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educação especial – depoimento de Angelina Carmela Romão Mattar Matiskei, Chefe do Departamento de Educação Especial e Inclusão da Secretaria de Estado da Educação do Paraná

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Professora Angelina Mattar é chefe do Departamento de Educação Especial e Inclusão Educacional da Secretaria de Estado da Educação do Paraná e Presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência do Estado do Paraná – COEDE/PR.

“Primeiramente quero destacar a importância da CONAE. Quando você discute com o Brasil inteiro políticas educacionais, coloca a educação em outro patamar, e conversar com vários profissionais de todo o país sobre educação especial foi uma experiência muito enriquecedora. Já fomos para este debate com grandes avanços na área da educação especial, tivemos uma quebra de paradigmas na educação especial a partir de 2003. Desde lá a educação especial deixou de ser terceirizada para fora da rede pública e passou a ser encampada como educação de fato. Na Conferência, nossa principal reivindicação foi a constituição de uma rede de apoio no ensino comum à educação especial. E o que é ter uma rede de apoio? É qualificar os professores para que possam atender estas crianças, é aumentar o número de salas, de recursos multifuncionais e até disponibilizar intérpretes em libras nas escolas. Isso tudo para que as crianças realmente estejam inseridas neste contexto escolar, não fazendo de conta.  Amadurecer a cultura escolar, preparar desde o atendente do portão até o educador e, nesta linha, uma defesa também feita foi o da adequação do transporte escolar. Pois, de nada vai adiantar a instituição estar pronta para receber este aluno se ele não conseguir chegar até a escola. Por isso paralelo a toda adequação pedagógica é preciso adequação de infraestrutura.

É preciso ressaltar também o que ainda não chegou a ser consenso. Eu vou citar um exemplo: as crianças pequenas surdas têm na linguagem brasileira de sinais em libra a sua primeira língua - definida por legislação brasileira – e no português escrito a sua segunda língua. Neste tema há uma certa radicalidade na proposta defendida pelo MEC. Existe uma linha de defesa de não permitir que estas crianças se apropriem primeiro da linguagem de sinais para depois se alfabetizarem, para poderem entender os significados dos signos da língua portuguesa. Nós no Paraná não concordamos com isso, nossas escolas se abrem para a possibilidade de o processo de alfabetização em libras acontecer por primeiro.

Importante ressaltar que aqui no Paraná temos uma tradição na educação especial. Nós atualmente estamos finalizando as parcerias com escolas terceirizadas para fazer a inclusão destes alunos na rede comum. Lembrando que no contraturno estes alunos recebem atendimento especializado. Para este atendimento, muitas escolas que eram chamadas especiais foram transformadas em centros de atendimento. Por exemplo, das 19 escolas conveniadas para surdos, 11 já foram transformados em centros e os alunos inseridos nas escolas públicas.”

Foto: Gilson Camargo

ensino médio – depoimento de Alayde Digiovani, Superintendente da Secretaria de Estado da Educação do Paraná

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Alayde Digiovani é formada em Psicologia pela Universidade Tuiuti do Paraná (1981) e mestra em Educação pela Universidade Federal do Paraná (2005). É professora assistente da Universidade Estadual do Centro-Oeste, Campus Irati, cedida, a partir de maio de 2007 para assumir a Diretoria de Políticas e Programas Educacionais da Secretaria de Estado da Educação do Paraná. Em julho de 2008, passou a exercer o cargo de Superintende da Educação na mesma Secretaria.

“A CONAE pautou como prioridade a retomada e a implantação em todo o país do ensino profissionalizante. O Paraná, considero que já fez a tarefa para os próximos 10 anos. Quanto ao ensino profissionalizante o estado do Paraná é muito diferente. No Paraná temos 285 escolas profissionais, fora as federais, os Ifets. Nós no Paraná decidimos pela retomada do ensino profissionalizante em 2003 e o MEC veio na mesma linha.  Inclusive conseguimos no “Brasil Profissionalizado”. entre todos os estados o maior financiamento federal porque tínhamos projeto.

Em relação ao ensino médio como um todo, porém, existe um grande desafio para os próximos dez anos que tem a ver com a universalização. O primeiro é a rede física e a estruturação da mesma. Acho que o que não apareceu na Conferência na intensidade que deveria aparecer é que atualmente a rede não absorve, não tem estrutura física para absorver o contingente de alunos que estão fora da escola pública nesta faixa etária. Se forem todos amanhã e chegarem nas escolas aqui do Paraná pedindo matrícula, muitos voltarão para a casa. Por este motivo estamos neste momento trabalhando no geoprocessamento para desenhar o mapa das demandas e indicar a necessidade de novas escolas e a adequação das já existentes.  Então, a expansão do ensino médio não é só aumentar as matriculas, é pensar em toda esta estrutura.

