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sistema nacional de educação – entrevista com andréa caldas, professora da universidade federal do paraná

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Andréa Caldas é professora do Curso de Pedagogia da Universidade Federal do Paraná. Doutora em Economia Política da Educação pela mesma instituição. Foi delegada da Conferência Nacional da Educação.

De que forma ficou definida na CONAE a proposta para a organização do Sistema Nacional de Educação?

O tema central da Conferência foi a organização do Sistema Nacional da Educação. Isso muitos países já fizeram no final do século 19 e início do século 20. Aqui o que se tinha, inclusive definido pela Constituição, é um sistema federal, um estadual, outro municipal e cada um responsável por suas instituições de ensino. Portanto, organizar um sistema nacional é você pensar que todos estes entes tem que estar articulados para oferecer uma educação nacional. Ter uma educação com parâmetros unitários para todo o país, independente das regiões, das esferas administrativas e,  principalmente, independente das condições econômicas. Como em outros países, a idéia é que a educação tenha uma cara nacional. Porque aqui no Brasil temos educações diversas num mesmo município!

Então quais foram os elementos que a Conferência Nacional definiu como importantes para organizar o Sistema Nacional? Em primeiro lugar, o financiamento. Ficou definido o custo aluno-qualidade-inicial  como referência  para todo o ensino no Brasil, seja ele público ou privado. Tratam-se de parâmetros de quanto se deve gastar com um aluno e se diferencia o custo por nível de ensino. Eu digo que isso também serve para as escolas particulares porque pode ser usado como valor de referência para cobrança de mensalidades, por exemplo.

O outro elemento é o elemento de gestão. Pensar como este sistema será gerido, tema que passa irremediavelmente pela democratização dos canais de decisão.  Propusemos e foi aprovado na Conae que a União se incumba do financiamento para toda a educação nacional e não só para a sua esfera como funciona até hoje. E com isso, que seja feito um regime colaborativo afim de ajudar estados e municípios a suprirem seus deficiências de financiamento para a educação básica. Isso já vem acontecendo com a instituição do Fundeb (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica), ou seja, todos tem o dever compartilhado com a educação, salvaguardando, claro, suas atribuições específicas.  Mas, ao transferir, por exemplo, a responsabilidade aos municípios pela educação infantil e o ensino fundamental, devem ser transferidas também condições para que eles possam dar conta desta responsabilidade.

Você poderia citar um exemplo de problema na educação advindo da falta de sinergia entre os poderes?

A municipalização no estado do Paraná é um exemplo bastante concreto do não regime de colaboração. O Estado pressionou para que os municípios assumissem o ensino fundamental e a educação infantil. Na maioria dos casos, os municípios não tinham condições – não só financeiras, mas também do ponto de vista técnico e de apoio, por sua vez, o Estado deixou de ofertar as séries iniciais. Quando a Constituição diz que é dever prioritário arcar com o ensino fundamental, entende-se que não quer dizer que o Estado e a União tem que se desincumbir dessa responsabilidade, mas, que cada ente tenha algumas tarefas como prioridade e não exclusividade.

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Como será gerido o Sistema Nacional? De que forma o tema gestão entrou  nos debates da Conferência?

Além do financiamento, é preciso aprofundar o sistema de gestão. É preciso deixar que a gestão não fique centrada só na figura do MEC e construir a possibilidade de diálogo concreto com fóruns representativos, que incorporem os diferentes segmentos das esferas administrativas e também segmentos da sociedade civil. Como avanço da Conferência,  formaremos o Fórum Nacional da Educação, o órgão que irá acompanhar a elaboração do Plano Nacional da Educação e sua avaliação. Também será o responsável em organizar as próximas conferências. Nesta linha, outra vitória foi institucionalizar no calendário brasileiro a realização, a cada cinco anos, da Conferência Nacional da Educação, e a próxima será para que façamos a avaliação de como foi efetivado o Plano Nacional da Educação, aprovado também pela Conae. Eu considero que o Plano será o projeto político pedagógico que irá articular o Sistema Nacional da Educação.

Foi aprovado também como proposta, que os Conselhos, tanto o nacional como os estaduais e municipais, assumam um papel de elaborador e superar a função muitas vezes de mero apêndice do Executivo. Mas, para isso precisam ser democratizados com composição paritária e representativa do governo e da sociedade civil. Do ponto de vista da gestão das escolas, aprovamos algo que é um grande avanço: a lei que regulamenta a eleição direta em todas as escolas. Ainda é uma questão que enfrenta resistências, pois muitos sistemas fazem por indicação ou outras formas.

