O carnaval do Rio não abre com um grupo de afoxé. O afoxé passa sem comenda, ele passa para abrir, ele vem limpando, consagrando o espaço onde vai acontecer o desfile. Eu achei isso muito bom.

Em 1998, quando morava no São Lourenço, liguei para alguns amigos e disse assim: Nós vamos fazer um grito de carnaval aqui em casa. A gente precisa fazer alguma coisa. Acho que até hoje ainda tem confete naquela casa. Na ocasião veio um pessoal do teatro de bonecos, a Olga Romero e alguns amigos da FAP, dentre eles o Ariosvaldo, que é o compositor do hino do bloco, e a Iara, e a gente começou a pensar ali em como arquitetar uma preparação para o carnaval. Eu fiquei pensando: se as pessoas falam que o carnaval não é legal é porque não tem uma preparação. O pessoal diz por aí que carnaval é uma coisa espontânea. Mas nada do humano é espontâneo. Não é como uma semente que o vento levou e ela nasceu em outro lugar sem a interferência de ninguém. O carnaval é um produto construído, elaborado, ensaiado. As pessoas se convocam, elas pensam a música, pensam a fantasia; é uma organização. Eu li em alguns livros um tanto sérios que dizem que o carnaval não é apenas uma inversão da condição social, ou de “status”, do não trabalho ou da folga. É como o Baktin coloca: “um espaço do grotesco e do popular para vencer o medo, o medo do feio e do triste do poder”.

Então voltando ao repertório, a gente gostava de cantar as marchinhas antigas, e fomos pesquisando. Queríamos cantar as marchinhas inteiras, não só o refrão, nós tinhamos o sentido de resgatar estas letras. Mas, sempre no final a cantoria inspirava uma roda de coco, ciranda ou cacuriá. Aos poucos foi vindo o afoxé e fomos incorporando também canções populares. A gente está cantando “Gralha Azul” do professor Inami Custódio Pinto e temos feito canções como “Flor do Cafezal”. Um outro detalhe é que a gente foi compondo especialmente para o bloco, não só marchinhas como funks, o que dá uma sonoridade completamente curitibana. Tem marchinhas e canções de compositores daqui, tanto que ano passado e neste ano a gente teve um concurso de marchinhas. Amanhã vamos declarar as vencedoras! Tem na internet, no facebook do Garibaldis & Sacis, o edital para o concurso.

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Público presente em 12/02/2012, última saída do bloco no pré carnaval deste ano, no Largo da Ordem.

Blog Vanhoni: Quem participa do Garibaldis & Sacis e quantas pessoas as apresentações tem reunido?

Itaercio Rocha: São profissionais de diversas áreas. Da iluminação, da música, das artes, da arquitetura. Tem professores, artistas e todos aqueles que acharam um jeito de uma vez por ano fazer uma atividade para gozo próprio. Isso já acontece há 13 anos.

No segundo encontro este ano, aqui em Curitiba, tinha mais de 20 mil pessoas no Largo da Ordem. Ano passado já tinha umas 15 mil pessoas ou mais. Pouca gente sabe que já há 10 anos a gente faz também o “Arraial da Anita” que é uma extensão do grupo. É uma festa junina fora de época, que começa em julho e agosto. Fazemos também o “Sarau do Saci” em setembro e outubro, que é uma coisa mais lírica, com contos de fadas e literatura, e agora temos o desejo de fazer um evento na semana santa e outro no natal.

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Itaercio, Melina Mulazani e Gerson Guerra, puxando o Garibaldis e Sacis na tarde de ontem, 12/02.

Blog Vanhoni: Quais são os próximos desafios para o grupo?

Itaercio Rocha: Precisamos nos organizar internamente para planejar as ações de forma ainda mais adequada. Para isso criamos no ano passado a Associação dos Amigos do Garibaldis & Sacis. Porque precisamos de patrocínio e financiamento, mas, acima de tudo a gente precisa proteger a cidade, proteger o folião, abrir um campo de conversa entre todos os poderes, entre o povo da Saúde, o povo da Cultura… a imprensa tem que assumir sua parte, a policia tem que assumir a sua parte. É um fato novo na cidade, gerador de novos conhecimentos. Precisamos ter a guarda abaixada e poder dialogar com todos, vivemos um momento de compartilhar as responsabilidades porque esta festa diz respeito a todos nós. Não se trata apenas de uma questão de policiamento ou segurança, mas da possibilidade de expressão da arte e da cultura em nossa cidade.