O outro problema que levantamos pelo Paraná durante os debates da CONAE foi sobre a correção de fluxo. Ou seja, alunos com idade errada. A grande maioria das escolas em todo o Brasil oferece mais vagas no período noturno, o que afasta muitas vezes o grupo de 15 a 17 anos de freqüentar as aulas. Através de um levantamento feito pela nossa Secretaria, verificou-se que quando conseguimos equilibrar a oferta para o ensino médio no período diurno, equilibramos o fluxo de alunos desta faixa etária (dos 15 aos 17 anos), deixando para o noturno a educação dos adultos e trabalhadores. Em nossos dados temos também que a oferta de matriculas no diurno de 2000 até agora passou de 40% para 58,5%. Em 2000 tínhamos 138 mil alunos de 15 a 17 anos, agora alcançamos 282 mil. Para corrigir este fluxo não defendemos o alijeiramento, mas, acredito que para fazer o enfrentamento continuo temos que ter planejamento e ampliação da rede junto com o financiamento federal.  Esta é uma questão que foi  abordada na CONAE, mas, que precisa ser aprofundada, quem sabe pelo Legislativo.

Acredito que todas estas discussões e as metas aprovadas na CONAE só darão certo se estiverem coadunadas com planejamento e financiamento por metas. Acho que estamos avançando muito nisso, temos agora um planejamento que é resultado das avaliações nos estados e municípios com dados concretos que são subsídios para que os sistemas de educação se organizem.”

Foto: Gilson Camargo

entrevista com sérgio mamberti – presidente da funarte

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Em 2009, o ator Sérgio Mamberti assumiu a presidência da Fundação Nacional de Artes (Funarte) com o objetivo de comandar a reestruturação do órgão e reafirmar sua relevância no cenário artístico brasileiro. Um dos papéis fundamentais da Funarte é zelar pela memória cultural do país, por meio da identificação, recuperação,  preservação e guarda de acervos. Este trabalho é realizado pelo Centro de Documentação e Informação em Arte e pelo Centro de Conservação e Preservação Fotográfica.
Saiba mais: http://www.funarte.gov.br/portal/

Mamberti tem 70 anos e nasceu em Santos. Formado pela Escola de Artes Dramáticas de SP, já atuou em 38 filmes, 26 novelas e em mais de 70 espetáculos teatrais. No Governo Lula ocupou os cargos de diretor da Secretaria de Artes Cênicas, diretor da Secretaria de Música e foi secretário da Identidade e Diversidade Cultural. Nesta entrevista, concedida ao Blog Vanhoni durante a II Conferência Nacional de Cultura realizada em Brasília, ele falou sobre as expectativas a respeito dos trabalhos da Comissão de Educação e Cultura. Um dos projetos que estará sendo analisado pela Comissão trata da reestruturação da FUNARTE. Para Mamberti, reestruturá-la pressupõe desde a qualificação dos servidores até o estabelecimento de uma nova dinâmica de fomento às linguagens artísticas, como o teatro, a dança e o circo.

Qual a sua expectativa para o trabalho do Legislativo em 2010 no que se refere a área da cultura?

Sérgio Mamberti: Nós temos hoje no Congresso uma pauta de cultura realmente extensa, revolucionária e institucional. Trata-se da consolidação e do avanço de processos que a gente vem lutando e trabalhando nestes últimos anos. Temos a PEC 150 que é importante no sentido de que a cultura tenha os dois por cento garantidos pela constituição. Passando então pela nova lei de incentivo, passando pelo Sistema Nacional de Cultura, o Plano Nacional de Cultura, o Vale Cultura e, não posso deixar de destacar, algo que deve estar chegando ao Congresso que é a reestruturação da Funarte. Eu agora a presido e sei o quanto é fundamental termos uma Funarte reestruturada para que ela realmente se fortaleça e passe a ocupar o papel importante que lhe cabe.

Diante destas circunstâncias que estamos vivendo, diante das boas respostas que o legislativo tem nos dado, é um prazer estar comemorando a chegada do Vanhoni à presidência da Comissão de Educação e Cultura. Um grande companheiro que tem sua vida e seu mandato muito ligados a esta visão de cultura que a gente hoje defende, constrói e que o seu conceito amplo se expressa por exemplo nesta Conferência. Um momento muito oportuno e feliz de termos uma pessoa como o Angelo à frente da Comissão. Com o Vanhoni, uma bela equipe lá na Comissão de Educação e Cultura e a continuação desta relação afinada entre o Ministério e o poder legislativo, eu prevejo grandes vitórias e conquistas.

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Gostaria que você  falasse um pouco mais sobre a expectativa quanto à reestruturação da Funarte.