Quais são as tarefas pós Conferência Nacional da Educação para o governo, poder legislativo e a sociedade?

Fica como tarefa para os governos agora assumirem o seu papel executivo e compartilhar com a sociedade as decisões. O MEC, a partir do que aprovamos na Conferência, deixa de ser o órgão controlador e passa a ser o articulador para execução do que foi definido. Inclusive nossa proposta é a de que o Conselho Nacional de Educação junto com o Fórum Nacional  assumam a função de coordenação, porque ambos tem em si todas as representações e assim será garantido um processo mais democrático. Porque defendemos isso? Além do avanço democrático, a proteção desta construção histórica que fizemos nesta conferência, para que não fiquemos a mercê das mudanças de governo. Assim, tendo estruturas mais permanentes garantimos que estas propostas constituam verdadeiramente uma política de Estado!

Considero também que há importante tarefa para o Legislativo. Como compromisso do Ministro da Educação ao final da CONAE, definiu-se que as propostas aprovadas serão transformadas em leis e portarias a serem encaminhadas para o Executivo. São vários os temas que dependerão da regulamentação por lei, como o regime de colaboração entre os entes federados, o funcionamento dos conselhos, além de todas as outras questões específicas de outros temas e eixos. E fica a expectativa maior para que o Plano Nacional da Educação seja uma lei democraticamente construída. Eu espero que os parlamentares olhem para todas estas propostas como projetos de Estado, pensando que são para ficar, permanentes, assegurando o futuro da educação .

Entrevista: Ana Carolina Caldas
Fotos: Gilson Camargo

inclusão, diversidade e igualdade – depoimento de Romeu Gomes de Miranda, Presidente do Conselho Estadual de Educação do paraná

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Romeu Gomes de Miranda é formado em Letras. Mestre em Filosofia da Educação pela PUC/SP, atuou como docente na rede pública estadual de ensino e foi diretor pedagógico do Colégio Estadual do Paraná. Por duas vezes foi eleito presidente da APP-Sindicato/ PR (1996-1999) e desde 2007 é presidente do Conselho Estadual de Educação/PR. Foi delegado na Conferência Nacional da Educação. (Foto: Gilson Camargo)

Há tempos que nós, dos Conselhos Estaduais de Educação, reivindicávamos uma política nacional para a área. A constituição de 1988 estabeleceu certa autonomia aos municípios, especialmente no ensino fundamental e isso historicamente manteve as disparidades regionais. Ora, educação é um bem que deve ser de qualidade para todos, independente das condições financeiras dos municípios e isto está devidamente apontado pela Conferência Nacional da Educação ao defender como meta principal o Sistema Nacional de Educação. Ao defendermos o Sistema Nacional, definimos diretrizes comuns, inibindo desigualdades.

No que diz respeito ao acesso, ficou definido pela CONAE que 50% das vagas nas universidades devem ficar com alunos advindos de escolas públicas e dentro deste percentual aprovamos que seja garantido o mesmo também para os negros e os índios. Aqui, na Universidade Federal do Paraná já temos garantia de 20% para os negros.

O Sistema Nacional de Educação, uma vez definido valerá como regra para todo o país, com diretrizes para formação dos professores também voltadas às questões étnico raciais. Mesmo onde há definição clara, como no caso do Paraná, onde existe uma deliberação deste conselho para que as escolas incluam em seus currículos o debate sobre a educação étnico racial, ainda são poucas as que aderem. Esta é uma questão muito mais de convencimento e de formação. As escolas acham que tratam igualmente todos os alunos, mas, na prática, e os dados comprovam, os alunos negros fazem parte de um dos grupos que mais se evadem da escola, geralmente porque não encontram ali um ambiente favorável devido a uma série de questões, como preconceitos, falta de referência nos livros didáticos e na fala do professor, entre outras… a temática não é simples e é preciso repensar essencialmente a formação dos professores.”

educação de jovens e adultos – depoimento de Maria Aparecida Zanetti, professora da Universidade Federal do Paraná

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Maria Aparecida Zanetti é professora no Curso de Pedagogia da UFPR. Especialista em Filosofia da Educação, com mestrado na área de educação de jovens e adultos. De 2003 a 2006 foi chefe do Departamento de Educação de Jovens e Adultos da Secretaria de Educação do Paraná e de 2007 a 2009 integrou a Coordenação Nacional de Educação de Jovens e Adultos do MEC. Atuou como delegada na Conferência Nacional de Educação. (Foto: Gilson Camargo)