Blog Vanhoni: Amanhã a apresentação do bloco tem um sentido especial. Em função do episódio de violência policial ocorrido na semana passada, o grupo pediu aos foliões que se vistam de branco em sinal de paz. Como você está vendo isso tudo?

Itaercio Rocha: Olha, essa semana muita gente me perguntou isso. Vai ter, nao vai ter? Tá confirmado, não tá confirmado? Como vai ser? A gente nunca sabe, sempre dá um friozinho na barriga. E se o som não funcionar? Meu deus do céu, o dinheiro não vai dar pra pagar as contas! As camisetas que a gente não conseguiu vender esse ano vão ficar encalhadas? E se o surdo furar, se alguém faltar, se a bateria não chegar na hora? Porque é tudo tão frágil… a gente foi crescendo, crescendo, mas tem uma precariedade no fundo disso tudo, e aí a gente olha pra trás e pensa: poxa, está ótimo, antes era no gogó! Depois passou a ter um megafone que a pilha não dava até a metade do desfile e aí era no gogó de novo. A gente depois colocou um pequeno sistema de som com uma corneta, que era o que dava com o dinheiro que a gente tinha pra comprar, mas aquilo queimava trepidando em cima de um carrinho de supermercado. Dois anos depois veio uma Kombi que sempre deixava a gente na mão no meio da história. Esse ano estamos um pouco melhor, mas não temos ainda a aparelhagem que achamos necessária. Eu acredito que o desejo da gente de se livrar desta carga, de limpar o espírito, de lavar aquelas pedras do Largo da Ordem com alegria é muito grande e a aceitação da comunidade curitibana foi uma resposta muito imediata, muito precisa, que me deixou emocionado.

A coisa está dando certo porque existe um desejo latente de provar que nós somos a cidade sorriso. Nós não somos sisudos. A partir deste evento não tem mais o que discutir! Não cabe mais a pergunta se a gente tem carnaval ou não. Nós somos humanos como qualquer um, somos europeus como qualquer um pode ser, somos coloridos como o Brasil inteiro e gostamos de um balanço, adoramos uma música e adoramos cantar marchinhas.

Porque o que ficou em risco não é o Garibaldis & Sacis, é a prática da cultura! O que está em jogo, na verdade, é como é que a gente vai fazer arte nessa cidade? Como é que os artistas vão ser tratados? Como é que os eventos culturais vão ser tratados? Por que é que alguns eventos culturais são bem tratados e outros nem tanto? Qual é o espaço da cultura popular dentro da cidade? Por que é que tem que ser pensado como algo de fora? Por que é que tem que ser pensado sempre como algo novo, como se não existisse nada antes…

Entrevista: Octavio Camargo
Fotos: Gilson Camargo

5 Comentários

  1. Itaercio Rocha
    13 de fevereiro de 2012

    Taí!! Gostei !!!!

  2. LUIZ NOBRE
    14 de fevereiro de 2012

    Compadre Itaercio
    Esta entrevista me emocionou cara.Realmente oque esta se discutindo e o fazer arte na cidade, e ser alegre na cidade sorriso.
    Parabéns!!

  3. maria raimuda lopes espindola
    30 de março de 2012

    luis nobre, envie-nos o email de itaercio rocha pois trabalhamos na secretaria municipal de cultura de humberto de campos e gostariamos de manter contato com esse artista humbertuense obrigado mrespindola

  4. Diego Rocha
    8 de julho de 2013

    Tio fiquei muito emocionando em saber um pouco mais da sua historia , queria tanto que o meu pai estivesse vivo para ouvir e ver como o senhor tem influenciado a sociedade com a nossa cultura maranhense e fazendo a NaçãoNordestina conhecida , é lindo ver que o senhor nunca negou suas raízes e que não desistiu dos seus sonhosss .. felicidadessss ..

  5. Diego Rocha
    8 de julho de 2013

    Tio fiquei muito emocionando em saber um pouco mais da sua historia , queria tanto que o meu pai estivesse vivo para ouvir e ver como o senhor tem influenciado a sociedade com a nossa cultura maranhense e fazendo a NaçãoNordestina conhecida , é lindo ver que o senhor nunca negou suas raízes e que não desistiu dos seus sonhosss .. felicidadessss .. :)

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