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ensino superior – depoimento de zaki akel sobrinho, reitor da universidade federal do paraná (ufpr)

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O reitor em seu gabinete, em frente a tela de José Daros, de 1929. Artista paranaense, discípulo de Alfredo Andersen que retratou o prédio histórico da UFPR visto a partir do Passeio Público de Curitiba.

“Fiquei muito feliz com a indicação do deputado Angelo Vanhoni para a Comissão de Educação e Cultura da Câmara, porque nós o conhecemos já faz muito tempo. Aqui na nossa Universidade ele tem nos ajudado ao longo dos anos em vários projetos a fazer pleito junto ao Ministério da Educação. De outra parte, ele tem nos lançado alguns desafios. Para exemplificar isso, temos o projeto do Curso de Museologia que já está pronto. A Universidade investiu 50 mil reais para trazer  técnicos especializados nesta área. Agora vamos contar com o apoio dele para levar esta demanda ao Ministério da Educação e assim teremos o primeiro curso de Museologia do Estado do Paraná.  O outro projeto é o Corredor Cultural, uma idéia que criamos para o centenário da universidade. O ponto de partida é a restauração do prédio histórico para torná-lo um centro cultural. A proposta é manter a Faculdade de Direito e o restante do espaço voltarmos para estas atividades. O Vanhoni se encantou com a proposta e abriu as portas do Ministério da Cultura, conversamos com o Juca Ferreira por intermédio do deputado e depois ainda apresentamos ao Ministro da Educação. Vanhoni tem feito um papel de articulador das forças envolvidas nestas duas áreas, dos vários agentes, das Ongs e dos órgãos de classe com as autoridades políticas. Acho que esse é um  papel que o legislativo deve ter, o outro é o de propor políticas, discutir as leis. Com todo o desgaste que a nossa Câmara passou é bom que a gente saiba separar. Há parlamentares absolutamente engajados e conhecedores das temáticas que podem propor avanços. Neste sentido, contamos com o Vanhoni para avançar ainda mais na educação. Por exemplo, no Paraná nós temos um déficit de investimentos federais em comparação a outros estados. Já há um movimento aqui no Paraná para que a gente pleiteie apoio maior por parte do MEC.

Outro tema é a questão dos hospitais universitários. Por uma decisão do Presidente Lula, cabe ao Ministério da Educação, Ministério da Saúde e ao Ministério do Planejamento equacionar este problema. O Presidente Lula faz uma reunião por ano com os reitores e nesta oportunidade apresentamos esta pauta, pois, todos os hospitais estão em crise. Aqui no Paraná temos 1200 funcionários e existe um acórdão que diz que eles deverão ser demitidos ao final deste ano. Trata-se de um assunto urgente! Neste aspecto, esperamos o apoio do Vanhoni. Uma questão que já vem sendo bem encaminhada pelo Ministério do Planejamento que tem dado importante suporte é o plano de carreira dos trabalhadores da saúde que vai para  o Congresso e faz parte dos ajustes voltados aos hospitais universitários. Eles viram que há situações muito peculiares dentro do hospital que não se enquadram na carreira normal de uma universidade. Geralmente o que acontece é que um médico faz o concurso e inicia sua carreira, porém, acha o salário baixo e nos abandona. Desta forma, a rotatividade destes contratos é enorme. Por este motivo é que reivindicamos que se consolide este plano de carreira.

Existem outras questões, como as cotas sociais e raciais em que o Supremo está para se manifestar sobre. Há ainda o debate sobre a flexibilização, se devemos nos afinar com o acordo de Bolonha que propõe o encurtamento dos cursos de graduação, mestrado e doutorado, com o objetivo da formação mais rápida. O Brasil tem resistido, muitas pessoas na estrutura do governo são contra, pois, acham que vai acabar com a qualidade de ensino. Sobre essas  e outras questões eu fico muito confiante porque o Vanhoni conhece o assunto e vemos que esta foi uma escolha não só pela questão política, mas. também de mérito por toda a trajetória dele nestas duas áreas.

O salto que o governo Lula deu na área da educação é algo sem paralelos. Já  disse em várias oportunidades que as universidades foram revitalizadas com o REUNI e a criação de novas universidades que passou pelo Congresso com muita tranqüilidade. Aqui nós temos o exemplo da UNILA, aprovada por unanimidade com todas as lideranças endossando este projeto. Houve também uma injeção de recursos para recuperar as instalações físicas, ampliar os campus universitários, novas bibliotecas, para contratação de professores. Tudo isso muito bem executado pelo Ministério da Educação, mas sempre com apoio do Legislativo. Fica claro que há uma grande vontade política de valorização para a formação de novos quadros que irão contribuir para o desenvolvimento do país. Houve neste governo um grande resgate das universidades públicas e hoje estamos olhando para o futuro, planejando, tirando projetos da gaveta, pensando em como avançar mais, quais as inovações necessárias, as novas metodologias de ensino. Também temos a ampliação do ensino técnico tecnológico que leva com boa formação o jovem para o mercado de trabalho. Além do investimento em recursos humanos com a equiparação salarial, apoio à saúde e qualificação do servidor. Tudo muito sintonizado com o que o Brasil precisa.

Mas, ainda temos um déficit muito grande de acesso ao ensino superior. As estatísticas mostram que perto de 13% apenas dos jovens estão numa universidade. Tudo o que gostaríamos é que estas políticas todas se consolidem. Não desejamos que isso seja apenas um sopro de investimentos, então o grande caminho é que o governo invista mais nas políticas sociais de acesso para que a nossa juventude possa vir à universidade e também dê permanência. Neste sentido, o MEC tem nos apoiada nas políticas de assistência estudantil em questões como melhorias para o Restaurante Universitário, para moradia estudantil, saúde e transporte gratuito para o estudante, além dos programas de bolsas que recebem muitos recursos alcançando cerca de dois mil estudantes.mAlém deles não pagarem os estudos, tem dinheiro para pagar suas despesas. Com isso o aluno tem condições de permanecer na universidade, se forma e vai servir à sociedade.”

Foto: Gilson Camargo

ensino público – depoimento de marlei fernandes de carvalho, presidente do sindicato dos trabalhadores em educação pública do paraná (app sindicato)

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“Recebemos com muita satisfação a notícia da eleição do deputado Angelo Vanhoni para a Comissão de Educação e Cultura. Ele sempre foi um companheiro nosso da educação. Eu estive nestes últimos anos em Brasilia na Comissão de Educação e Cultura acompanhando vários projetos de âmbito nacional que interessam os professores e funcionários do nosso país e o deputado esteve sempre presente com um debate bastante afirmativo, esteve sempre em diálogo com a APP para saber nossas reivindicações e para se apropriar melhor dos nosso projetos. Para nós é muito importante ter a frente desta Comissão um paranaense, companheiro da educação brasileira. Digo brasileira porque o Vanhoni possui um trânsito significativo, por exemplo, junto à Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE). Trata-se de um reflexo, porque o Vanhoni tem uma importante trajetória na defesa destes interesses e, também, devido a sua atuação neste mandato como deputado federal.

Temos um acúmulo grande de projetos significativos nos últimos anos. Teremos uma reorganização agora na Conferência Nacional da Educação, da Frente Parlamentar em defesa do Piso Salarial Nacional dos professores. Mesmo este tema tendo ficado um ano em debate no Congresso, com muitas audiências na Comissão da Educação e Cultura, ele está sob júdice. Acredito que uma das prioridades é a Comissão retomar a defesa do piso, pois, nós demoramos duzentos anos para conquistá-lo! O piso foi aprovado em 2008, já é lei, mas, tivemos uma ação de inconstitucionalidade gerando grandes dificuldades na sua aplicação. A partir do momento em que temos uma lei que está sob júdice pelo Supremo Tribunal Federal, isso cria uma dissonância. Já é difícil que alguns prefeitos e governadores apliquem o piso, 70%  dos professores em nosso país não recebem um salário de novecentos reais por uma jornada de 40 horas e isso tem acarretado um grande atraso para a comunidade educacional do Brasil. Neste dia 16 de março teremos uma grande mobilização nacional para reivindicar que o Supremo vote esta matéria. Acho, portanto, que o papel da Comissão de Educação é dialogar com o poder judiciário para que os trabalhadores em educação possam ter este piso que é o início das suas carreiras.

Avançamos muito neste último período. Aumentamos os investimentos para educação, agora estamos chegando a 5% do PIB. A Conferência Nacional de Educação é um grande marco deste governo. Reunirmos um milhão de trabalhadores da educação brasileira é uma grande conquista. Como sempre diz o presidente, “nunca na história deste país” nós pudemos chegar em municípios pequenos com profissionais que nunca haviam debatido políticas públicas. Realmente a Conferencia vai consolidar um processo, ainda lento, mas, progressivo de alteração do cenário educacional brasileiro e vai trazer o que mais desejamos para a sociedade brasileira que é uma educação pública de qualidade, laica e para todos e todas.

Outros temas que estão na pauta educacional: as novas diretrizes de carreira, que é um projeto que passou pelo Congresso e agora vai para o Senado e é  importante que seja reafirmado. As diretrizes de carreira para os funcionários de escolas, a qual nós conseguimos aprovar a lei para que eles estejam categorizados como profissionais da educação.

E, por último, acredito que a participação da Comissão de Educação na Conferência Nacional seja fundamental para que possamos consolidar no Plano Nacional da Educação diversas políticas, o financiamento, a gestão democrática e as relacionadas às universidades, entre outras. A sociedade civil fará um amplo debate, porém, quem vai votar e decidir são os deputados. Estaremos fazendo uma ação junto ao parlamento e se tivermos aliados na Comissão, como temos o deputado Vanhoni, faremos uma boa disputa dentro do Congresso.”

Foto: Gilson Camargo

produção cultural – depoimento de joão luiz fiani, presidente do sindicato dos empresários e produtores de espetáculos de diversão do estado do paraná (seped)

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Da platéia do Teatro Lala Schneider, inaugurado há 15 anos, João Luiz Fiani dirige um dos espaços de maior índice de público da cena teatral curitibana, além de presidir o SEPED, produzir, adaptar, dirigir e atuar em centenas de espetáculos levados na cidade.

“Para nós é um grande orgulho o Angelo ocupar a presidência da Comissão de Educação e Cultura da Câmara. Principalmente porque o Paraná sempre fica relegado a segundo plano nesta área. E de outro lado é uma vitória. O Angelo sempre esteve envolvido com as questões culturais e eu o vejo como uma luz no fim do túnel. Estou orgulhoso e feliz por ser amigo dele e saber que o seu trabalho sempre foi muito sério. Um dos debates que passará por esta Comissão é a Lei Rouanet. Eu vejo ainda este assunto como uma utopia para nós aqui no Paraná. Fazer uso dela é uma situação utópica. Rezo para que o Vanhoni a frente desta Comissão possa fazer com que nós, reles mortais,  possamos ter acesso a este mecanismo. Esta é a nossa expectativa.