“Encarar a Educação de Jovens e Adultos (EJA) como parte e modalidade do sistema educacional é um avanço e uma conquista do governo Lula, mas, ainda está em processo de consolidação. Por este motivo, considero tão importante a realização da Conferência Nacional da Educação (CONAE), que deixou claro para o governo quais são as demandas atuais. E, considero que já temos avanços importantes. Um deles é do ponto de vista do financiamento. Na gestão do Fernando Henrique Cardoso, havia um acordo na Câmara dos Deputados em que a matrícula dos jovens e adultos contaria para fins de repasse do Fundo Nacional do Desenvolvimento do Ensino Fundamental (FUNDEF). Porém, quando foi para sanção do FHC ele vetou isso, alterando a Constituição! Apresentou a emenda constitucional 14 que altera o artigo que dizia que “o ensino fundamental deve ser obrigatório e gratuito inclusive àqueles que não tiveram acesso na idade própria”, com a emenda retirou-se a obrigatoriedade da oferta para jovens e adultos, portanto, não precisava garantir financiamento.  Agora, com o FUNDEB (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica) temos novamente esta garantia. Porém, em muitos estados e municípios acabaram por rifar a EJA. Por que?  Temos os estados disputando mais recursos para o ensino médio e os municípios para educação infantil e pela Educação de Jovens e Adultos ter um custo/aluno barato, acabam eliminando-a na prioridade para ganhar repasse dos recursos.  Então, aprovamos como diretriz na CONAE tratamento isonômico para EJA no financiamento.

O nó desta questão e que ficou muito presente durante os debates é a falta do reconhecimento da demanda do EJA pelos sistemas educacionais. Muitas vezes os programas de alfabetização para adultos ofertados pelos municípios e estados acabam tendo quinze turmas de alfabetização e apenas uma de continuidade da escolarização e que geralmente fica no centro urbano, limitando a participação daqueles que estão nas periferias e na zona rural. Do Censo de 2000, 65 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais não tem sequer ensino fundamental completo. Para convencer os gestores a valorizar esta demanda em seus planejamentos, acabo usando um argumento que é o do investimento na formação dos filhos destes adultos. Existe um estudo da UNICEF que comprova que quanto maior a escolaridade dos pais, maior será também a das crianças.

Outra questão muito importante que foi debatida durante a Conferência foi a da delimitação de idade para ser categorizado como “jovens e adultos’. Inicialmente na Lei 5692/71, a idade estava fixada entre 18 e 21 anos. Com a nova LDB, em 1996, num momento em que as políticas neoliberais estavam extremamente fortes, a idade abaixa. No ensino fundamental passa a ser 15 e no ensino médio 18. Isso provocou uma enorme migração de adolescentes para a educação de jovens e adultos. Então, tem todo um movimento de fóruns que militam neste tema, definindo a idade de 18 anos como preferencial para entrada. Por que defendemos isso? Ë preciso compreender que é uma realidade diferenciada e, portanto, a organização deste ensino deve ser também diferenciada.

Sempre uso como exemplo, o aluno caminhoneiro. Por onde ele já circulou nesse país, o que ele conhece de geografia, de hidrografia, de clima, a questão da diversidade cultural… ele passou por lugares que muitas vezes o professor de geografia nunca esteve. Ou seja, na vida do adulto a escola não é o único espaço de aprendizado. Se ela não o é e eu considero assim a historia de vida destes alunos, vou ter que reconhecer no processo de ensino, de aprendizagem, nas estratégias metodológicas, que é possível ter tempos diferentes, possibilitar uma organização individual da vida escolar e também uma organização deste currículo diferente, por exemplo, do que para um adolescente. E quando retiramos estes meninos e meninas de 15 a 17 anos do seu grupo de referência, eu retiro também uma caminhada que possibilitaria a eles adquirir experiência condizente a sua vida. E a EJA não é pensada para adolescentes.