Sérgio Mamberti: A Funarte foi criada no período da ditadura e sempre teve um papel extraordinário na vida cultural brasileira. Até hoje é lembrada pelo trabalho de aprofundamento que sempre realizou. Quando nós passamos a ser Ministério em 1985, há 25 anos atrás, a cultura viveu uma fase inicial de empobrecimento, sendo já um período bastante difícil, pois, o Ministério da Cultura tinha recursos bastante exíguos. Para piorar esta situação vem o Governo Collor e praticamente extingue todos os mecanismos de cultura, o Ministério se estrutura todo como uma Secretaria e a Funarte fecha as portas. No Governo Itamar Franco se reconstitui o Ministério formalmente, mas, não realmente. Com o Governo Fernando Henrique este Ministério se estrutura a partir de uma visão do mercado e ausência do Estado e a Funarte foi sofrendo toda esta desestruturação. Quando nós chegamos, o Ministério da Cultura estava em coma e a Funarte combalida. O nosso primeiro presidente da Funarte, o Antônio Grassi, tomou diversas iniciativas para tirá-la deste estado. Algumas bastante simbólicas, como reestruturar o Projeto Pixinguinha e, eu cheguei na Funarte há dois anos de final de gestão com a missão de estabelecer esta nova dinâmica e a reestruturação. Neste quase um ano e meio que estou à frente, conseguimos avanços consideráveis: repactuamos a relação com os servidores e restauramos e dobramos os valores para  todos os editais. Neste ano, ao todo serão 50 milhões de reais para os editais. Acredito que o mais importante é perseguir a sustentabilidade da cultura, que é fundamental  para que os três eixos; cidadania, produção simbólica e economia criativa estejam presentes. Precisamos fomentar e aprofundar as propostas para as linguagens artísticas com que atuamos mais de perto, como o teatro, a dança e o circo, fazer com que a cultura ocupe seu lugar. Certamente o Estado tem o seu papel de fomentador e é preciso investir, mas, é preciso pensar também que as diferentes áreas artísticas tenham lá sua sustentabilidade para que não fiquem eternamente dependentes. Acho, enfim, que está tudo florescendo e para isso precisamos de uma Funarte equipada deste ponto de vista da qualificação do servidor, desde o seu plano de cargos e salários à sua especialização. A Funarte cada vez mais precisa de quadros que estejam qualificados e preparados para os novos desafios.

Ao falar em dar sustentabilidade para a cultura, você  que esteve a frente da Secretaria da Identidade e Diversidade Cultural, como vislumbra as alterações da Lei Rouanet para que a mesma alcance as diferentes manifestações artísticas brasileiras?

Sérgio Mamberti: A Secretaria de Identidade e Diversidade Cultural  foi criada para chegar aos que não eram contemplados com as políticas de cultura. Foi um presente para mim, pois, é uma grande satisfação trabalhar com os povos indígenas, com as culturas populares, saúde mental, LGBT. E cada vez se amplia mais este horizonte, as diversidades culturais são abrangentes, as diferentes linguagens artísticas tem um papel bastante importante porque começamos a ter a visão de que não existe hierarquia e que não existe divisão entre cultura popular e erudita. Tanto que a Convenção da Diversidade é para proteção das expressões culturais, uma sugestão feita pelo próprio Ministério para que não se permita nenhum tipo de diferenciação ou privilegiamento e as mudanças na Lei Rouanet são fundamentais neste sentido, porque os fundos previstos vão estabelecer direcionamentos, criando uma possibilidade real de que cada uma destas áreas tenham sua identidade afirmada.

Entrevista: Ana Carolina Caldas
Fotos: Gilson Camargo

museus – depoimento de josé do nascimento junior, diretor do instituto brasileiro de museus (ibram)

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A criação do Instituto Brasileiro de Museus foi sancionada pelo presidente Lula em janeiro de 2009. A nova autarquia vinculada ao Ministério da Cultura sucedeu o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IphaN) nos direitos, deveres e obrigações relacionados aos museus federais.
Saiba mais: http://www1.museus.gov.br/

“A expectativa é que a gente construa uma pauta neste ano dentro da Comissão de Educação e Cultura, para colocar este tema no centro dos grandes debates do país. Um dos primeiros comprometimentos da Comissão é que as emendas para o orçamento deste ano, ao invés de serem três para Educação e uma para Cultura, agora ficarão duas e duas. Isso já mostra que a partir da presidência do deputado Angelo Vanhoni haverá uma ação mais equilibrada entre as duas áreas. Ë importante destacar a trajetória do Vanhoni até chegar a presidência da Comissão de Educação e Cultura. Ele foi o deputado que mais legislou sobre o assunto e é um dos poucos parlamentares que tem a cultura no centro da sua atuação.

Nós, da área dos museus, tivemos sempre um acolhimento muito positivo da Comissão. O Vanhoni teve um papel fundamental na aprovação da criação do Instituto Brasileiro de Museus, botou debaixo do braço o projeto, foi militante da causa e com isso conseguiu que tivesse uma tramitação muito rápida na Câmara Federal. Conseguimos também pela Comissão de Educação e Cultura pautar desde a política nacional dos museus até os Pontos de Memória. Agora, a expectativa é reforçar esta ação e avançar em alguns projetos que estão tramitando. Um deles, de iniciativa do deputado, é o que prevê a dedução no imposto de renda para a doação de acervos a museus públicos federais.”

José do Nascimento Junior, nascido em 1966, é formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É mestre em Antropologia Social pela UFRGS, dirigiu o Memorial do Rio Grande do Sul, o Museu de Antropologia do Rio Grande do Sul, coordenou o Sistema Estadual de Museus do Rio Grande do Sul, foi coordenador de Museus e Artes Plásticas do Ministério da Cultura e diretor do Departamento de Museus e Centros Culturais do IphaN.