Como representante dos produtores de cultura, como presidente do SEPED, acho que a gente ainda sofre muito com a falta de recursos e incentivos. Temos apenas a lei municipal, nada em nível estadual e muito pouco na esfera federal. Com o Vanhoni, temos um aliado de Curiitba e do Paraná. Temos aqui muitos produtores de qualidade, artistas maravilhosos e o que falta realmente é esta projeção e respeito nacional. Mas, este é um importante passo, ter um paranaense sensível à cultura a frente deste processo.

Na época da campanha eleitoral foi falado muito em estadualização da Lei Rouanet, o que para mim é uma grande sacada e poderia ser a salvação da cultura brasileira. Infelizmente pelo que eu soube o eixo Rio-São Paulo foi totalmente contra e, se essa briga não for resolvida mais uma vez ficaremos relegados ao último plano. As grandes empresas preferem investir nos artistas de São Paulo e Rio, que normalmente tem maior visibilidade. Então espero que isso possa ser revertido. Não podemos esquecer que isso foi promessa de campanha e ainda não foi realizada.”

Foto: Gilson Camargo

acordos de cooperação internacional – visita do presidente lula à ucrânia – entrevista com vitório sorotiuk, presidente da representação central ucraniano brasileira

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O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva estará na Ucrânia no dia 02 de dezembro de 2009, data em que será realizado o Fórum Econômico Brasil-Ucrânia. No encontro serão assinados vários acordos de cooperação entre os dois países, com especial destaque para os convênios nas áreas de Cultura e Educação. O estado do Paraná tem uma grande comunidade ucraniana, fruto das imigrações ocorridas no final do século 19 e receberá em breve, pela primeira vez, a visita do ministro da Cultura daquele país. Recentemente, em abril de 2009, por iniciativa do deputado Angelo Vanhoni, o ministro Juca Ferreira esteve em Mallet para a inauguração das obras de restauro da Igreja São Miguel Arcanjo, passando também por Irati e Prudentópolis. O Brasil tem diversos projetos em parceria com o governo ucraniano, dentre elas a binacional Alcantara Space, que desenvolve tecnologia para o lançamento de satélites. O Blog Vanhoni entrevistou Vitório Sorotiuk, presidente da Representação Central Ucraniano Brasileira, que também estará na Ucrânia neste período. Confira o que ele fala sobre a importância deste encontro.

“O Brasil tem expandido suas relações no plano internacional e está abrindo negociações de trabalho e de mudanças na área comercial, cultural e política com o mundo todo. No caso específico desta visita do presidente Lula a Ucrânia, o Brasil está levando propostas em que os dois países podem se complementar em áreas de interesse estratégico para ambos. Uma delas é a Alcantara Cyclone Space, que já existe há algum tempo e é a segunda empresa binacional do Brasil, além da Itaipu. Hoje temos cooperação científica e tecnológica com diversos paises, mas, com a Ucrânia temos este projeto específico que abre o espaço não só para o Brasil, mas, para toda a América Latina e traz a possibilidade de lançarmos satélites a custos mais baixos utilizando lançadores em outros países.

Existem também muitas perspectivas de comércio, vou citar alguns exemplos: a Ucrânia é um grande produtor de fertilizantes e o Brasil um grande importador. Aí se abre um possível caminho de negociação, não só para baixar os custos dos fertilizantes no Brasil, que já é interessante para a nossa agricultura, mas também para vender os nossos produtos lá. A Ucrânia é um grande produtor de aço e me parece que a Embraer trabalha com a idéia de construir aviões de carga, aviões de grande porte, então vemos aí uma outra possibilidade de barateamento de matéria prima através da cooperação comercial e tecnológica.

Nós tivemos reuniões em Brasília com o embaixador da Ucrânia, no Ministério da Cultura e no Ministério da Educação e foram encaminhados dois acordos bastante amplos nestas duas áreas, que serão assinados pelos dois presidentes agora no dia 02 de dezembro.

Também há outra área estratégica em que o Brasil já tem uma cooperação com a Ucrania que é a produção de insulina. Aos poucos estão se abrindo vários caminhos de aproximação e intercâmbio entre os dois países. O prefeito de Paranaguá, José Baka, já esteve presente em Mariupol assinando o convênio de cidade irmã e outras cidades estarão fazendo isso em breve, dentre elas Prudentópolis, Mallet, Irati e Campo Mourão. Pelo que se sabe, poderão ser assinados perto de 10 acordos nesta viagem e haverá também o Fórum Econômico Brasil – Ucrânia, do qual o presidente Lula participará. Existe ainda uma colaboração prevista na área de esportes, na qual a Ucrânia é muito forte e o Brasil está se preparando para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas.”

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Grupo folclórico ucraniano durante visita do Ministro Juca Ferreira à igreja de Mallet, em abril de 2009.

“A comunidade ucraniana tem 25 grupos folclóricos no Brasil. Só no Paraná tem 20 e aqui em Curitiba tem 2. Está chegando agora, no início de dezembro, um grupo de 12 dançarinos da Ucrânia que farão workshops em Curitiba e em Maringá. Nós da comunidade ucraniana estamos vivendo um momento muito bom, em 2009 tivemos a visita do Ministro Juca Ferreira ao estado do Paraná, ele visitou Mallet, Irati e Prudentópolis, e deu início ao restauro da primeira igreja ucraniana construída no Brasil. Agora, a ida do presidente Lula possibilitará a assinatura de novos acordos. Teremos este ano também a vinda do Ministro da Cultura da Ucrânia ao Brasil pela primeira vez e estamos fazendo os preparativos para a comemoração dos 120 anos da imigração ucraniana em 2011. O conjunto destas iniciativas vem possibilitando um intercâmbio maior entre o Brasil e a Ucrânia, abrindo novas perspectivas não só para a comunidade ucraniana, mas para os dois países como um todo.”
Vitório Sorotiuk

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Jovens das comunidades ucranianas de Prudentópolis por ocasião da visita do Ministro da Cultura a igreja de São Josafat.

Fotos: Gilson Camargo

ariano suassuna – incentivo a leitura – mestres fandangueiros do litoral paranaense e cultura popular brasileira

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Ariano e Zélia Suassuna durante coletiva a imprensa em Curitiba, em 28/10/09, por ocasião de sua participação no projeto “Vozes de  Mestres – Festival Internacional de Cultura Popular”, patrocinado pelo Banco do Brasil, com consultoria local da pesquisadora Rejane Nóbrega. A noite, o escritor e atual secretário de Cultura do Estado de Pernambuco participou de uma mesa redonda com os mestres fandangueiros do litoral paranaense Martinho dos Santos e Leonildo Pereira.

Mestre, quais foram os seus mestres?

“Bom, pra começar do começo mesmo o primeiro foi meu pai, João Urbano Suassuna. Ele gostava de literatura, era um grande leitor e me deixou uma biblioteca. Quer dizer, no sertão da Paraíba eu tinha uma biblioteca, coisa que não era comum naquela época. Eu mal aprendi a ler e já me tornei um leitor apaixonado. Outro dia um jornalista me perguntou se eu tinha o hábito da leitura, eu falei: não, eu tenho a paixão pela leitura! Agora mesmo eu estava lendo “Os Demônios” de Dostoiévski, acho que pela centésima vez.

Meu pai foi meu primeiro mestre e em seguida me indicou o segundo, porque ele era um grande apaixonado por Euclides da Cunha. Foi aí que eu li “Os Sertões” pela primeira vez e também Eça de Queirós, que era outra grande paixão dele e que é minha também. Eu ainda hoje tenho uma alegria enorme quando leio Eça de Queiros por causa da linguagem, eu sabia de cor vários pedaços de “A Cidade e as Serras”. É a musicalidade da língua portuguesa explorada ao máximo. Depois de mais crescido, destaco Cervantes e Dostoiévski. “

E brasileiros?

“Já citei um deles, Euclides da Cunha. Você perguntou mestres mineiros, não foi? Mineiros, eu acho que não tive mestres, tive companheiros. Pode parecer até mania de grandeza, mas não é não. Porque inclusive mestre a gente tem às vezes no grupo dos escritores menores. Eu considero um dos romances mais importantes da minha formação um romance colocado fora do grande cânone literário, chamado “Scaramouche”, não sei se vocês já ouviram falar. É um autor e um personagem curioso, ele estudou em Portugal, o pai era italiano e a mãe inglesa, chamado Rafael Sabatini, conhecido como autor de aventuras. O Capitão Blood é um de seus romances mais famosos. Eu gosto do “Scaramouche” porque boa parte do romance se passa numa trupe ambulante de teatro, que sempre exerceu um fascínio muito grande sobre mim. A minha paixão pelo teatro começou no circo, que é uma forma de espetáculo ambulante. Você não sabe a alegria que eu tinha quando chegava da escola depois do almoço e me deitava, sempre gostei de ler deitado, e quando eu abria o livro era como se um mundo novo se abrisse pra mim.”

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“Eu não gosto de viajar, e não é só de avião, é de qualquer jeito. De avião é pior ainda! Só tem dois tipos possíveis de viagem: as tediosas e as fatais. De forma que de avião é o caso em que você reza pra viagem ser tediosa. Nunca saí do Brasil. Tenho vontade de conhecer Portugal, mas só se Portugal fosse em Alagoas. Do jeito que é longe, quando eu tenho vontade de ir até lá eu leio Eça de Queirós. Outro dia, conversando com um português eu dei a ele informações sobre a província em que ele vivia que ele mesmo não conhecia. Daí me perguntou se eu fui até la e eu disse que não. Quando tenho vontade de conhecer a Espanha, por exemplo, leio Cervantes”.

Como o senhor vê a importância da circulação dos textos clássicos e obras da literatura universal como a poesia épica de Homero?

“Para mim é extremamente importante. Eu não sei como se pode deixar isso de lado. Quando falo assim dizem que Ariano é um passadista. Mas eu não sou passadista não! Um sujeito como Homero não é passado, ele é contemporâneo eterno de todas as gerações. Quando restarem só os ossos da gente para os nossos netos e bisnetos, Homero vai continuar sendo lido. Quem é que vai lembrar da Madonna no seculo 22 ou 23? Eu duvido que vocês se lembrem do nome de um grande violinista do seculo 18. Do século 19 eu ainda sei, Paganini, mas do 18 já não sei mais não, e olha que ser violinista ainda é um negócio importante. Agora imagina as Bandas Calypso do século 18? Daqui há 20 anos já ninguém lembra, quanto mais daqui a  200! Isso é o sucesso. Eu faço muita distinção entre êxito e sucesso. Euclides da Cunha, que não tem nem um décimo do sucesso e é muito menos conhecido do que qualquer banda punk funk por aí, vai atravessar os séculos! Os Sertões é um êxito! Enquanto houver a língua portuguesa, enquanto existir um país chamado Brasil a gente vai saber que um homem chamado Euclides da Cunha escreveu um livro fundamental pra formação da nação. Como Guimarães Rosa escreveu Grande Sertão Veredas. É o que eu chamo de êxito.”