Durante a CONAE aprovamos como diretriz novamente a delimitação em 18 anos no sentido de sinalizar que a escola precisa pensar em dar condições para abrigar este adolescente seja ele trabalhador ou não. Mas fazer a migração para o EJA é fazê-lo regredir. Inclusive existem dados estatísticos que mostram que este grupo de 15 a 17 anos não está em lugar algum – nem no trabalho, nem na escola. Por isso, é preciso repensar, seja do ponto de vista do governo como o da sociedade civil, o que estamos oferecendo a estes adolescentes.”

financiamento da educação pública – depoimento de Andréa Barbosa Gouveia, Professora da Universidade Federal do Paraná

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Andréa Barbosa Gouveia é professora do Curso de Pedagogia da UFPR. Mestra e Doutora pela USP na área de Politicas Educacionais. Foi delegada da Conferência Nacional da Educação. (Foto: Gilson Camargo)

“O financiamento da educação no Brasil tem como grande fonte de recursos a receita de impostos e de certa forma isso define a forma de colaboração entre os entes federados. Os municípios e estados tem que investir 25% da receita de impostos (ICMS, IPVA, entre outros) em educação, manutenção e desenvolvimento do ensino. Já a União tem que gastar 18% da receita. Este é o grosso do financiamento da escola pública. Desde 88, no processo constituinte, lutamos pela garantia que esta  base de recursos seja destinada exclusivamente para a escola pública. Hoje a legislação permite a destinação para, por exemplo, escolas comunitárias, para bolsas de estudos nas instituições privadas, entre outros casos.  Mais recentemente com a aprovação da Lei do FUNDEB, criou-se também a possibilidade das creches conveniadas receberem recursos públicos. Então, fomos para a Conferência com esta como a principal questão, que é de retomar o princípio do recurso público para escola pública. Se em outros momentos da nossa história nós já tínhamos dado como batalha perdida, com a aprovação na CONAE desta diretriz renovamos nossa luta e esperança. Aprovamos com 90% da plenária! Acho que este é um grande ponto, que, claro depende de emenda constitucional, mas, que pode mudar essencialmente a cara do financiamento público da educação.

A outra questão é que mesmo com significativo crescimento dos investimentos em educação nos últimos oito anos e com todos os esforços que o atual governo tem feito, ainda não é o suficiente para a demanda histórica da educação pública. A gente continua alcançando apenas 4,5% do PIB.  Foi aprovado  pelos participantes da CONAE o aumento de investimentos para alcançar 10% do PIB duramte a próxima década. Este é um patamar que com certeza reduzirá a divida histórica do país com a educação pública.

Este dinheiro tem sido redistribuído, desde 98, pela política de fundos entre estados e municípios dentro da lógica do FUNDEF e do FUNDEB. E o Fundeb, que nos diz respeito atualmente, traz avanços importantes no que se refere à proteção de todo o conjunto da educação básica, mas, apresenta algumas travas que não consideram, por exemplo, na hora dos estados repassarem recursos aos municípios, o quanto custa a educação brasileira. Na regra do FUNDEB hoje, há problemas na composição dos reais valores do custo aluno. Aprovamos neste sentido uma rediscussão do conceito do que chamamos de custo aluno-qualidade. A idéia é pensar não a partir do que  já se tem, via de regra a educação brasileira é pensada com uma receita definida e divide isso com o número de alunos e faz o que é possível.  O nosso objetivo é ter um custo aluno inicial, que será calculado com o ideal. Ou seja, quanto custa ter um professor com o piso, reformas de prédios escolares, bibliotecas, alimentação? E aí sim dividimos pelo numero de alunos existente. Este é um importante instrumento para que a sociedade civil possa cobrar investimentos maiores para educação pública de qualidade. De outro lado, os estados e municípios ganham argumento para negociação com o governo federal.

Temos um conjunto de propostas importantes para compor o Plano Nacional da Educação e também para elaboração de legislações complementares. E ai entra o papel do Legislativo. A nossa aprovação de destinar recursos públicos exclusivamente para a escola pública enfrentará resistências no Congresso Nacional, onde a iniciativa privada tem muitos representantes. Então, nossa tarefa agora é organizar nossa ação e subsidiar os parlamentares simpáticos a educação pública no sentido de garantir a aprovação destas propostas.”

educação infantil, formação de professores e piso salarial nacional – depoimento de Maíra Camargo, diretora do Sindicato dos Servidores do Magistério Municipal de Curitiba

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Maíra Camargo é pedagoga da rede municipal de ensino, diretora do Sindicato dos Servidores do Magistério Municipal de Curitiba e conselheira do Conselho Municipal de Educação. Atuou como delegada pelo Paraná na II Conferência Nacional da Educação. (Foto: Gilson Camargo)

“Destaco a lei do Piso Salarial Nacional como um dos grandes debates e avanços durante a Conferência Nacional da Educação. Aqui em Curitiba, por exemplo, ainda não temos a implantação da hora atividade. Ou seja, os nossos professores têm apenas um dia para fazer suas atividades, que a gente chama de hora permanência. Nós do sindicato temos em todas as negociações feitas junto a prefeitura e ao governo do estado, reivindicado que se implante a lei do piso, pois dentro dela está contido o direito a hora atividade. Saímos bem esperançosas quando escutamos o ministro Haddad e o presidente Lula se comprometerem pelo diálogo com governadores e outras instâncias para a implementação do piso.