Foto: Gilson Camargo

audiovisual – depoimento de glauber piva, diretor da agência nacional do cinema (ancine)

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A Agência Nacional do Cinema (ANCINE) é o órgão oficial de fomento, regulação e fiscalização das indústrias cinematográfica e videofonográfica. Dotada de autonomia administrativa e financeira, criada em 6 de setembro de 2001, a ANCINE é uma agência independente na forma de autarquia especial vinculada ao Ministério da Cultura, administrada por uma diretoria colegiada, composta de um diretor-presidente e três diretores com mandatos fixos e não coincidentes, aprovados pelo plenário do Senado Federal.
Saiba mais:  http://www.ancine.gov.br

“As políticas públicas de cultura ganharam um status muito importante hoje no Brasil e compõe o eixo estratégico que contribui para o desenvolvimento. Isto está muito claro e não é a toa que a cultura está entre as cinco áreas que serão beneficiadas pelo Fundo Social do Pré-Sal. Não é a toa também, que o Ministério da Cultura alcançou 1% no orçamento federal. Agora, nenhuma política pode ter continuidade se ela não estiver alicerçada na relação entre o Legislativo e o Executivo. Por isto, a ida do deputado federal Angelo Vanhoni para a Comissão da Educação e Cultura reforça tudo isso e nos dá segurança devido a sua sensibilidade com os temas e à sua militância da vida toda pelas pautas desta área. Sua gestão faz parte de um cenário que se desenha através de importantes conquistas. Por exemplo, a relação entre o Legislativo e o Executivo promoveu um debate amplo que levou a aprovação de um Plano Nacional de Cultura, proporcionou  o debate  com celeridade da PEC 150 e, sobretudo, a institucionalização do Sistema Nacional de Cultura. Neste caminho instauramos uma outra visão, de que o Legislativo não é um simples carimbador de projetos, mas, é quem debate e qualifica muitas das propostas que o Executivo apresenta.

Uma das pautas mais importantes que está tramitando no Congresso Nacional é o PL 29. Este projeto, relatado pelo deputado Eduardo Cunha, muda o parâmetro regulatório do audiovisual no Brasil, principalmente dos canais da televisão por assinatura. A tramitação deste tema vem de muitos anos e é um debate já pautado pela sociedade civil. Trata-se da valorização da produção local brasileira, uma garantia que ela chegue na TV fechada de maneira consistente. É fundamental a atuação do Congresso para que ocorra a aprovação ainda neste ano. É interesse não só dos grande centros, mas, vai possibilitar espaço para produções de vários estados brasileiros, pois, todos os canais deverão ter algumas horas semanais de programação com produção nacional e independente. Isto é fundamental para a democracia, para a democratização da cultura e principalmente para o acesso à produção do audiovisual brasileiro.”

Glauber Piva nasceu em Poços de Caldas/MG. É bacharel em Ciências Sociais, pela Universidade de São Paulo, com MBA em Estudos Políticos Aplicados. Foi professor de Políticas Culturais, Corpo e Diversidade na Faculdade de Artes do Paraná, atuou como presidente da Fundação Cultural da cidade de Votorantim/SP, como secretário de Cultura do PT (2003-2007) e foi nomeado diretor da ANCINE em maio de 2009, com mandato até 2013.

Foto: Gilson Camargo

ensino superior – depoimento de zaki akel sobrinho, reitor da universidade federal do paraná (ufpr)

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O reitor em seu gabinete, em frente a tela de José Daros, de 1929. Artista paranaense, discípulo de Alfredo Andersen que retratou o prédio histórico da UFPR visto a partir do Passeio Público de Curitiba.

“Fiquei muito feliz com a indicação do deputado Angelo Vanhoni para a Comissão de Educação e Cultura da Câmara, porque nós o conhecemos já faz muito tempo. Aqui na nossa Universidade ele tem nos ajudado ao longo dos anos em vários projetos a fazer pleito junto ao Ministério da Educação. De outra parte, ele tem nos lançado alguns desafios. Para exemplificar isso, temos o projeto do Curso de Museologia que já está pronto. A Universidade investiu 50 mil reais para trazer  técnicos especializados nesta área. Agora vamos contar com o apoio dele para levar esta demanda ao Ministério da Educação e assim teremos o primeiro curso de Museologia do Estado do Paraná.  O outro projeto é o Corredor Cultural, uma idéia que criamos para o centenário da universidade. O ponto de partida é a restauração do prédio histórico para torná-lo um centro cultural. A proposta é manter a Faculdade de Direito e o restante do espaço voltarmos para estas atividades. O Vanhoni se encantou com a proposta e abriu as portas do Ministério da Cultura, conversamos com o Juca Ferreira por intermédio do deputado e depois ainda apresentamos ao Ministro da Educação. Vanhoni tem feito um papel de articulador das forças envolvidas nestas duas áreas, dos vários agentes, das Ongs e dos órgãos de classe com as autoridades políticas. Acho que esse é um  papel que o legislativo deve ter, o outro é o de propor políticas, discutir as leis. Com todo o desgaste que a nossa Câmara passou é bom que a gente saiba separar. Há parlamentares absolutamente engajados e conhecedores das temáticas que podem propor avanços. Neste sentido, contamos com o Vanhoni para avançar ainda mais na educação. Por exemplo, no Paraná nós temos um déficit de investimentos federais em comparação a outros estados. Já há um movimento aqui no Paraná para que a gente pleiteie apoio maior por parte do MEC.