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O senhor comentou sobre os mestres da literatura, mas existem os mestres da cultura popular no Brasil de Norte a Sul, e hoje a noite o senhor tem um encontro com mestres fandangueiros aqui do Paraná. Gostaria que o senhor falesse um pouco sobre isso.

“Eu vi pela primeira vez uma cantoria aos 7 anos de idade. Tive a oportunidade de ver um dos maiores cantadores que tivemos no nordeste, Antônio Maria, e aquilo me impressionou muito. Principalmente as histórias do Nego Benedito, que era sagaz como ninguém. Mas, eu talvez não tivesse dado ao folheto popular a importância que eu dei se não o tivessse visto em livro, que para mim é um objeto sagrado, e no livro que foi do meu pai. Ele foi amigo de um escritor cearense chamado Leonardo Mota, que escreveu um livro documentando as cantigas e os desafios dos cantadores e os autos populares do Nordeste. Para você ter uma idéia da importância desse escritor, “O Auto da Compadecida”, que é uma das mais lidas das minhas peças, foi fundamentada em três folhetos que têm num livro dele chamado “Violeiros do Norte”. Aí começou o meu contato com a cultura popular e eu dou uma importância enorme pra ela. As histórias mais populares e locais muitas vezes são as mais universais.”

Fotos: Gilson Camargo

entrevista à rádio comunitária onda livre – campo largo/pr

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Lino Petry, Carlos Andrade e
Angelo Vanhoni, durante entrevista concedida a Célio Vigilato.

A Rádio Onda Livre de Campo Largo entrevistou o deputado Angelo Vanhoni nesta sexta feira 09/10/2009, em diálogo com Carlos Andrade, secretário municipal de Assuntos Estratégicos, representando o prefeito Edson Basso, e Lino Petry, secretário municipal de Desenvolvimento Rural. Os entrevistados anunciaram  a chegada de benefícios para as familias que moram no interior do município, em evento que acontecerá neste domingo, 11 de outubro, as 14h, durante tradicional festa na localidade de Santa Cruz, no distrito de Três Córregos.

O prefeito Edson Basso fará a entrega de um trator  que será utilizado em atendimento às demandas dos produtores locais. O programa é um incentivo ao pequeno agricultor, que pagará  uma taxa de cerca da metade do valor cobrado por empresas especializadas pela hora de trabalho, para ter acesso ao maquinário agrícola. O veículo foi adquirido com recursos do governo federal através de uma emenda parlamentar do deputado federal Angelo Vanhoni, que garantiu ao município um recurso de aproximadamente 100 mil Reais. O dinheiro está sendo disponibilizado pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Rural para a compra do trator e de mais duas grades de arado. Dentre as melhorias anunciadas pela prefeitura estão a ampliação da Unidade Básica de Saúde na localidade de São Pedro e a compra de duas novas ambulâncias. Os veículos substituirão as antigas unidades móveis usadas para transporte de pacientes e beneficiarão os Distritos de Três Córregos e São Silvestre.

Durante a entrevista foram discutidos acontecimentos estruturais para a cidade, como o perdão da dívida do município de Campo Largo com o Estado do Paraná,  projeto que está sendo encaminhado à Assembléia Legislativa por iniciativa do governador Roberto Requião, e o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) para a agricultura familiar, do governo federal, que vai garantir um preço mínimo para a compra da produção de alimentos, incentivando o pequeno agricultor.

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Fotos: Gilson Camargo

mupe – museu de periferia do sítio cercado / curitiba – entrevista com mário de souza chagas – diretor de processos museais do ibram

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Mário de Souza Chagas é poeta, museólogo, professor da UniRio, mestre em Memória Social e doutor em Ciências Sociais. Atualmente dirige o Departamento de Processos Museais do Ibram (Instituto Brasileiro de Museus). Mário Chagas e sua equipe estarão ministrando a oficina “Museu, Memória e Cidadania”, que visa a instalação de um Ponto de Memória no bairro Sítio Cercado, em Curitiba, nos dias 2 e 3 de setembro de 2009, na sede da Associação de Moradores Nossa Senhora da Luta. As inscrições podem ser realizadas por e-mail em museudeperiferia.mupe@gmail.com – maiores informações podem ser obtidas através dos telefones: 41 9211 4915 e 9699 3851.

A entrevista, concedida com exclusividade para o blog, descreve o desenvolvimento das políticas museais brasileiras, as práticas museológicas em curso no país e sua inscrição no cenário internacional.

Blog Vanhoni: Mário, o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) tem poucos meses de existência, mas, sabe-se que era uma meta antiga do governo Lula, criado com o objetivo de formular e atender especificamente a política cultural para todos os museus. Quais foram os avanços frente a estes objetivos e quais são as prioridades para o 2º semestre de 2009?

Mário Chagas - Havia mesmo um anseio antigo para a criação de um instituto, de uma entidade que pudesse articular uma política de museus. É um anseio mesmo anterior ao ano de 2003, anterior a eleição do presidente Lula. É um anseio de toda a comunidade museológica brasileira. O que existia antes de 2003 era uma grande desarticulação do setor. O setor museológico brasileiro estava mobilizado, no entanto, com pouca articulação. Muitos encontros, muitos congressos aconteciam, mas, faltava um alinhavo de todas essas forças, essas energias no campo museológico brasileiro. O que aconteceu foi que por ocasião do lançamento da Política Nacional de Museus, em maio de 2003, permitiu-se que fosse criado um eixo de articulação. Esse eixo de articulação passou a ser a Política Nacional de Museus e logo em seguida foi criado o Departamento de Museus e Centros Culturais, em agosto de 2003. Ainda em 2002, houve uma grande mobilização da comunidade museológica brasileira; um documento foi entregue aos candidatos a presidência da república apresentando os preceitos e as reivindicações básicas do setor museológico. Ainda durante a campanha do presidente Lula, foi produzido pelo Conselho Federal de Museologia um documento chamado “A Imaginação Museal a Serviço da Cultura”. Isso tudo foi encampado pelo governo Lula após a eleição e ali estava já a previsão da criação de um Instituto Brasileiro de Museus. O nome não estava definido ainda, mas a idéia estava bem indicada e amadurecida.

O que se percebia era a necessidade de um orgão que pudesse articular todo o setor museológico. Durante o século 20 as experiências de museus avançaram muito. Para você ter uma idéia, quando a corte portuguesa aportou no Brasil nós tinhamos apenas um museu, que era um museu de historia natural conhecido como Casa dos Pássaros, dirigida por Francisco Xavier a quem o povo carioca apelidava de Chico dos Pássaros. Esse museu chegou inclusive a mandar material para os museus de Lisboa. Quando D. João VI chegou ele fechou este museu e abriu um outro em 1818. Parte do acervo deste museu de historia natural foi para o novo museu criado por ele. Na verdade o que importa ai? Nós tínhamos um museu no Brasil que não estava voltado para o atendimento das camadas populares. Longe disso, ele atendia o interesse dos viajantes, dos nobres da corte e da elite intelectual do Brasil, que era uma elite em formação. Ninguém vai imaginar que os índios bravios, os negros escravos visitavam esse museu. O museu surge no Brasil como um projeto da aristocracia, da família real portuguesa e da aristocracia local. Quando encerramos o século 19 no Brasil, tínhamos em torno de 10 a 12 museus. Uma situação diferente acontecia na França. Na França, no começo do século 19 haviam 20 museus e no final em torno de 600. Por isso na França eles falam que o século 19 foi marcado como o século dos museus. Mas no Brasil isso não foi assim. Nós iniciamos o século 20 no Brasil com 10 ou 12 museus e terminamos o seculo 20 com mais de 2.500. Aí nós temos um fenômeno novo acontecendo. Uma situação extraordinária, e com um detalhe, a maioria absoluta desses museus foi criada a partir da segunda metade do século 20.

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Blog Vanhoni: Hugues de Varine descreve as perspectivas museológicas para o devir, em entrevista concedida a você em 1995, sob três categorias: o museu espetáculo, o museu coleção e o museu comunitário. Como estas diferentes conceituações são vistas pelo Ibram e qual delas se impoêm como prioridade para o recém criado instituto?

Mário Chgas – O Hugues de Varine faz mesmo essa tipologia. O museu coleção é uma herança que vem do século 18, entrando pelo século 19. É um museu que valoriza o acervo, são coleções de caráter universal. Esse é o modelo de museu clássico. Ele valoriza a coleção, se instala num excelente edifício, em geral um edifício de caráter palaciano e trabalha com um público controlado, um público bastante disciplinado.

O museu espetáculo foi uma tendência que começou a ter um pouco mais de presença depois da segunda guerra mundial. Este tipo de museu se projetou com força até os anos 90 e mesmo até a atualidade. Um museu que valoriza especialmente o grande acontecimento expositivo. São as grandes exposições, o museu como um grande espaço de comunicação, mas, com pouco interesse na transformação social e na produção de novas utopias. É o museu do acontecimento, focado na conservação da situação tal qual ela está. Eu diria, é um museu espetáculo, mas ao mesmo tempo um museu conservador. Isso teve o seu auge nos anos 90.

Ao lado destas tendências, gradualmente vem se consolidando uma outra tendência que o Hugues de Varrine chama de museu comunitário. Houveram algumas experiências isoladas nos anos 50. Depois veio se consolidadndo um pouco mais com os ecomuseus. Essa experiência vem se fortalecendo. Quanto mais vivemos num regime democrático, mais possibilidades nós temos de aprofundar a experiência dos museu comunitários.

Eu diria que hoje no Brasil tem espaço para o museu coleção, para o museu espetáculo e também tem espaço para os museus comunitários. O nosso desafio é não abandonar o museu coleção, pois existem coleções que são importantes de serem valorizadas, não abandonar também as tendências do museu espetáculo, algumas grandes exposições são importantes, mas, o desafio é efetivamente trabalhar um campo que está pouco trabalhado, que são os museus comunitários. Eles se caracterizam pela valorização das pessoas. São as pessoas que produzem acervos, que conservam acervos e que transformam também esses acervos. As experiências de museus comunitários valorizam as pessoas, valorizam as comunidades, valorizam o desenvolvimento local sustentável. Tem um outro foco. Os acervos são importantes, mas eles são um pretexto para o desenvolvimento comunitário. Os espaços, os edifícios onde os museus se instalam podem ser importantes, mas, continuam sendo pretexto para o desenvolvimento comunitário. Todos esses elementos: as coleções, os acervos, o patrimônio, o local, tudo passa a ser uma estratégia a favor do desenvolvimento social daquela comunidade.