Ainda no que diz respeito ao atendimento ao ensino básico, uma discussão forte e marcada por polêmica foi sobre a educação à distância na formação de professores. Defendemos que pelo menos a formação inicial seja presencial, abrindo-se exceção para os locais comprovadamente com dificuldade de acesso. Aqui em Curitiba, já vimos muitos cursos para formação de professores serem a distância sem necessidade, simplesmente para baratear o ensino. Mas, acreditamos, por exemplo, que a formação continuada de professores pode ser à distância.

Destaco que a novidade anunciada pelo ministro da Educação Fernando Haddad sobre a obrigatoriedade de ingresso da criança a partir dos 04 anos foi altamente debatida na maioria dos eixos. Importante dizer que para esta questão ainda não há totalmente um consenso, ou pelo menos, há uma preocupação sobre de que forma isso se dará. Por exemplo, nós acreditamos que a proposta é importante, porém, não fica claro ainda se haverá estrutura para atender esta criança. A Conae defendeu que isso fique mais claro, ou que haja garantia de estrutura para este ingresso. O que é esta estrutura? Cadeiras adequadas, instalação de parquinhos, entre outros. Por isso, muitos defenderam que em vez de antecipar a entrada da criança no que caracterizamos como ensino fundamental, priorize-se a ampliação da rede de oferta na educação infantil. Ou seja, se é direito da criança permanecer neste nível, que existam condições para isto acontecer. Por exemplo, a luta nossa aqui em Curitiba é que se ampliem a oferta de vagas em creches. Inclusive o próprio Conselho Municipal de Educação em Curitiba fez um parecer que a família da criança pode optar entre a matrícula no CMEI ou na escola de ensino fundamental.

Para terminar, acredito que esta Conferência foi muito importante no que se refere à participação da sociedade civil. Vimos participando muitas associações de moradores, associações comunitárias, de pais e mestres, ONGs, sindicatos, as entidades de LGBT, entre outros. Isso começou desde o credenciamento, com o sistema de votação que ampliou o número de vagas para estes segmentos, o que demonstrou uma abertura deste governo na forma de pensar a educação de forma colaborativa e de se planejar as diretrizes para o futuro da mesma.”

educação especial – depoimento de Angelina Carmela Romão Mattar Matiskei, Chefe do Departamento de Educação Especial e Inclusão da Secretaria de Estado da Educação do Paraná

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Professora Angelina Mattar é chefe do Departamento de Educação Especial e Inclusão Educacional da Secretaria de Estado da Educação do Paraná e Presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência do Estado do Paraná – COEDE/PR.

“Primeiramente quero destacar a importância da CONAE. Quando você discute com o Brasil inteiro políticas educacionais, coloca a educação em outro patamar, e conversar com vários profissionais de todo o país sobre educação especial foi uma experiência muito enriquecedora. Já fomos para este debate com grandes avanços na área da educação especial, tivemos uma quebra de paradigmas na educação especial a partir de 2003. Desde lá a educação especial deixou de ser terceirizada para fora da rede pública e passou a ser encampada como educação de fato. Na Conferência, nossa principal reivindicação foi a constituição de uma rede de apoio no ensino comum à educação especial. E o que é ter uma rede de apoio? É qualificar os professores para que possam atender estas crianças, é aumentar o número de salas, de recursos multifuncionais e até disponibilizar intérpretes em libras nas escolas. Isso tudo para que as crianças realmente estejam inseridas neste contexto escolar, não fazendo de conta.  Amadurecer a cultura escolar, preparar desde o atendente do portão até o educador e, nesta linha, uma defesa também feita foi o da adequação do transporte escolar. Pois, de nada vai adiantar a instituição estar pronta para receber este aluno se ele não conseguir chegar até a escola. Por isso paralelo a toda adequação pedagógica é preciso adequação de infraestrutura.