Outro tema é a questão dos hospitais universitários. Por uma decisão do Presidente Lula, cabe ao Ministério da Educação, Ministério da Saúde e ao Ministério do Planejamento equacionar este problema. O Presidente Lula faz uma reunião por ano com os reitores e nesta oportunidade apresentamos esta pauta, pois, todos os hospitais estão em crise. Aqui no Paraná temos 1200 funcionários e existe um acórdão que diz que eles deverão ser demitidos ao final deste ano. Trata-se de um assunto urgente! Neste aspecto, esperamos o apoio do Vanhoni. Uma questão que já vem sendo bem encaminhada pelo Ministério do Planejamento que tem dado importante suporte é o plano de carreira dos trabalhadores da saúde que vai para  o Congresso e faz parte dos ajustes voltados aos hospitais universitários. Eles viram que há situações muito peculiares dentro do hospital que não se enquadram na carreira normal de uma universidade. Geralmente o que acontece é que um médico faz o concurso e inicia sua carreira, porém, acha o salário baixo e nos abandona. Desta forma, a rotatividade destes contratos é enorme. Por este motivo é que reivindicamos que se consolide este plano de carreira.

Existem outras questões, como as cotas sociais e raciais em que o Supremo está para se manifestar sobre. Há ainda o debate sobre a flexibilização, se devemos nos afinar com o acordo de Bolonha que propõe o encurtamento dos cursos de graduação, mestrado e doutorado, com o objetivo da formação mais rápida. O Brasil tem resistido, muitas pessoas na estrutura do governo são contra, pois, acham que vai acabar com a qualidade de ensino. Sobre essas  e outras questões eu fico muito confiante porque o Vanhoni conhece o assunto e vemos que esta foi uma escolha não só pela questão política, mas. também de mérito por toda a trajetória dele nestas duas áreas.

O salto que o governo Lula deu na área da educação é algo sem paralelos. Já  disse em várias oportunidades que as universidades foram revitalizadas com o REUNI e a criação de novas universidades que passou pelo Congresso com muita tranqüilidade. Aqui nós temos o exemplo da UNILA, aprovada por unanimidade com todas as lideranças endossando este projeto. Houve também uma injeção de recursos para recuperar as instalações físicas, ampliar os campus universitários, novas bibliotecas, para contratação de professores. Tudo isso muito bem executado pelo Ministério da Educação, mas sempre com apoio do Legislativo. Fica claro que há uma grande vontade política de valorização para a formação de novos quadros que irão contribuir para o desenvolvimento do país. Houve neste governo um grande resgate das universidades públicas e hoje estamos olhando para o futuro, planejando, tirando projetos da gaveta, pensando em como avançar mais, quais as inovações necessárias, as novas metodologias de ensino. Também temos a ampliação do ensino técnico tecnológico que leva com boa formação o jovem para o mercado de trabalho. Além do investimento em recursos humanos com a equiparação salarial, apoio à saúde e qualificação do servidor. Tudo muito sintonizado com o que o Brasil precisa.

Mas, ainda temos um déficit muito grande de acesso ao ensino superior. As estatísticas mostram que perto de 13% apenas dos jovens estão numa universidade. Tudo o que gostaríamos é que estas políticas todas se consolidem. Não desejamos que isso seja apenas um sopro de investimentos, então o grande caminho é que o governo invista mais nas políticas sociais de acesso para que a nossa juventude possa vir à universidade e também dê permanência. Neste sentido, o MEC tem nos apoiada nas políticas de assistência estudantil em questões como melhorias para o Restaurante Universitário, para moradia estudantil, saúde e transporte gratuito para o estudante, além dos programas de bolsas que recebem muitos recursos alcançando cerca de dois mil estudantes.mAlém deles não pagarem os estudos, tem dinheiro para pagar suas despesas. Com isso o aluno tem condições de permanecer na universidade, se forma e vai servir à sociedade.”

Foto: Gilson Camargo

ensino público – depoimento de marlei fernandes de carvalho, presidente do sindicato dos trabalhadores em educação pública do paraná (app sindicato)

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“Recebemos com muita satisfação a notícia da eleição do deputado Angelo Vanhoni para a Comissão de Educação e Cultura. Ele sempre foi um companheiro nosso da educação. Eu estive nestes últimos anos em Brasilia na Comissão de Educação e Cultura acompanhando vários projetos de âmbito nacional que interessam os professores e funcionários do nosso país e o deputado esteve sempre presente com um debate bastante afirmativo, esteve sempre em diálogo com a APP para saber nossas reivindicações e para se apropriar melhor dos nosso projetos. Para nós é muito importante ter a frente desta Comissão um paranaense, companheiro da educação brasileira. Digo brasileira porque o Vanhoni possui um trânsito significativo, por exemplo, junto à Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE). Trata-se de um reflexo, porque o Vanhoni tem uma importante trajetória na defesa destes interesses e, também, devido a sua atuação neste mandato como deputado federal.

Temos um acúmulo grande de projetos significativos nos últimos anos. Teremos uma reorganização agora na Conferência Nacional da Educação, da Frente Parlamentar em defesa do Piso Salarial Nacional dos professores. Mesmo este tema tendo ficado um ano em debate no Congresso, com muitas audiências na Comissão da Educação e Cultura, ele está sob júdice. Acredito que uma das prioridades é a Comissão retomar a defesa do piso, pois, nós demoramos duzentos anos para conquistá-lo! O piso foi aprovado em 2008, já é lei, mas, tivemos uma ação de inconstitucionalidade gerando grandes dificuldades na sua aplicação. A partir do momento em que temos uma lei que está sob júdice pelo Supremo Tribunal Federal, isso cria uma dissonância. Já é difícil que alguns prefeitos e governadores apliquem o piso, 70%  dos professores em nosso país não recebem um salário de novecentos reais por uma jornada de 40 horas e isso tem acarretado um grande atraso para a comunidade educacional do Brasil. Neste dia 16 de março teremos uma grande mobilização nacional para reivindicar que o Supremo vote esta matéria. Acho, portanto, que o papel da Comissão de Educação é dialogar com o poder judiciário para que os trabalhadores em educação possam ter este piso que é o início das suas carreiras.