Esses museus ganham formatos muito variados. Eles podem ter o formato de um ecomuseu, rompendo com a idéia de um museu clássico. Ao invés de edifício, ele trabalha com a idéia de território. Ao invés de coleção, trabalha com a idéia de patrimônio, e ao invés de público, trabalha com a idéia de comunidade ou de sociedade local. Esse é o modelo do ecomuseu a favor do desenvolvimento local. Mas alguns desses museus são museus de território, de percurso. São museus que se instalam nas comunidades sustentados pelas comunidades locais. Ao invés de ter um espaço definido eles ocupam um terrritório, se espalham pelo território, criam percursos e caminhos. É uma tendência que vem ganhando muita força no Brasil. Existem experiências no Rio de Janeiro como o Museu de Favela (MUF) Pavão, Pavãozinho e Cantagalo e o Museu da Maré. Também temos experiências em Duque de Caxias, em Minas Gerais na cidade de Carlos Drummond de Andrade, Itabira, lá tem um museu de percurso, e outros lugares também vão fazendo as suas experiências. Essas são as três tipologias que o Hugues de Varine de fato indica. Eu diria que no Ibram, respondendo agora a sua pergunta de fundo, o nosso desafio é trabalhar a favor do respeito à diferença e o respeito ao direito de ser diferente. O que significa, em ultima análise, garantir o direito às comunidades populares de manterem os seus museus ao seu modo. Um respeito a diferença e a diversidade museal. Existem diferentes tipos de museus e eles são importantes. Museus que podem ser palácios e museus que podem ser instalados em palafitas, museus que podem estar na rua e museus que podem estar na casa. São experiências muito diversificadas.

Ainda ontem eu visitei a favela da Rocinha para um trabalho de museu que está se desenvolvendo, assim como vou visitar o Sítio Cercado em Curitiba agora nos dias 2 e 3 de setembro. Lá na Rocinha se falava no museu itinerante, num museu que seria levado às pessoas quase de casa em casa. Eles falavam no museu cortejo. As pessoas iriam andando pelas ruas, um arauto anunciando, o museu esta chegando! O museu está chegando! Eu achei essa coisa completamente alucinada, no bom sentido. Uma coisa iluminada! Tem uma espécie de baú, o museu vai dentro do baú. Quando o cortejo pára abrem o baú, tiram as coisas, mostram, se apresentam, depois fecham e continuam andando. Essas experiências são notáveis! Nós estamos operando com o conceito de museu de um modo completamente criativo, criador. Estamos muito longe dos modelos clássicos do século 19. Isso é que eu acho interessante.

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Blog Vanhoni: Onde surgiu a idéia dos Pontos de Memória e qual a inscrição desta formulação nas políticas culturais brasileiras?
Mário Chagas - Os Pontos de Memória são uma especialização dos chamados Pontos de Cultura. Uma idéia que eu acho maravilhosa do então ministro Gilberto Gil. Ele mencionava a idéia do do-in antropológico. Era preciso tocar os Pontos de Cultura do Brasil para energizar esses pontos produzindo assim uma maior diversidade cultural. A medida que os Pontos de Cultura foram criados nós passamos a observar ali um trabalho de memória. Alguns deles se especializaram e se transformaram em Pontos de Memória, porque o foco de trabalho estava exatamente na memória. Muitas vezes as pessoas lidam com a memória como se ela fosse algo do passado. A memória não está no passado, ela está no presente. É a invenção do passado no tempo atual, é um olhar criativo. Sem memória não há criatividade. Não há hipótese de se criar absolutamente nada se não houver memória.

Blog Vanhoni: Qual a perspectiva de implantação dos Pontos de Memória, como é o caso do MUPE (Museu de Periferia) no Sítio Cercado, aqui em Curitiba, e que outras localidades no Brasil foram identificadas para receber este programa?

Mário Chagas - O Ministério da Cultura numa parceria com o Ministério da Justiça, desenvolveu um projeto que está no âmbito do Ibram que é o da criação de 11 Pontos de Memória no Brasil. Nós vamos fomentar o desenvolvimento desses pontos em cidades como Curitiba, no Paraná, onde vai se instalar um Ponto de Memória no bairro Sítio Cercado, Rio de Janeiro, Recife, Salvador, Brasília, Belém, Porto Alegre, São Paulo e Vitória

Será uma espécie de experiência piloto para o lançamento no ano que vêm de um edital ainda mais ampliado para a instalação de Pontos de Memória. Eles funcionam como museus sociais. Dentro do Ibram, presidido por José do Nascimento Junior, eu estou dirigindo o Departamento de Processos Museais. Neste departamento temos uma Coordenação de Museologia Social e Educação e ali está o trabalho com estes Pontos de Memória.   Nós temos dois departamentos que estão especialmente focados nisso. O departamento dirigido pela Eneida Braga, que é o Departamento de Fomento, Difusão e Economia de Museus e o Departamento de Processos Museais.

Nós estamos mobilizados no Ibram e no Departamento de Processos Museais para o trabalho no Sítio Cercado. Vamos iniciar uma oficina chamada “Museu, Memória e Cidadania”, esta é uma oficina que tem o sentido de mobilização e sensibilização dos participantes para a temática do museu compreendido como uma tecnologia social e a idéia de um museu cooperativo. Nós estamos trabalhando fortemente na direção da construção de museus cooperativos, museus que também produzem um saber cooperativo, um saber que não é de um indivíduo. Um museu não depende de um indivíduo, ele se constrói no coletivo. Ele precisa do coletivo.

A oficina tem esse sentido, trabalhar a temática museu e trabalhar a memória também na perspectiva da criação. Não há criatividade sem memória. A memória como uma possibilidade também de futuro. Pela memória criamos novas utopias, novos futuros e finalmente a idéia de cidadania. Tanto o museu como a memória são direitos do cidadão. Os moradores do Sítio Cercado tem direito não só a visitar os museus existentes no Paraná, no Brasil e também fora do Brasil, mais ainda, tem direito de fazer o seu próprio museu. Esta é a ideia da oficina “Museu, Memória e Cidadania”. Nós temos outras duas oficinas que são a de Plano Museológico e a de Elaboração de Projetos. Trabalheremos em Curitiba a primeira delas e estamos animados com essa possibilidade.

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Blog Vanhoni: Como o Ibram vem pensando os museus de artes visuais e qual o seu papel no fomento à produção artística nacional nas áreas de artes plásticas, performance, intervencionismo urbano e sites específicos?

Mário Chagas - O Ibram vem também atuando nesta área. Nós temos um interesse bastante expressivo no que se refere a arte contemporânea, até porque no nosso entendimento o próprio museu na forma como nós o compreendemos é um espaço de arte contemporânea. Ele é mesmo uma expressão contemporânea de arte. Determinadas experiências e práticas desenvolvidas no campo da arte contemporânea também foram desenvolvidas no campo dos museus e agora estes dois campos se aproximam. Se de algum modo se pode falar na desmaterialização da obra de arte, podemos falar também na desmaterialização dos museus e a desmaterializaçao dos museus se expressa com essa experiência. Um museu que ganha a sociedade, um museu que se espalha pelas ruas, se espalha pela cidade, os museus de percurso. Neste sentido as coisas estao muito próximas e o Ibram reconhece isso. Estamos buscando justamente o diálogo com os artistas contemporâneos, curadores de arte, colecionadores de arte, mas, principalmente com os fazedores de arte. E compreendendo também que o fazer artístico hoje está muito mais disseminado. Compreendendo que nas comunidades populares existem também fazedores de arte. Na medida em que os museus dialogam com a sociedade de uma forma mais radical, eles se abrem mais para as expressões artísticas. Sabemos o quanto a arte contemporânea tem atuado nesta direção de produzir intervenções urbanas, de produzir estranhamentos na cidade, de estimular que novos olhares sejam feitos para a cidade. Os museus também tem esse mesmo compromisso. Os museus podem e devem atuar nessa direção, da mesma maneira quando se percebe a atuação da arte contemporânea no que se refere aos sítios específicos. Os próprios museus se oferecem como sítios especificos para a atuação do artista contemporâneo. Estas tendencias são muito bem acolhidas nos museus, são tendências muito bem vindas. Interessante ainda é como nos museus sociais, nesses museus de comunidades populares, tem espaço de diálogo com a arte contemporânea. Eu posso citar o caso da Rocinha, eles estão criando 20 unidades de grafitti que vão contar a história da comunidade na favela. É o próprio museu como obra de arte. Isso ocorre também em outros lugares. Eu não estive pessoalmente no Sítio Cercado mas vejo que existem lá expressões artísticas variadas.

Blog Vanhoni: Existe algum estímulo a formação de acervos digitais? De que forma o Ibram vê o espaço cibernético como suporte para as novas práticas museais?

Mário Chagas – Essa questão é fundamental, exatamente porque a internet hoje nos possibilita um tipo de trabalho que era impensável há 10 ou 15 anos atrás, que é essa possibilidade de disponibilização de acervos digitalizados e com isso gerar uma circulação extraordinária. È um tema da maior importância. Uma questão que já está colocada é a repatriação de informações digitais. Muitas vezes não podemos repatriar determinados objetos ou bens que estão no exterior. Pela internet nós podemos acessar informações de uma forma que antes era inteiramente impossível. Além disso podemos pensar o próprio espaço cibernético como um espaço de preservação, como um espaço de investigação e de comunicação. Temos a possibilidade de pensar museus digitais que existem inteiramente em meio digital. Não se confunde um museu digital com um site, um portal. São coisas distintas. Um museu digital existe inteiramente neste meio. Ainda temos a possibilidade também de pensar a relação entre as práticas museais e as novas mídias. Dentro dos museus tem espaço para as novas tecnologias e as novas mídias, para o uso destas teconologias nas exposições como uma nova interatividade. Temos também a compreensão do próprio museu como mídia. Como um meio de comunicação quente e vivo. Numa época em que vivemos de tanta comunicação fria é sempre bom lembrar as possibilidades que o museu traz consigo. Um espaço de encontro, convivência, conversa e namoro. Então é mesmo uma mídia quente!