É preciso ressaltar também o que ainda não chegou a ser consenso. Eu vou citar um exemplo: as crianças pequenas surdas têm na linguagem brasileira de sinais em libra a sua primeira língua - definida por legislação brasileira – e no português escrito a sua segunda língua. Neste tema há uma certa radicalidade na proposta defendida pelo MEC. Existe uma linha de defesa de não permitir que estas crianças se apropriem primeiro da linguagem de sinais para depois se alfabetizarem, para poderem entender os significados dos signos da língua portuguesa. Nós no Paraná não concordamos com isso, nossas escolas se abrem para a possibilidade de o processo de alfabetização em libras acontecer por primeiro.

Importante ressaltar que aqui no Paraná temos uma tradição na educação especial. Nós atualmente estamos finalizando as parcerias com escolas terceirizadas para fazer a inclusão destes alunos na rede comum. Lembrando que no contraturno estes alunos recebem atendimento especializado. Para este atendimento, muitas escolas que eram chamadas especiais foram transformadas em centros de atendimento. Por exemplo, das 19 escolas conveniadas para surdos, 11 já foram transformados em centros e os alunos inseridos nas escolas públicas.”

Foto: Gilson Camargo

ensino médio – depoimento de Alayde Digiovani, Superintendente da Secretaria de Estado da Educação do Paraná

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Alayde Digiovani é formada em Psicologia pela Universidade Tuiuti do Paraná (1981) e mestra em Educação pela Universidade Federal do Paraná (2005). É professora assistente da Universidade Estadual do Centro-Oeste, Campus Irati, cedida, a partir de maio de 2007 para assumir a Diretoria de Políticas e Programas Educacionais da Secretaria de Estado da Educação do Paraná. Em julho de 2008, passou a exercer o cargo de Superintende da Educação na mesma Secretaria.

“A CONAE pautou como prioridade a retomada e a implantação em todo o país do ensino profissionalizante. O Paraná, considero que já fez a tarefa para os próximos 10 anos. Quanto ao ensino profissionalizante o estado do Paraná é muito diferente. No Paraná temos 285 escolas profissionais, fora as federais, os Ifets. Nós no Paraná decidimos pela retomada do ensino profissionalizante em 2003 e o MEC veio na mesma linha.  Inclusive conseguimos no “Brasil Profissionalizado”. entre todos os estados o maior financiamento federal porque tínhamos projeto.

Em relação ao ensino médio como um todo, porém, existe um grande desafio para os próximos dez anos que tem a ver com a universalização. O primeiro é a rede física e a estruturação da mesma. Acho que o que não apareceu na Conferência na intensidade que deveria aparecer é que atualmente a rede não absorve, não tem estrutura física para absorver o contingente de alunos que estão fora da escola pública nesta faixa etária. Se forem todos amanhã e chegarem nas escolas aqui do Paraná pedindo matrícula, muitos voltarão para a casa. Por este motivo estamos neste momento trabalhando no geoprocessamento para desenhar o mapa das demandas e indicar a necessidade de novas escolas e a adequação das já existentes.  Então, a expansão do ensino médio não é só aumentar as matriculas, é pensar em toda esta estrutura.

O outro problema que levantamos pelo Paraná durante os debates da CONAE foi sobre a correção de fluxo. Ou seja, alunos com idade errada. A grande maioria das escolas em todo o Brasil oferece mais vagas no período noturno, o que afasta muitas vezes o grupo de 15 a 17 anos de freqüentar as aulas. Através de um levantamento feito pela nossa Secretaria, verificou-se que quando conseguimos equilibrar a oferta para o ensino médio no período diurno, equilibramos o fluxo de alunos desta faixa etária (dos 15 aos 17 anos), deixando para o noturno a educação dos adultos e trabalhadores. Em nossos dados temos também que a oferta de matriculas no diurno de 2000 até agora passou de 40% para 58,5%. Em 2000 tínhamos 138 mil alunos de 15 a 17 anos, agora alcançamos 282 mil. Para corrigir este fluxo não defendemos o alijeiramento, mas, acredito que para fazer o enfrentamento continuo temos que ter planejamento e ampliação da rede junto com o financiamento federal.  Esta é uma questão que foi  abordada na CONAE, mas, que precisa ser aprofundada, quem sabe pelo Legislativo.

Acredito que todas estas discussões e as metas aprovadas na CONAE só darão certo se estiverem coadunadas com planejamento e financiamento por metas. Acho que estamos avançando muito nisso, temos agora um planejamento que é resultado das avaliações nos estados e municípios com dados concretos que são subsídios para que os sistemas de educação se organizem.”