Avançamos muito neste último período. Aumentamos os investimentos para educação, agora estamos chegando a 5% do PIB. A Conferência Nacional de Educação é um grande marco deste governo. Reunirmos um milhão de trabalhadores da educação brasileira é uma grande conquista. Como sempre diz o presidente, “nunca na história deste país” nós pudemos chegar em municípios pequenos com profissionais que nunca haviam debatido políticas públicas. Realmente a Conferencia vai consolidar um processo, ainda lento, mas, progressivo de alteração do cenário educacional brasileiro e vai trazer o que mais desejamos para a sociedade brasileira que é uma educação pública de qualidade, laica e para todos e todas.

Outros temas que estão na pauta educacional: as novas diretrizes de carreira, que é um projeto que passou pelo Congresso e agora vai para o Senado e é  importante que seja reafirmado. As diretrizes de carreira para os funcionários de escolas, a qual nós conseguimos aprovar a lei para que eles estejam categorizados como profissionais da educação.

E, por último, acredito que a participação da Comissão de Educação na Conferência Nacional seja fundamental para que possamos consolidar no Plano Nacional da Educação diversas políticas, o financiamento, a gestão democrática e as relacionadas às universidades, entre outras. A sociedade civil fará um amplo debate, porém, quem vai votar e decidir são os deputados. Estaremos fazendo uma ação junto ao parlamento e se tivermos aliados na Comissão, como temos o deputado Vanhoni, faremos uma boa disputa dentro do Congresso.”

Foto: Gilson Camargo

produção cultural – depoimento de joão luiz fiani, presidente do sindicato dos empresários e produtores de espetáculos de diversão do estado do paraná (seped)

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Da platéia do Teatro Lala Schneider, inaugurado há 15 anos, João Luiz Fiani dirige um dos espaços de maior índice de público da cena teatral curitibana, além de presidir o SEPED, produzir, adaptar, dirigir e atuar em centenas de espetáculos levados na cidade.

“Para nós é um grande orgulho o Angelo ocupar a presidência da Comissão de Educação e Cultura da Câmara. Principalmente porque o Paraná sempre fica relegado a segundo plano nesta área. E de outro lado é uma vitória. O Angelo sempre esteve envolvido com as questões culturais e eu o vejo como uma luz no fim do túnel. Estou orgulhoso e feliz por ser amigo dele e saber que o seu trabalho sempre foi muito sério. Um dos debates que passará por esta Comissão é a Lei Rouanet. Eu vejo ainda este assunto como uma utopia para nós aqui no Paraná. Fazer uso dela é uma situação utópica. Rezo para que o Vanhoni a frente desta Comissão possa fazer com que nós, reles mortais,  possamos ter acesso a este mecanismo. Esta é a nossa expectativa.

Como representante dos produtores de cultura, como presidente do SEPED, acho que a gente ainda sofre muito com a falta de recursos e incentivos. Temos apenas a lei municipal, nada em nível estadual e muito pouco na esfera federal. Com o Vanhoni, temos um aliado de Curiitba e do Paraná. Temos aqui muitos produtores de qualidade, artistas maravilhosos e o que falta realmente é esta projeção e respeito nacional. Mas, este é um importante passo, ter um paranaense sensível à cultura a frente deste processo.

Na época da campanha eleitoral foi falado muito em estadualização da Lei Rouanet, o que para mim é uma grande sacada e poderia ser a salvação da cultura brasileira. Infelizmente pelo que eu soube o eixo Rio-São Paulo foi totalmente contra e, se essa briga não for resolvida mais uma vez ficaremos relegados ao último plano. As grandes empresas preferem investir nos artistas de São Paulo e Rio, que normalmente tem maior visibilidade. Então espero que isso possa ser revertido. Não podemos esquecer que isso foi promessa de campanha e ainda não foi realizada.”

Foto: Gilson Camargo

acordos de cooperação internacional – visita do presidente lula à ucrânia – entrevista com vitório sorotiuk, presidente da representação central ucraniano brasileira

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O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva estará na Ucrânia no dia 02 de dezembro de 2009, data em que será realizado o Fórum Econômico Brasil-Ucrânia. No encontro serão assinados vários acordos de cooperação entre os dois países, com especial destaque para os convênios nas áreas de Cultura e Educação. O estado do Paraná tem uma grande comunidade ucraniana, fruto das imigrações ocorridas no final do século 19 e receberá em breve, pela primeira vez, a visita do ministro da Cultura daquele país. Recentemente, em abril de 2009, por iniciativa do deputado Angelo Vanhoni, o ministro Juca Ferreira esteve em Mallet para a inauguração das obras de restauro da Igreja São Miguel Arcanjo, passando também por Irati e Prudentópolis. O Brasil tem diversos projetos em parceria com o governo ucraniano, dentre elas a binacional Alcantara Space, que desenvolve tecnologia para o lançamento de satélites. O Blog Vanhoni entrevistou Vitório Sorotiuk, presidente da Representação Central Ucraniano Brasileira, que também estará na Ucrânia neste período. Confira o que ele fala sobre a importância deste encontro.