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Blog Vanhoni:  A cidade do Rio de Janeiro foi escolhida para sediar a Conferência Geral do ICOM em 2013. Como foi este processo?  Como é vista a  museologia brasileira no cenário internacional?

Mário Chagas – No panorama internacional o Brasil tem uma boa presença, uma boa colocação, no que se refere a museologia e ao pensamento museológico. Está se desenvolvendo no Brasil uma tradição de formação de novos museólogos. É uma coisa que chama bastante atenção quando viajamos ao exterior. No Brasil há muitos jovens atuando neste campo porque tem uma formação em nível de graduação.  Hoje nós temos 13 cursos de museologia em nível de graduação. O Paraná está discutindo e elaborando neste momento um projeto pedagógico para a criação de um curso de museologia na Universidade Federal do Paraná. O que é muito bem vindo.

Toda essa força museológica no Brasil e reconhecimento no exterior foi ampliado a partir da Política Nacional de Museus e isso permitiu que nós levássemos ao ICOM (Conselho Internacional de Museus) a candidatura do Brasil para sediar em 2013 a Conferência Geral do ICOM. Essa é uma conferência que acontece de 3 em 3 anos. A próxima será em 2010 em Shangai e em 2013 na cidade do Rio de janeiro a Conferêcia Geral do Conselho Internacional de Museus. Foi uma disputa importante. Estavam participando da candidatura as cidades de Moscou e Milão. O Rio de Janeiro participou e o Brasil ganhou logo em primeiro turno. O Ibram se envolveu diretamente assim como a equipe do ICOM-BR. Foi uma soma de forças, nós participamos e ganhamos. Isso nos coloca numa situação bastante especial e privilegiada. A última vez que houve uma participação da América Latina foi em Buenos Aires em 1986. Ou seja, há quase 20 anos. Isto será muito bom para o Brasil, para a America Latina e também para o Rio de Janeiro. Uma das questôes que agora estamos lidando é o legado museal. Será importante construir para 2013 um legado museal. Quais os benefícios que serão deixados após a realização desta conferência em termos de melhoria dos nosso museus no Brasil, em termos de publicações, em termos de qualificação dos nossos profissionais e em termos de maior articulação com o mundo? Temos aí um conjunto de possibilidades que formam um legado sócio cultural brasileiro na área dos museus.

Nós temos possibilidades e é neste sentido que estamos trabalhando. Possibilidades ao mesmo tempo complexas e singelas. Nós temos condições de trabalhar para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, a favor de uma memória criativa, uma memória que produz futuro, uma utopia social transformadora e coerente com os nossos tempos.

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Blog Vanhoni: Professor Mário, gostariamos de agradecer sua participação em nome de toda e equipe do blog e abrir para as suas considerações finais.

Mário Chagas - O museu é uma ferramenta contemporânea e pode contribuir para a melhoria da sociedade. É evidente que não temos ingenuidade e não devemos ter ingenuidade nenhuma com os museus. Eles são nossa ferramenta de trabalho. Os museus tanto podem servir para a transformação da sociedade como podem servir para a conformação e a domesticação das mentalidades. A questão é o que nós vamos fazer com eles. Eu pessoalmete acredito que podemos trabalhar a favor desta melhoria social, da transformação da sociedade. Nós podemos fazer coisas grandiosas, podemos participar de grandes aventuras com essas máquinas sociais que são os museus.

Fotos: Gilson Camargo

entrevista com juca ferreira – ministro da cultura

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O ministro da Cultura, Juca Ferreira concedeu, por telefone, entrevista exclusiva para o Blog Vanhoni. As imagens que  ilustram a matéria se referem a última visita do ministro a Curitiba, em abril de 2009, por ocasião da assinatura do convênio do programa Mais Cultura com o Governo do Estado  do Paraná, e visitas a Mallet, Irati e Prudentópolis.

Link para o áudio integral da entrevista.

Blog Vanhoni:  Em primeiro lugar gostaríamos que o senhor falasse um pouco, a pedido do deputado Angelo Vanhoni, a respeito das mudanças a partir do governo Lula, no cenário cultural brasileiro.

Juca Ferreira: Quando nós chegamos em 2003 no Ministério ficamos surpresos e perplexos com a desorganização, a desestruturação e a fragilidade da área cultural no governo. O Ministério não tinha relevância, não estava a altura da grandeza da cultura brasileira, da diversidade cultural brasileira, não conseguia lidar com os principais aspectos dos processos culturais, ou seja, não dava nenhuma contribuição e o pior de tudo é que foi construído um mito que tem origem em toda essa afirmação de uma ideologia neoliberal no mundo, de que o estado não tinha papel na cultura. O grande slogan que nós encontramos aqui era “Cultura é um bom negócio”, e a idéia era repassar a responsabilidade do desenvolvimento cultural para a área privada, então nós começamos um processo longo. Já no discurso de posse do ministro Gil, ele afirmou que interessava ao Ministério toda a produção simbólica brasileira, que cultura não é só arte, muito menos arte consagrada, e que nós teríamos uma responsabilidade imensa de montar relações do Ministério com todo o corpo simbólico do país. Manifestações tradicionais, jogos eletrônicos, produção audiovisual e nós fomos estruturando esse trabalho em três dimensões: Cultura como fato simbólico, como necessidade básica do ser humano, não há como pensar o ser humano sem pensar na necessidade de simbolização, que é isso que nos diferencia dos outros animais; depois Cultura como direito de cidadania, todo brasileiro tem direito de ter acesso pleno à cultura, coisa que não acontece e, terceiro, fortalecer a economia da Cultura, que é uma economia importante. Essas três dimensões nós fomos estruturando dentro de uma política pública, dentro de uma idéia de que o Estado tem obrigação, na medida em que é uma necessidade básica o Estado passa a ter obrigações.
Todos estes anos a gente reestruturou o Ministério. Conseguimos sair de 0,2% do orçamento para em torno 0,8%. É um crescimento significativo, mas muito insuficiente, por isso que a gente não comemora. Conseguimos ampliar a renúncia fiscal, conseguimos dinamizar o Ministério. Hoje o Ministério de fato se relaciona com aspectos estratégicos da produção simbólica brasileira. Estruturamos o projeto Cultura Viva, que criou os Pontos de Cultura, que é um reconhecimento de que a sociedade faz cultura independente do Estado. São mais de 100 grupos sociais existentes, às vezes em condições sociais absolutamente degradadas, nas favelas, nas periferias, nas regiões metropolitanas, nos assentamentos rurais, nas tribos indígenas. Nós começamos a estimular, fomentar e proporcionar recursos para a ampliação destas experiências. Estruturamos a área de patrimônio e memória, encontramos o “Monumenta” praticamente inerte (um convênio que foi estabelecido com o Banco Interamericano e que não tinha vida). Nós hoje estamos atendendo quase todos os Estados do Brasil, financiando a recuperação de imóveis e de centros históricos, inclusive imóveis privados. Criamos o Instituto Brasileiro de Museus, assumimos a responsabilidade de contribuir para todos os museus, os públicos e os privados, considerando que são de utilidade pública, estruturamos uma política na área de inclusão digital. Nós estamos disponibilizando computadores, banda larga, e treinando grupos culturais para se expressarem, para se comunicarem via internet.
Estou dando um apanhado muito sucinto, mas de alguma maneira o Ministério mudou a qualidade da relação, deu visibilidade e estamos trabalhando também na área de regulamentação. As leis que regem a cultura empurraram mais da metade da cultura para a ilegalidade, para a informalidade e é preciso incorporar, porque é uma economia importante, é uma atividade básica, é fundamental para a sociedade. Então é da responsabilidade do governo, do legislativo e dos produtores culturais criar um ambiente favorável para a institucionalização do conjunto da cultura brasileira.

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Blog Vanhoni: Segundo informações do próprio Ministério da Cultura, apenas 14% da população brasileira vai regularmente aos cinemas, 96% não freqüentam museus, 93% nunca foram a uma exposição de arte e 78% nunca assistiram a um espetáculo de dança. Qual o alcance do Vale Cultura dentro deste cenário e de que forma contribuirá para alterar estes índices?

Juca Ferreira: Como eu disse, nós estamos trabalhando a cultura não só como fato simbólico mas como um direito de todos os brasileiros. Nós sabiamos, mas nunca havia sido feita uma pesquisa desta natureza. Nós demandamos ao IBGE e ao IPEA e a pesquisa apresentou números “dantescos”. O Brasil não consegue incorporar em nenhuma das atividades culturais, excluindo apenas a tv aberta, nem 20% dos brasileiros. Um pouco mais de 5% dos brasileiros entrou alguma vez num museu. Então não há possibilidade de você ficar financiando a produção cultural se o povo não tem acesso. É preciso, além de financiar a produção cultural, estimular esta produção. A gente tem que abrir as portas dos teatros, dos cinemas, criar possibilidades das pessoas terem acesso a livros. Nós estamos agora zerando, até o final do ano, o número de municípios sem bibliotecas no Brasil. Esse processo está criando vários mecanismos: financiamento direto à produção cultural popular, estímulos a barateamento dos custos dos produtos culturais que nós financiamos.
Criamos um instrumento agora, o Vale Cultura. É a primeira vez no Brasil que se financia o consumo cultural. Este mecanismo, quando estiver em uso pleno, vai beneficiar em torno de 14 milhões de pessoas, vai disponibilizar o consumo cultural para esse número de brasileiros. Nós vamos injetar 2 bilhões e 7 milhões por ano, quando estiver plenamente em uso, e com a incorporação do dinheiro dos empresários e os 5 Reais que cada trabalhador dará para ter acesso ao Vale Cultura, a injeção pula para 7 bilhões de Reais. Esse recurso vai irrigar toda a produção cultural brasileira, vai facilitar negócios culturais, livrarias, teatro, cinema perto de onde os trabalhadores moram, eliminando uma concentração terrível que é a concentração territorial, e vamos estimular também, por exemplo, a compra do cd legal no lugar do cd pirata. As consequências são altamente positivas, mas a maior de todas elas é que nós estaremos estimulando o consumo cultural.

Blog Vanhoni: Aqui no Paraná nós realizamos junto ao mandato do deputado Angelo Vanhoni dois debates sobre a lei Rouanet nessa primeira etapa de consulta pública e dos debates que o Ministério realizou. Gostaríamos de saber, juntamente com os artistas e entidades que nos procuram, quando chegará o novo texto e quais as novidades que ele traz?

