
Cães sem guarda responsável na Vila Osternack, em Curitiba.
No Brasil milhões de cães e gatos vivem nas ruas, sendo que grande parte deles foi abandonada por seus donos. A situação gera diversos problemas, tanto no que diz respeito ao bem-estar animal como à saúde pública, pois, a população humana fica exposta à disseminação de doenças. A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera inapropriada e dispendiosa a política de captura e extermínio dos animais como forma de controle populacional e de zoonoses. Atualmente, especialistas defendem como formas de combate à superpopulação, medidas como a cirurgia de castração, atividades educativas e regulamentação de políticas públicas voltadas à saúde pública veterinária.
Para ajudar no controle desta população e, principalmente educar, o Curso de Medicina Veterinária da UFPR criou o castramóvel, idealizado pelo professor dr. Antonio Felipe Wouk. Trata-se de um ônibus adaptado para ser uma Unidade Móvel de Esterilização de cães e gatos, equipado com materiais cirúrgicos, além de um local adequado para o atendimento pós-operatório. Segundo o coordenador do projeto, professor Alexander Biondo, “não adianta fazer a castração se não houver conscientização por parte da população sobre como cuidar dos seus animais”. O projeto, portanto, atua em três frentes: treinamento de estudantes do curso de Medicina Veterinária em técnica operatória, redução da população de cães e gatos por meio da castração e orientação pelos alunos e professores sobre a guarda responsável.

Daniele Krueger, aluna do curso de Medicina Veterinária, demonstra um procedimento de consulta no interior da Unidade Móvel.
Através de emenda parlamentar de autoria do deputado federal Angelo Vanhoni no valor de R$100 mil, serão comprados materiais cirúrgicos e medicamentos, dando condições para que o ônibus atenda tanto em bairros da cidade de Curitiba, como em outros municípios da região metropolitana e do litoral.
Segundo informações do Departamento de Veterinária da UFPR, no momento aguarda-se o levantamento por parte da prefeitura de Curitiba sobre as regiões que deverão ser atendidas. O ônibus fará uma primeira visita para elencar e examinar os animais que devem passar pelo procedimento e em outro momento, estacionado no bairro, o ônibus vai receber moradores que queiram castrar seus animais. Após a participação do dono em atividades educativas sobre guarda responsável, o bicho será encaminhado a uma avaliação clínica e, depois à castração. No litoral, a unidade passará por todos os sete municípios: Morretes, Antonina, Paranaguá, Guaraqueçaba, Pontal do Paraná, Matinhos e Guaratuba. Durante o Projeto Operação Verão, alunos do Curso de Veterinária, além de acompanhar o atendimento e demonstração no ônibus, farão ações educativas junto aos moradores e turistas.
Segundo a Sociedade Mundial Para a Proteção dos Animais (WSPA), uma única cadela, com uma vida reprodutiva de 6 anos, poderá dar origem a 6000 descendentes; uma gata, em apenas 2 anos, poderá deixar 2000 descendentes. Estes dados explicam o problema da superpopulação de animais de companhia enfrentado por muitos países. Em material elaborado pelos alunos e professores, a principal orientação do grupo à população é a mais simples: jamais abandonar um animal de estimação.

O professor Biondo (imagem acima), alerta que o problema não está necessariamente na superpopulação; “podemos ter 10 cães dentro de casa e se eles estiverem recebendo todos os cuidados necessários isto não é errado. A falta destes cuidados, desde vacinação, castração e higiene, sim, é a causa de outros problemas bem mais graves, pois, os animais servem como sentinelas das doenças de uma cidade. Nos últimos 30 anos, de cada quatro doenças emergentes nos seres humanos três eram zoonoses, ou seja, vieram dos animais”.
A formulação de políticas públicas que incentivem iniciativas como a da UFPR é destacada por Biondo como reivindicação antiga daqueles que militam na área: “Tivemos uma audiência neste ano junto ao Secretário Nacional de Vigilância em Saúde, intermediada pela Gleisi Hoffmann. Fomos reivindicar a elaboração de políticas públicas para o tema. Para se ter idéia, existem municípios brasileiros que ainda usam o método da “carrocinha”, um método de 40 anos atrás! Outra bandeira que ainda não conseguimos conquistar e reivindicamos é a inserção de cães e gatos como categoria do censo brasileiro. Eu não sei lhe dizer, por exemplo, quantos cães e gatos temos na cidade de Curitiba. Acredito que esta área ainda precisa avançar muito. Trata-se de Saúde Pública.”
Em resumo, a solução mais importante é cuidar bem dos animais, o que chamamos de Guarda Responsável.
Fotos: Gilson Camargo

O professor dr. Antonio Felipe Wouk, criador do projeto e o deputado Angelo Vanhoni durante a inauguração da Unidade Móvel de Esterilização de Cães e Gatos e Educação em Saúde (UMEES), que aconteceu no campus do Centro Politécnico, em Curitiba. Na demonstração, professores do Departamento de Medicina Veterinária da UFPR esterilizaram seis cães abandonados. Os animais foram encaminhados para adoção. Foto: Alexander Biondo.