“O Brasil tem expandido suas relações no plano internacional e está abrindo negociações de trabalho e de mudanças na área comercial, cultural e política com o mundo todo. No caso específico desta visita do presidente Lula a Ucrânia, o Brasil está levando propostas em que os dois países podem se complementar em áreas de interesse estratégico para ambos. Uma delas é a Alcantara Cyclone Space, que já existe há algum tempo e é a segunda empresa binacional do Brasil, além da Itaipu. Hoje temos cooperação científica e tecnológica com diversos paises, mas, com a Ucrânia temos este projeto específico que abre o espaço não só para o Brasil, mas, para toda a América Latina e traz a possibilidade de lançarmos satélites a custos mais baixos utilizando lançadores em outros países.

Existem também muitas perspectivas de comércio, vou citar alguns exemplos: a Ucrânia é um grande produtor de fertilizantes e o Brasil um grande importador. Aí se abre um possível caminho de negociação, não só para baixar os custos dos fertilizantes no Brasil, que já é interessante para a nossa agricultura, mas também para vender os nossos produtos lá. A Ucrânia é um grande produtor de aço e me parece que a Embraer trabalha com a idéia de construir aviões de carga, aviões de grande porte, então vemos aí uma outra possibilidade de barateamento de matéria prima através da cooperação comercial e tecnológica.

Nós tivemos reuniões em Brasília com o embaixador da Ucrânia, no Ministério da Cultura e no Ministério da Educação e foram encaminhados dois acordos bastante amplos nestas duas áreas, que serão assinados pelos dois presidentes agora no dia 02 de dezembro.

Também há outra área estratégica em que o Brasil já tem uma cooperação com a Ucrania que é a produção de insulina. Aos poucos estão se abrindo vários caminhos de aproximação e intercâmbio entre os dois países. O prefeito de Paranaguá, José Baka, já esteve presente em Mariupol assinando o convênio de cidade irmã e outras cidades estarão fazendo isso em breve, dentre elas Prudentópolis, Mallet, Irati e Campo Mourão. Pelo que se sabe, poderão ser assinados perto de 10 acordos nesta viagem e haverá também o Fórum Econômico Brasil – Ucrânia, do qual o presidente Lula participará. Existe ainda uma colaboração prevista na área de esportes, na qual a Ucrânia é muito forte e o Brasil está se preparando para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas.”

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Grupo folclórico ucraniano durante visita do Ministro Juca Ferreira à igreja de Mallet, em abril de 2009.

“A comunidade ucraniana tem 25 grupos folclóricos no Brasil. Só no Paraná tem 20 e aqui em Curitiba tem 2. Está chegando agora, no início de dezembro, um grupo de 12 dançarinos da Ucrânia que farão workshops em Curitiba e em Maringá. Nós da comunidade ucraniana estamos vivendo um momento muito bom, em 2009 tivemos a visita do Ministro Juca Ferreira ao estado do Paraná, ele visitou Mallet, Irati e Prudentópolis, e deu início ao restauro da primeira igreja ucraniana construída no Brasil. Agora, a ida do presidente Lula possibilitará a assinatura de novos acordos. Teremos este ano também a vinda do Ministro da Cultura da Ucrânia ao Brasil pela primeira vez e estamos fazendo os preparativos para a comemoração dos 120 anos da imigração ucraniana em 2011. O conjunto destas iniciativas vem possibilitando um intercâmbio maior entre o Brasil e a Ucrânia, abrindo novas perspectivas não só para a comunidade ucraniana, mas para os dois países como um todo.”
Vitório Sorotiuk

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Jovens das comunidades ucranianas de Prudentópolis por ocasião da visita do Ministro da Cultura a igreja de São Josafat.

Fotos: Gilson Camargo

ariano suassuna – incentivo a leitura – mestres fandangueiros do litoral paranaense e cultura popular brasileira

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Ariano e Zélia Suassuna durante coletiva a imprensa em Curitiba, em 28/10/09, por ocasião de sua participação no projeto “Vozes de  Mestres – Festival Internacional de Cultura Popular”, patrocinado pelo Banco do Brasil, com consultoria local da pesquisadora Rejane Nóbrega. A noite, o escritor e atual secretário de Cultura do Estado de Pernambuco participou de uma mesa redonda com os mestres fandangueiros do litoral paranaense Martinho dos Santos e Leonildo Pereira.

Mestre, quais foram os seus mestres?

“Bom, pra começar do começo mesmo o primeiro foi meu pai, João Urbano Suassuna. Ele gostava de literatura, era um grande leitor e me deixou uma biblioteca. Quer dizer, no sertão da Paraíba eu tinha uma biblioteca, coisa que não era comum naquela época. Eu mal aprendi a ler e já me tornei um leitor apaixonado. Outro dia um jornalista me perguntou se eu tinha o hábito da leitura, eu falei: não, eu tenho a paixão pela leitura! Agora mesmo eu estava lendo “Os Demônios” de Dostoiévski, acho que pela centésima vez.