Juca Ferreira: O projeto já saiu do Ministério e está na mão da Casa Civil. Eles fazem este trabalho de revisão sempre, porque é uma lei que vai ser enviada ao Congresso. As novidades são, basicamente, que nós não vamos mais ficar dependendo da renúncia fiscal, que é um mecanismo que não se presta para atender a toda a cultura brasileira. O Fundo Nacional de Cultura vai se tornar o principal instrumento. Nós vamos modernizar o Fundo, setorializá-lo. O Vale Cultura é parte da reforma, é um outro mecanismo que a gente está criando. Vamos fortalecer os fundos privados, que existem há 18 anos e ainda nenhum aconteceu, estamos criando vantagens para a ampliação destes fundos. Que estes fundos etimulam o investimento privado e o financiam, e a renúncia fiscal, que nós vamos manter, mas, vamos reformatar para virar uma verdadeira parceria publico/privada. Porque como é hoje o Governo entra com o dinheiro, se responsabiliza por todos os procedimentos burocráticos e quem decide o que deverá ser financiado é a área privada. Então esta é uma divisão injusta e ruim. Você permite a privatização do dinheiro público, permite o excesso de concentração. Por exemplo, 80% do dinheiro vai para duas cidades no Brasil: Rio de Janeiro e São Paulo, e dentro destas duas cidades, apenas 3% dos proponentes ficam com mais da metade do dinheiro da Lei Rouanet. Quer dizer, é um escândalo! É falta de controle do dinheiro público, é privatização do dinheiro público e não cumpre a finalidade que é a de irrigar e fortalecer a produção cultural brasileira.

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Blog Vanhoni: Na época da consulta pública e dos debates a proposta recebeu elogios, porém, provocou muitas polêmicas. Como o senhor avalia a incorporação das propostas decorrentes da consulta pública dentro do texto que será encaminhado ao Congresso?

Juca Ferreira: Nós recebemos mais de 2 mil propostas de aprimoramento do texto, que é um sucesso absoluto de uma consulta pública. É evidente que tem gente que é contra a reforma. Quem ganha na situação atual, esses 3% de proponentes não querem mudar porque eles tem acesso a todo o dinheiro. Tem instituição privada que recebe mais dinheiro pelo mecanismo da renúncia, onde a gente paga até o papel higiênico, do que por exemplo a Funarte, que tem a obrigação de atender às demandas e necessidades do teatro, da dança, das artes visuais, da música e do circo no Brasil inteiro. Então é um escândalo, e é evidente que tem pessoas contra. Mas mesmo assim, todos os argumentos pertinenentes que foram levantados nós absorvemos. Por exemplo, a necessidade de explicitar os critérios públicos já no Projeto de Lei, a necessidade de proteger a renúncia fiscal para que ela não entre em normativas posteriores a criação dela e que a restringem. Vários aspectos nós absorvemos, nós abrimos pra valer esse debate, fizemos uma escuta rigorosa, somos responsáveis com o processo que nós deflagramos. Neste período trabalhamos em cada uma destas 2 mil propostas e as absorvemos o máximo possível. O projeto, todos haverão de convir, é muito mais denso que a minuta inicial que colocamos para consulta e acho que hoje nós temos uma base de apoio enorme no Brasil inteiro. Fora do Rio de Janeiro e São Paulo é quase unânime. Tem um pouquinho, dois ou três produtores culturais de Minas que tinham vantagens no sistema atual e, no Rio de janeiro e em São Paulo já temos um quadro fartamente favorável, mas, tem uma polêmica estabelecida porque é aí que ficava quase todo o dinheiro da Lei Rouanet, para pouquíssimos.
Tem uma novidade na Lei Rouanet que está indo para o Congresso, na proposta de substituição da Lei Rouanet por um novo sistema que é muito boa. Quase a metade do dinheiro do Ministério que nós vamos alocar no Fundo Nacional de Cultura para ser distribuído para promover a produção cultural no Brasil, 47% vai ser repassado fundo a fundo para os municípios e estados dentro de uma proporcionalidade que considere a densidade demográfica, o grau de desenvolvimento cultural, a estruturação da sua área cultural institucional. Então é uma grande novidade. Nós estamos dando ouvidos ao Sistema Nacional de Cultura através desse novo projeto.

Blog Vanhoni: Em Curitiba, assim como em vários municípios e estados brasileiros, a sociedade civil se mobiliza para a Conferência Nacional de Cultura. Qual é a expectativa do Ministério na organização das etapas estaduais e municipais? Quais os mecanismos que a sociedade civil dispõe junto ao Ministério para garantir sua participação no processo de organização destas etapas?

Juca Ferreira: Em relação a Conferência, essa vai ser a Conferência mais importante, a última do Governo Lula. Nós vamos colocar em discussão todos os mecanismos criados, todo esse processo de institucionalização da cultura brasileira, que nós tivemos a preocupação de além de desenvolver as políticas, criar normativas legais que pudessem de fato desafogar os procedimentos. Normativas que garantam o exercício pleno do direito do autor, normativas que garantam a livre expressão no Brasil. Nós estamos trabalhando um corpo legal bastante amplo que vai do Plano Nacional de Cultura, modificação da Lei Rouanet, a PEC 150 que é uma iniciativa do Congresso mas conta totalmente com o nosso apoio. Estamos trabalhando juntos. Estamos trabalhando a lei da modificação do direito autoral no Brasil para dar vida de fato ao direito autoral no Brasil. Esse conjunto, não só as políticas, como as normativas serão colocadas à discussão dos conferencistas, para que a gente tenha um encontro bastante positivo e é um exercício democrático fundamental essas consultas permanentes através das Conferências e outros mecanismos que a gente cria. A gente não faz nada sem consulta dentro do Ministério, porque não acreditamos em política pública construída dentro de gabinete.

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Blog Vanhoni: Neste momento começa a mobilização para as etapas municipais e estaduais da Conferência Nacional de Cultura, qual é a recomendação do Ministério para estas etapas?

Juca Ferreira: São várias, mobilizar todos os setores, evitar apadrinhamentos, mobilização parcial, fortalecimento de apaniguados. Primeiro isso; criar de fato um fórum que seja um ponto de intersecção de todos os interesses, todos os conceitos, todas as atividades culturais. Depois temos que estruturar de tal maneira que a começar da base do município, e depois nos estados e nas conferências regionais, a gente tenha um processo de aprofundamento dos debates. É preciso compreender que a cultura está acima de todos os dissensos ideológicos e político partidários. Há a possibilidade de se construir uma política pública de cultura que seja uma liga, uma argamassa que nos una a todos e possibilite sustentar o edifício da democracia brasileira, e possibilite que o dissenso se dê num ambiente de coesão.

Blog Vanhoni: Temos pela frente também a Conferência Nacional de Comunicação que dialoga com o campo da cultura e vice-versa. A Cultura Digital é um dos temas transversais entre estas pastas. Apesar dos esforços do Ministério da Cultura em estimular o software livre, um grande obstáculo para a inclusão digital no Brasil ainda é o monopólio das prestadoras de serviço de acesso à internet. O Mandato acompanhou o lançamento do Fórum da Cultura Digital Brasileira e gostaríamos de saber qual é a sua avaliação sobre como as pautas da Conferência Nacional de Cultura podem intervir neste processo?

Juca Ferreira: Olha, o Ministério da Cultura tem estado ativamente trabalhando nas pautas de comunicação. Foi o Ministério que estimulou o fortalecimento e a criação de uma rede nacional de tvs públicas. A TV Brasil nasce de uma experiência que foi induzida e estimulada pelo Ministério, que foram os seminários e encontros das tvs públicas, o Fórum de tvs Públicas. Nós temos não só exercitado uma política de inclusão digital como nós temos assumido a discussão. Estamos conversando com o Senador Azeredo no sentido de modificar o projeto de lei, que consideramos negativo, de regulação da internet, que ele está trabalhando no senado, e nós achamos que tem um campo enorme para avançar na área da comunicação. Porque o monopólio não é só esse que você referiu. Nós temos dificuldade de incorporar o cinema brasileiro nas tvs. As tvs comerciais não compreendem a importância de assimilar a produção independente em suas grades de programação. restringindo praticamente, algumas evidentemente, à sua própria produção, coisa que nenhum país democrático permite. Então a conferência de comunicação é estratégica. Talvez seja, nos próximos meses a principal atividade que pode empurrar a democracia brasileira mais adiante.

Blog Vanhoni: Ainda sobre o software livre, de que forma, no seu entendimento, as plataformas livres podem estimular o desenvolvimento na área da cultura?

Juca Ferreira: Nós temos utilizado no Ministério o software livre. Nós achamos que o software proprietário cria uma fidelidade injusta, incabível. Você não pode aprimorar o software, você fica prisioneiro de outras ferramentas. É uma economia que cria uma indução à fidelidade a determinadas empresas. Eles compatibilizam um software com outro, com outro e com ferramentas, e você acaba prisioneiro de uma economia e fica incapaz de desenvolver sua própria autonomia e cobram muito caro por esse serviço. Na área do software livre houve um desenvolvimento enorme, porque houve uma opção política não só no Brasil e do governo, mas no mundo inteiro, de áreas empresariais no sentido de ir quebrando esses monopólios tecnológicos dentro da área da informática. Não é só o Ministério da Cultura que usa o software livre na área do governo, ele é fartamente usado. Foi uma opção política do governo. Isso disponibiliza e permite que cada usuário modifique, adapte, aprimore esse software, e não fique prisioneiro de uma cadeia de serviços, podendo conectar com vários outros serviços.
É uma ferramenta importante, é uma opção política importante, que tem possibilitado a informatização mais rápida, mais veloz, porque o preço é proibitivo desses softwares proprietários. Com isso a gente está criando uma possibilidade de acesso ao meios digitais e à digitalização de acervos e expressão artística e cultural dentro do meio digital, criando hoje um campo de cultura digital muito forte no Brasil, criando um campo de informação digital pulverizado, não mais de poucos controlando a comunicação no Brasil. Acho que nós estamos vivendo já, apesar do acesso ainda ser restrito, pois são poucos os brasileiros que tem acesso aos computadores. A grande maioria ainda não tem, nem em casa, nem no trabalho, nem na escola. Mas a política do governo Lula é democratizar ao máximo possível o acesso a informática. O presidente inclusive tem uma meta de disponibilizar o acesso livre em banda larga para todas as escolas públicas do Brasil. Então nós estamos vivendo um momento muito importante, que evidentemente vai se expressar dentro da Conferência de Comunicação, se expressa já nas políticas, inclusive nas políticas de cultura, e evidentemente que, se você cria um território que vai demandar conteúdos audiovisuais numa quantidade inimaginável hoje, porque as pessoas vão deixar de estarem vinculadas a uma programação feita por poucos e todos vão querer fazer sua propria programação, assistir o que quiserem na hora que quiserem, então isso tudo abre as portas para nos tornamos um grande produtor de conteúdos audiovisuais, e isso passa pela digitalização de toda a nossa produção.