Foto: Gilson Camargo

entrevista com sérgio mamberti – presidente da funarte

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Em 2009, o ator Sérgio Mamberti assumiu a presidência da Fundação Nacional de Artes (Funarte) com o objetivo de comandar a reestruturação do órgão e reafirmar sua relevância no cenário artístico brasileiro. Um dos papéis fundamentais da Funarte é zelar pela memória cultural do país, por meio da identificação, recuperação,  preservação e guarda de acervos. Este trabalho é realizado pelo Centro de Documentação e Informação em Arte e pelo Centro de Conservação e Preservação Fotográfica.
Saiba mais: http://www.funarte.gov.br/portal/

Mamberti tem 70 anos e nasceu em Santos. Formado pela Escola de Artes Dramáticas de SP, já atuou em 38 filmes, 26 novelas e em mais de 70 espetáculos teatrais. No Governo Lula ocupou os cargos de diretor da Secretaria de Artes Cênicas, diretor da Secretaria de Música e foi secretário da Identidade e Diversidade Cultural. Nesta entrevista, concedida ao Blog Vanhoni durante a II Conferência Nacional de Cultura realizada em Brasília, ele falou sobre as expectativas a respeito dos trabalhos da Comissão de Educação e Cultura. Um dos projetos que estará sendo analisado pela Comissão trata da reestruturação da FUNARTE. Para Mamberti, reestruturá-la pressupõe desde a qualificação dos servidores até o estabelecimento de uma nova dinâmica de fomento às linguagens artísticas, como o teatro, a dança e o circo.

Qual a sua expectativa para o trabalho do Legislativo em 2010 no que se refere a área da cultura?

Sérgio Mamberti: Nós temos hoje no Congresso uma pauta de cultura realmente extensa, revolucionária e institucional. Trata-se da consolidação e do avanço de processos que a gente vem lutando e trabalhando nestes últimos anos. Temos a PEC 150 que é importante no sentido de que a cultura tenha os dois por cento garantidos pela constituição. Passando então pela nova lei de incentivo, passando pelo Sistema Nacional de Cultura, o Plano Nacional de Cultura, o Vale Cultura e, não posso deixar de destacar, algo que deve estar chegando ao Congresso que é a reestruturação da Funarte. Eu agora a presido e sei o quanto é fundamental termos uma Funarte reestruturada para que ela realmente se fortaleça e passe a ocupar o papel importante que lhe cabe.

Diante destas circunstâncias que estamos vivendo, diante das boas respostas que o legislativo tem nos dado, é um prazer estar comemorando a chegada do Vanhoni à presidência da Comissão de Educação e Cultura. Um grande companheiro que tem sua vida e seu mandato muito ligados a esta visão de cultura que a gente hoje defende, constrói e que o seu conceito amplo se expressa por exemplo nesta Conferência. Um momento muito oportuno e feliz de termos uma pessoa como o Angelo à frente da Comissão. Com o Vanhoni, uma bela equipe lá na Comissão de Educação e Cultura e a continuação desta relação afinada entre o Ministério e o poder legislativo, eu prevejo grandes vitórias e conquistas.

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Gostaria que você  falasse um pouco mais sobre a expectativa quanto à reestruturação da Funarte.

Sérgio Mamberti: A Funarte foi criada no período da ditadura e sempre teve um papel extraordinário na vida cultural brasileira. Até hoje é lembrada pelo trabalho de aprofundamento que sempre realizou. Quando nós passamos a ser Ministério em 1985, há 25 anos atrás, a cultura viveu uma fase inicial de empobrecimento, sendo já um período bastante difícil, pois, o Ministério da Cultura tinha recursos bastante exíguos. Para piorar esta situação vem o Governo Collor e praticamente extingue todos os mecanismos de cultura, o Ministério se estrutura todo como uma Secretaria e a Funarte fecha as portas. No Governo Itamar Franco se reconstitui o Ministério formalmente, mas, não realmente. Com o Governo Fernando Henrique este Ministério se estrutura a partir de uma visão do mercado e ausência do Estado e a Funarte foi sofrendo toda esta desestruturação. Quando nós chegamos, o Ministério da Cultura estava em coma e a Funarte combalida. O nosso primeiro presidente da Funarte, o Antônio Grassi, tomou diversas iniciativas para tirá-la deste estado. Algumas bastante simbólicas, como reestruturar o Projeto Pixinguinha e, eu cheguei na Funarte há dois anos de final de gestão com a missão de estabelecer esta nova dinâmica e a reestruturação. Neste quase um ano e meio que estou à frente, conseguimos avanços consideráveis: repactuamos a relação com os servidores e restauramos e dobramos os valores para  todos os editais. Neste ano, ao todo serão 50 milhões de reais para os editais. Acredito que o mais importante é perseguir a sustentabilidade da cultura, que é fundamental  para que os três eixos; cidadania, produção simbólica e economia criativa estejam presentes. Precisamos fomentar e aprofundar as propostas para as linguagens artísticas com que atuamos mais de perto, como o teatro, a dança e o circo, fazer com que a cultura ocupe seu lugar. Certamente o Estado tem o seu papel de fomentador e é preciso investir, mas, é preciso pensar também que as diferentes áreas artísticas tenham lá sua sustentabilidade para que não fiquem eternamente dependentes. Acho, enfim, que está tudo florescendo e para isso precisamos de uma Funarte equipada deste ponto de vista da qualificação do servidor, desde o seu plano de cargos e salários à sua especialização. A Funarte cada vez mais precisa de quadros que estejam qualificados e preparados para os novos desafios.