Meu pai foi meu primeiro mestre e em seguida me indicou o segundo, porque ele era um grande apaixonado por Euclides da Cunha. Foi aí que eu li “Os Sertões” pela primeira vez e também Eça de Queirós, que era outra grande paixão dele e que é minha também. Eu ainda hoje tenho uma alegria enorme quando leio Eça de Queiros por causa da linguagem, eu sabia de cor vários pedaços de “A Cidade e as Serras”. É a musicalidade da língua portuguesa explorada ao máximo. Depois de mais crescido, destaco Cervantes e Dostoiévski. “

E brasileiros?

“Já citei um deles, Euclides da Cunha. Você perguntou mestres mineiros, não foi? Mineiros, eu acho que não tive mestres, tive companheiros. Pode parecer até mania de grandeza, mas não é não. Porque inclusive mestre a gente tem às vezes no grupo dos escritores menores. Eu considero um dos romances mais importantes da minha formação um romance colocado fora do grande cânone literário, chamado “Scaramouche”, não sei se vocês já ouviram falar. É um autor e um personagem curioso, ele estudou em Portugal, o pai era italiano e a mãe inglesa, chamado Rafael Sabatini, conhecido como autor de aventuras. O Capitão Blood é um de seus romances mais famosos. Eu gosto do “Scaramouche” porque boa parte do romance se passa numa trupe ambulante de teatro, que sempre exerceu um fascínio muito grande sobre mim. A minha paixão pelo teatro começou no circo, que é uma forma de espetáculo ambulante. Você não sabe a alegria que eu tinha quando chegava da escola depois do almoço e me deitava, sempre gostei de ler deitado, e quando eu abria o livro era como se um mundo novo se abrisse pra mim.”

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“Eu não gosto de viajar, e não é só de avião, é de qualquer jeito. De avião é pior ainda! Só tem dois tipos possíveis de viagem: as tediosas e as fatais. De forma que de avião é o caso em que você reza pra viagem ser tediosa. Nunca saí do Brasil. Tenho vontade de conhecer Portugal, mas só se Portugal fosse em Alagoas. Do jeito que é longe, quando eu tenho vontade de ir até lá eu leio Eça de Queirós. Outro dia, conversando com um português eu dei a ele informações sobre a província em que ele vivia que ele mesmo não conhecia. Daí me perguntou se eu fui até la e eu disse que não. Quando tenho vontade de conhecer a Espanha, por exemplo, leio Cervantes”.

Como o senhor vê a importância da circulação dos textos clássicos e obras da literatura universal como a poesia épica de Homero?

“Para mim é extremamente importante. Eu não sei como se pode deixar isso de lado. Quando falo assim dizem que Ariano é um passadista. Mas eu não sou passadista não! Um sujeito como Homero não é passado, ele é contemporâneo eterno de todas as gerações. Quando restarem só os ossos da gente para os nossos netos e bisnetos, Homero vai continuar sendo lido. Quem é que vai lembrar da Madonna no seculo 22 ou 23? Eu duvido que vocês se lembrem do nome de um grande violinista do seculo 18. Do século 19 eu ainda sei, Paganini, mas do 18 já não sei mais não, e olha que ser violinista ainda é um negócio importante. Agora imagina as Bandas Calypso do século 18? Daqui há 20 anos já ninguém lembra, quanto mais daqui a  200! Isso é o sucesso. Eu faço muita distinção entre êxito e sucesso. Euclides da Cunha, que não tem nem um décimo do sucesso e é muito menos conhecido do que qualquer banda punk funk por aí, vai atravessar os séculos! Os Sertões é um êxito! Enquanto houver a língua portuguesa, enquanto existir um país chamado Brasil a gente vai saber que um homem chamado Euclides da Cunha escreveu um livro fundamental pra formação da nação. Como Guimarães Rosa escreveu Grande Sertão Veredas. É o que eu chamo de êxito.”

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O senhor comentou sobre os mestres da literatura, mas existem os mestres da cultura popular no Brasil de Norte a Sul, e hoje a noite o senhor tem um encontro com mestres fandangueiros aqui do Paraná. Gostaria que o senhor falesse um pouco sobre isso.

“Eu vi pela primeira vez uma cantoria aos 7 anos de idade. Tive a oportunidade de ver um dos maiores cantadores que tivemos no nordeste, Antônio Maria, e aquilo me impressionou muito. Principalmente as histórias do Nego Benedito, que era sagaz como ninguém. Mas, eu talvez não tivesse dado ao folheto popular a importância que eu dei se não o tivessse visto em livro, que para mim é um objeto sagrado, e no livro que foi do meu pai. Ele foi amigo de um escritor cearense chamado Leonardo Mota, que escreveu um livro documentando as cantigas e os desafios dos cantadores e os autos populares do Nordeste. Para você ter uma idéia da importância desse escritor, “O Auto da Compadecida”, que é uma das mais lidas das minhas peças, foi fundamentada em três folhetos que têm num livro dele chamado “Violeiros do Norte”. Aí começou o meu contato com a cultura popular e eu dou uma importância enorme pra ela. As histórias mais populares e locais muitas vezes são as mais universais.”

Fotos: Gilson Camargo




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Twitter Angelo Vanhoni