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Na igreja de São Josafat, em Prudentópolis, acompanhado pelo roco Efrem Krefer.

Blog Vanhoni: Ministro, muito obrigado, estamos chegando ao fim do nosso tempo previsto. Gostaríamos que nestes últimos minutos o senhor fizesse suas considerações finais.

Juca Ferreira: Eu quero primeiro agradecer a entrevista, dizer que o deputado Vanhoni é um grande parceiro do Ministério da Cultura, é um deputado que tem a cultura como parte de suas atividades parlamentares. Ele tem ajudado a fazer do parlamento um aliado das demandas do segmento cultural, não só nessas áreas que nós abordamos aqui, mas, como por exemplo, eu como ministro da cultura visitei uma área do Paraná que é colonizada por eslavos, por ucranianos e poloneses, e foi ele que me induziu à visita e eu saí muito agradecido, porque amplia nosso campo da diversidade cultural brasileira. O Brasil tem uma origem cultural que foi um amalgamento, como diz Jorge Mautner, de negros, índios e portugueses, mas hoje, no século 21 e desde o início do século passado, nós tivemos fluxos migratórios que multiplicaram essa complexidade cultural brasileira. Hoje nós temos mais libanenses no Brasil do que no Líbano, quase 30 milhões de italianos e descendentes de italianos vivendo no Brasil, a maior colônia japonesa no exterior, temos mais de 500 mil ucranianos no Brasil e uma quantidade ainda maior de poloneses, alemães, ou seja quase todas as culturas do mundo hoje contribuem para esse adensamento cultural do Brasil.
Eu diria que o Brasil é o maior laboratório interétnico e multicultural do mundo, e isso com o ponto de partida generoso que o Brasil tem de incorporar a todos e de criar um ambiente, não só que possibilita que a pessoa seja o que quiser ser, tenha a  identidade cultural que queira ter, que tenha a ver com seus antepassados e ao mesmo tempo cria um diálogo intercultural, um amalgamento, uma mestiçagem cultural, uma sociedade aberta para incorporar todos esses valores, esses signos que são produzidos por essa complexidade. Eu acho que o deputado Vanhoni acertou em ressaltar para o Ministério da Cultura e para o ministro a importância de incorporar plenamente essa comunidade de eslavos que vivem no Paraná, e ele de alguma maneira representa eleitoralmente essa comunidade, entre outras que ele representa, e o Ministério da Cultura é eternamente agradecido, porque nós temos trabalhado o tempo inteiro para fortalecer a diversidade cultural brasileira, mas chegou a hora de no próprio discurso nós incorporarmos esse adensamento que houve durante todo o século passado e que hoje faz do Brasil esse país com essa riqueza, que eu diria ser infinita culturalmente.

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Angelo Vanhoni, o deputado estadual Felipe Lucas, Juca Ferreira e Luiz Fernando de Almeida, diretor do IPHAN, na igreja de São Miguel Arcanjo, em Mallet, em 28 de abril de 2009.

Fotos: Gilson Camargo

19º festival de inverno da ufpr em antonina – abertura oficial e entrevista com lucia mion e guilherme romanelli

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Angelo Vanhoni, acompanhado pelo reitor da Universidade Federal do Paraná, Zaki Akel Sobrinho e pelo prefeito de Antonina, Carlos Augusto Machado, na abertura oficial da 19º edição do festival, no último domingo, dia 12/07.

O litoral do Paraná e sobretudo a cidade de Antonina tem essa caracteristica forte da cultura, da arte, do gosto pelas tradições, além de toda a beleza natural que encontramos na região. No que depender do Governo Federal, do Ministério da Cultura, os próximos anos do Festival de Antonina terão um apoio ainda maior. Desejo a todos um bom festival, que vocês possam fruir as diversas manifestações culturais e os cursos que estão sendo oferecidos, e que a cidade possa receber, como sempre tão bem recebeu, todos os visitantes que aqui estão, os jovens e as pessoas que se interessam pela arte e pela cultura no Estado do Paraná. “

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Público presente na solenidade de abertura, em 12/07/09.

O Festival de Inverno da UFPR, em Antonina, chega a sua 19º edição movimentando anualmente cerca de 50 mil pessoas através de espetáculos, oficinas e atividades culturais diversas.  O mandato do deputado Angelo Vanhoni colaborou na sensibilização de parceiros como a Caixa Econômica Federal, Itaipu e o Ministério da Cultura para que o festival pudesse se realizar. Este é o evento mais importante da cidade depois do carnaval e contribui expressivamente no desenvolvimento cultural da população, ativando a economia local, o comércio, a hotelaria e a gastronomia.
Veja abaixo
imagens dos festivais anteriores na entrevista com Lucia Mion e Guilherme Romanelli, organizadores do festival pela UFPR.

Confira aqui a programação do festival para este ano.
Confira aqui o blog UFPR Cultural.

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Lucinha Mion e Guilherme Romanelli, coordenadora executiva e coordenador geral do XIX Festival de Inverno de Antonina, durante entrevista na sala de ensaios da orquestra da UFPR.

Ana Carolina Caldas: Primeiramente gostaria que vocês contassem um pouco da origem do festival e um pouco da sua história.
Lucia Mion: A idéia do festival teve início na gestão do professor Faraco, com as professoras Marcia Kersten e Marcia Fontoura, quando assumiram a Coordenadoria de Cultura e a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura. A idéia e a inspiração foi o festival de inverno da UFMG, que na época acontecia em Ouro Preto; e a gente achava aquilo muito bacana, tirar a cultura de dentro das quatro paredes da instituição e levá-la para outro lugar, torná-la acessivel a toda uma população e a todas as pessoas que desejassem participar. Então a idéia inicial partiu disso. O primeiro festival foi complicadíssimo porque a gente tinha a idéia, botou a programação no papel, mas, não tinha a equipe, ninguém nunca tinha feito nada disso, então dividimos as funções e cada um correu atrás de pessoas que pudessem dar uma luz, ou até de caminhos que pudessem facilitar. Foi um festival complicado, mas por outro lado foi muito gostoso, porque no momento em que acabou, vimos que tínhamos capacidade, que a gente conseguiria levar aquela idéia adiante, até porque a comunidade de Antonina nos recebeu muito bem. Então ali começou um namoro fantástico, que a cada ano a gente ia crescendo um pouquinho, aumentando, sempre procurando fazer uma avaliação do festival anterior pra preservar a qualidade do evento e aumentá-lo de tamanho na medida em que as nossas pernas pudessem ir suportando, porque a gente tinha que adquirir experiência trabalhando nele. Por volta do sétimo festival de inverno a gente atingiu o limite do seu tamanho, e aí a partir daí viemos trabalhando a cada ano a sua qualidade, mas, os sete primeiros anos foram fundamentais pra se chegar no formato e no tamanho que ele tem hoje. Porque no início a gente usava só o miolo do Centro, a gente foi se espalhando, se espalhando, e a cidade foi deixando a gente se espalhar, e hoje a gente usa a cidade inteira, literalmente.

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Público presente na abertura do V festival, em 1995.

Ana Carolina Caldas: E da origem dele pra hoje, o que vocês conseguiram superar, existe alguma diferença de concepção?
Lucia Mion: Não, de concepção não tem nenhuma diferença gritante. A gente procurou usar aquela idéia inicial sempre, que era a de não fazer um festival invasivo, de sair de Curitiba, levar um festival num caminhão e, ao final tirar de lá e trazer de volta. Desde o primeiro festival a gente sempre teve uma preocupação em deixar coisas, de trabalhar com a comunidade antoninense, achar nichos de demandas deles e trabalhar esses nichos lá, então a gente sempre trabalhou com as crianças, a gente sempre trabalhou com os professores da rede pública de ensino, começamos a trabalhar com a APAE a partir do terceiro ao quarto festival, a desenvolver um trabalho dentro da APAE, tanto com os alunos quanto com os professores, os artesãos. O projeto de cerâmica está presente desde o primeiro festival, e a gente foi só ampliando, sempre procurando se utilizar de coisas que realmente eles pudessem achar dentro da cidade, porque não adiantaria levar um artesanato onde eles tivessem que importar coisas, então procuramos fazer essa pesquisa e estar trabalhando… a banda Filarmônica Antoninese, também presente desde o primeiro festival, hoje é uma das bandas mais premiadas do Brasil, todos os anos a gente leva profissionais que eles mesmos sugerem, aonde eles estão precisando, pra estar aprimorando esses jovens, porque eles têm um trabalho social lindíssimo na banda.

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Oficina prática de big band, com Nailor Proveta, líder da Banda Mantiqueira, em 13/07/09, na sede da Filarmônica Antoninense.

Ana Carolina Caldas: Como foi a escolha de Antonina e como é a relação com a cidade desde a origem até hoje?
Lucia Mion: No começo a gente foi parar lá porque o professor Eduardo Nascimento, que era ligado a equipe do festival, professor da universidade, é antoninense, então ele abriu essas portas lá, e eu não digo só a prefeitura, mas, a comunidade recebeu tão bem o festival e o absorveu, que hoje esse festival nao é só da universidade, é nosso, é da universidade e de Antonina, eu não digo nem da prefeitura de Antonina, porque ele é da cidade, da comunidade. Mas, isso, é claro, foi construído durante o tempo, a gente vai criando vinculos e estreitando os laços. Mas, no início foi através do professor Eduardo Nascimento.

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Luís Melo e Guta Stresser, no III festival, em 1993, durante oficina ministrada pelo ator nos galpões Matarazzo, região portuária de Antonina.

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Ana Carolina Caldas: Fazendo um balanço nesse quesito da extensão, que é importante, é uma das referências importantes da UFPR, o que se pode dizer? O festival é citado inclusive como uma das grandes mostras de extensão…
Lucia Mion: Se não for o maior, é seguramente um dos maiores projetos de extensão da universidade, e é fundamental, porque enquanto extensão ele tem o professor, ele tem o técnico, ele tem o aluno envolvido, e conhecendo uma outra realidade, que é a realidade da comunidade de Antonina. Então essa troca é muito importante, e eu acho que é riquissima para ambos os lados.

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Performance “Cigarra”, no restaurante do Hotel Regency Capela, durante oficina de composição ministrada por Chico Mello, em 1995.