Ao falar em dar sustentabilidade para a cultura, você  que esteve a frente da Secretaria da Identidade e Diversidade Cultural, como vislumbra as alterações da Lei Rouanet para que a mesma alcance as diferentes manifestações artísticas brasileiras?

Sérgio Mamberti: A Secretaria de Identidade e Diversidade Cultural  foi criada para chegar aos que não eram contemplados com as políticas de cultura. Foi um presente para mim, pois, é uma grande satisfação trabalhar com os povos indígenas, com as culturas populares, saúde mental, LGBT. E cada vez se amplia mais este horizonte, as diversidades culturais são abrangentes, as diferentes linguagens artísticas tem um papel bastante importante porque começamos a ter a visão de que não existe hierarquia e que não existe divisão entre cultura popular e erudita. Tanto que a Convenção da Diversidade é para proteção das expressões culturais, uma sugestão feita pelo próprio Ministério para que não se permita nenhum tipo de diferenciação ou privilegiamento e as mudanças na Lei Rouanet são fundamentais neste sentido, porque os fundos previstos vão estabelecer direcionamentos, criando uma possibilidade real de que cada uma destas áreas tenham sua identidade afirmada.

Entrevista: Ana Carolina Caldas
Fotos: Gilson Camargo

museus – depoimento de josé do nascimento junior, diretor do instituto brasileiro de museus (ibram)

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A criação do Instituto Brasileiro de Museus foi sancionada pelo presidente Lula em janeiro de 2009. A nova autarquia vinculada ao Ministério da Cultura sucedeu o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IphaN) nos direitos, deveres e obrigações relacionados aos museus federais.
Saiba mais: http://www1.museus.gov.br/

“A expectativa é que a gente construa uma pauta neste ano dentro da Comissão de Educação e Cultura, para colocar este tema no centro dos grandes debates do país. Um dos primeiros comprometimentos da Comissão é que as emendas para o orçamento deste ano, ao invés de serem três para Educação e uma para Cultura, agora ficarão duas e duas. Isso já mostra que a partir da presidência do deputado Angelo Vanhoni haverá uma ação mais equilibrada entre as duas áreas. Ë importante destacar a trajetória do Vanhoni até chegar a presidência da Comissão de Educação e Cultura. Ele foi o deputado que mais legislou sobre o assunto e é um dos poucos parlamentares que tem a cultura no centro da sua atuação.

Nós, da área dos museus, tivemos sempre um acolhimento muito positivo da Comissão. O Vanhoni teve um papel fundamental na aprovação da criação do Instituto Brasileiro de Museus, botou debaixo do braço o projeto, foi militante da causa e com isso conseguiu que tivesse uma tramitação muito rápida na Câmara Federal. Conseguimos também pela Comissão de Educação e Cultura pautar desde a política nacional dos museus até os Pontos de Memória. Agora, a expectativa é reforçar esta ação e avançar em alguns projetos que estão tramitando. Um deles, de iniciativa do deputado, é o que prevê a dedução no imposto de renda para a doação de acervos a museus públicos federais.”

José do Nascimento Junior, nascido em 1966, é formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É mestre em Antropologia Social pela UFRGS, dirigiu o Memorial do Rio Grande do Sul, o Museu de Antropologia do Rio Grande do Sul, coordenou o Sistema Estadual de Museus do Rio Grande do Sul, foi coordenador de Museus e Artes Plásticas do Ministério da Cultura e diretor do Departamento de Museus e Centros Culturais do IphaN.

Foto: Gilson Camargo




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Twitter Angelo Vanhoni