Ana Carolina Caldas: Guilherme, gostaria que voce falasse um pouquinho sobre o festival deste ano.
Guilherme Romanelli: O décimo nono festival é um festival heróico, porque na realidade, não havia nenhuma possibilidade técnica dele acontecer, e isso em virtude de toda uma conjuntura, especialmente um ano de crise, um ano difícil pra todo mundo, e é interessante porque o primeiro lugar onde vai haver um corte eventualmente, em qualquer lugar, infelizmente é na área da cultura. Justamente o que deveria ser uma área que segura uma comunidade, uma sociedade, é a primeira a sofrer cortes, especialmente num ano de crise. Então esse ano foi muito difícil, o festival não tinha viabilidade técnica, e está sendo feito com um esforço muito grande, aí certamente a gente teve o apoio  do Vanhoni, pra desatar nós, tentar encontrar soluções. Isso foi muito interessante, discutir possibilidades e ver o que era possível fazer.

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Hermeto Pascoal no Teatro Municipal de Antonina, 1994.

Ana Carolina Caldas: E este festival, o que tem a se destacar, qual a sua programação?
Guilherme Romanelli: A primeira questão é que a gente sentiu por parte de Antonina uma vontade enorme de fazer todo o esforço possível para que esse festival acontecesse, isso envolveu as várias esferas da sociedade de Antonina, naturalmente também a prefeitura municipal, mas houve um empenho muito grande da comunidade, colocando tudo o que fosse possível à disposição para que o festival nao deixasse de acontecer. Isso eu acho muito importante, porque de alguma forma demonstra o reconhecimento da comunidade que tem a sua visão sobre o festival – o que para nós é motivo de orgulho também – uma visão muito crítica, no bom sentido. É uma populaçào que sabe se posicionar com relação a esse festival, sabe muito bem criticar o festival, tem uma opinião artística muito bem estruturada, sabe criticar quando não gostou de uma apresentação, de um espetáculo, sabe dizer: – “olha, eu não gostei porque eu tenho referência”, porque eles assistiram durante 19 anos uma porção de espetáculos, daqui a pouco 20 anos, acho que a população reconhece o festival como algo que pertence a eles todos e também significa que o festival tem motivos pra acontecer na cidade de Antonina, e isso pra nós é um voto de confiança.

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Vista da baía de Antonina, a partir da Ponta da Pita.

Ana Carolina Caldas: Quantas pessoas estão envolvidas no festival?
Guilherme Romanelli: Entre 40 e 50 mil pessoas, contando o público que participa das oficinas, as pessoas que trabalham no festival e as pessoas que vem ao festival. Um dos pontos centrais é de que é um festival de imersão, você vai lá e tem uma overdose, no bom sentido, de arte e cultura. Porque o sujeito fica lá, ele acorda de manhã e vai pra oficina, e ele tem um espetáculo ao meio dia e meio, depois ele tem uma outra oficina, eventualmente, ou ele tem tempo pra circular, depois disso ele tem um espetáculo as 18:30h, as 20:00h, as 21h e as 22 horas, e depois disso você ainda tem essa vontade de arte e cultura que está muito forte nas pessoas e que depois estrapola. Então depois do show das 21h tem mais uma pessoa tocando violão aqui, outra tocando flauta ali. É uma das raras ocasiões onde durante tantos dias a pessoa vai refletir profundamente sobre o papel da arte e cultura na sua vida. A tal ponto que não existe pessoa que fique neutra em relação ao festival, isso é impossivel.

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Zeca Wachelke, regendo o incrível coral “Vá de Retro”, que andava pra trás nas ruas de Antonina, em 1997.

Ana Carolina Caldas: Para o festival, o que é pensar arte e cultura? O que é a arte e cultura para a formação do ser humano?
Guilherme Romanelli: A primeira coisa é que a arte e a cultura não são acessórios, são essenciais, a nossa propria definição de ser humano é o sujeito artístico, a nossa grande diferenciação em relação aos outros animais é essa capacidade de fazer e apreciar a arte, ressignificar as coisas enquanto arte. Nós somos os únicos que podem ouvir o canto de um passarinho e ver naquilo um trabalho estético, ter um prazer e fruir com aquilo, essa é a primeira coisa; a outra é pensar que faz parte da vida e que é acessivel a todos, isso é uma coisa importante do festival, você vai ter na frente de um espetáculo de dança contemporânea uma pessoa que estudou, que tem nivel superior, que já viajou pra Europa etc e tal, e ao mesmo tempo, ao lado dessa pessoa vai ter um sujeito que é garí, os dois em pé de igualdade vão estar usufruindo daquilo. Por isso a idéia de lutar pela continuidade, até porque é muito raro uma iniciativa no Brasil que tenha 19 anos de edição ininterruptas, a gente nesse ano arriscou perder esse titulo, mas graças a um esforço coletivo muito grande a gente está conseguindo realizar.

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Ruas da cidade durante a oficina de performance e intervenção urbana, em 1997.

Ana Carolina Caldas: Quais são as idéias para o próximo, o vigésimo festival?
Guilherme Romanelli: A primeira coisa em relação ao vigésimo festival, é que todos os projetos que a gente teve nos anos anteriores foram projetos de sonhos, então os projetos eram muito maiores do que de fato aconteceu. A cada ano teve uma dificuldade diferente, e foram várias: teve um ano em que nós tivemos uma greve na universidade, e este ano de 2009 foi um ano realmente atípico, porque além de todas as dificuldades, ainda houve a questão de total ausência de patrocinadores. Para o vigésimo não pretendemos reinventar a roda, pretendemos é poder colocar em prática tudo aquilo que a gente sempre sonhou. Primeiro ter as condições pra começar o festival já em agosto, naturalmente com um bom projeto, bons contatos e tempo pra organizar, esse ano foi realmente um sufoco. Nós podemos ter algumas oficinas que aconteçam ao longo do ano, evidentemente não todas, mas, algumas oficinas centrais, o que já aconteceu, por exemplo, com a Associação dos Artesãos de Antonina, eles cresceram, eles nasceram em torno do festival. Então ter essas oficinas centrais, que possam construir durante setembro, outubro e novembro, e depois fevereiro, março, abril, maio, junho, e que culminem no festival. Também a gente gostaria de ter algumas ações culturais ao longo do ano, alguns espetáculos em Antonina ligados ao festival, a bandeira e a marca ao longo do ano todo e o festival sendo a apoteose deste trabalho. O circo é um sonho antigo e está todos os anos no projeto, mas normalmente não podemos fazer, porque com poucas verbas, é uma área que acaba sendo cortada. E essa idéia da arte circense tem uma peculiaridade, dentro do espaço do circo, porque dentro de uma sala de aula é uma coisa, mas, no espaço do circo, embaixo da lona, aí ela é efetivamente uma arte circense. Vai ser um festival grande, motivo de comemoração, serão 20 anos e a gente vai ter que comemorar bastante e, esperamos, vai ser o festival dos sonhos.

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O ator Rafael Camargo, na performance “Povo de Antonina!”. 1997.

Ana Carolina Caldas: Foi dito que este festival esteve a ponto de não acontecer. Como vocês conseguiram reverter este quadro?
Guilherme Romanelli: O mais importante foi o desespero dele não acontecer. Quando tomamos a decisão técnica de que ele era inviável as pessoas ficaram muito assustadas. Foi talvez a primeira vez em que ele esteve realmente muito próximo de não acontecer. Isso mobilizou as pessoas e todos começaram a refletir sobre o que aconteceria caso não houvesse o festival, e isso é bom, porque significa que não podemos mais parar. Têm duas questões, uma é a tramitação no MinC, nós sabemos que o MinC tem muitas responsabilidades, um volume enorme de análises a serem feitas, e na orientação e no encaminhamento dessas análises o empenho do Vanhoni foi fundamental, porque isso tem que ser acompanhado a partir de Brasília, e realmente fez muita diferença. De outro lado, existem outros participantes que foram sensibilizados, sobretudo os patrocinadores, e isso é um trabalho que normalmente faz parte da atividade parlamentar, que é justamente sensibilizar para uma idéia, neste caso defendendo a idéia da arte e cultura, a difusão e promoção da arte e da cultura. A sensibilização da Itaipu foi  central, é uma empresa estatal, uma empresa binacional e foi essencial na promoção daquilo que é mais sagrado para o ser humano e que seria perdido. O festival tem dois impactos principais, especialmente na comunidade capelista. O impacto direto e o indireto. A cidade tem o festival no seu calendário oficial, isso significa que as escolas constroem o seu calendário em função do festival. Isso indica que existe uma porção enorme de comerciantes, de pessoas que se preparam para receber uma quantidade enorme de visitantes em função do festival, e caso ele não acontecesse teríamos um impacto negativo imprevisível, nós não sabemos o que iria acontecer, mas, seria muito, muito grave. Depois do carnaval esse é o evento mais importante de Antonina. Isto é mais ligado a uma questão direta, objetiva. A segunda questão é que indiretamente a cidade é um raro exemplo no Brasil, uma cidade em que as pessoas têm com naturalidade uma relação com a cultura. Significa dizer que se eu pegar um quarteto de cordas tocando Beethoven, uma obra extremamente introspectiva, e colocá-la no Centro da cidade de Antonina, eu vou ter público, e não apenas um público de curiosos, eu vou ter um público crítico, e isso se construiu ao longo de dezenove anos. Isso não é por acaso, então isso seria uma pena perder, e acho que essa sensibilização é importante. Se a gente analisar porque é que cronicamente, todo ano a gente tem o mesmo problema, descobriremos que é porque algumas pessoas ainda não conseguem entender muito bem qual é a função da arte e pra que ela serve. Ela continua como algo acessório, como algo que ilustra, como algo que é a azeitona da empadinha, a cereja do bolo, essas coisas todas….

Fotos: Gilson Camargo

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Sede da antiga Filarmônica Antoninense, em 1995, em foto de Chico Camargo.

No começo a gente foi parar lá porque o professor Eduardo Nascimento, que era ligado à equipe do festival, professor da universidade, é antoninense, então ele abriu essas portas lá. E eu não digo só a prefeitura, mas a comunidade recebeu tão bem o festival e o absorveu, que hoje esse festival não é só da universidade, é nosso, é da universidade e de Antonina, eu não digo nem da prefeitura de Antonina, porque ele é da cidade, da comunidade. Mas, isso, é claro, foi construído durante o tempo, a gente vai criando vínculos e estreitando os laços. Mas, no início foi através do professor Eduardo Nascimento. No começo a gente foi parar lá porque o professor Eduardo Nascimento, que era ligado à equipe do festival, professor da universidade, é antoninense, então ele abriu essas portas lá. E eu não digo só a prefeitura, mas a comunidade recebeu tão bem o festival e o absorveu, que hoje esse festival não é só da universidade, é nosso, é da universidade e de Antonina, eu não digo nem da prefeitura de Antonina, porque ele é da cidade, da comunidade. Mas, isso, é claro, foi construído durante o tempo, a gente vai criando vínculos e estreitando os laços. Mas, no início foi através do professor Eduardo Nascimento.



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