32 anos do partido dos trabalhadores – entrevista com o jornalista roberto elias salomão

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Roberto Elias Salomão nasceu em São Paulo em 1953, formou-se em Jornalismo pela ECA/USP em 1979 e veio morar em Curitiba em 1980, tendo como um dos objetivos participar da formação do PT do Paraná. Foi secretário geral do diretório estadual do partido em dois períodos: de 1987 a 1990 e de 1997 a 1998, e presidente do PT Curitiba de 2001 a 2005. É autor do livro “Os Anos Heróicos” que conta a história do Partido dos Trabalhadores no Paraná desde a sua fundação em 1980 até o início da década seguinte, em 1992.

Blog Vanhoni: O Partido dos Trabalhadores surgiu nos momentos finais do regime militar. A ditadura, que obteve um certo apoio popular no período do milagre econômico, atingiu a sua própria obsolescência com o retorno da crise e da inflação no final da década de 70. Como foram estes anos que marcaram a transição democrática no Brasil e o início do PT?

Roberto Elias Salomão: O regime militar poderia estar podre, mas não caiu sem ter sido derrubado. No final dos anos 70 existia uma crise econômica, existia uma incapacidade do regime de manter a sua dominação. Não se podia manter a repressão como no início da década mas o regime ainda tinha margem de manobra. O general Figueiredo, então presidente, imaginou uma reforma partidária continuísta onde a Arena virou PDS e o MDB virou PMDB. Construíu um outro partido que veio a ser chamado de partido dos banqueiros, o PP, de Tancredo Neves e Magalhães Pinto, que juntava os não tão à direita quanto os da Arena e os nem tão à esquerda como o PMDB, e bolou ainda outro partido que era o PTB, mas não o PTB com as lideranças mais representativas do antigo PTB, que no caso seria o Leonel Brizola, mas na mão da Ivete Vargas, sobrinha do Getúlio Vargas; e as eleições de 1980 foram canceladas. O que se previa como estratégia era que esses seriam os partidos que iriam concorrer às eleições de 1982, que seriam eleições gerais, mas, não para presidente. Esse processo começou a fazer água quando o Brizola conseguiu construir o PDT. Continuou existindo o PTB oficialmente, mas o verdadeiro e antigo PTB passou a ser o PDT na mão de Leonel Brizola, tanto é que ele acabou ganhando as eleições para o governo do estado do Rio de Janeiro. E o segundo motivo que fez com que essa continuidade da ditadura sob outra forma não desse certo foi o PT.

O PT começou a ser gestado no final de 1978, começo de 1979, a partir das greves do ABC, de encontros de sindicalistas de várias categorias mas, principalmente dos metalúrgicos do ABC, Lula e outros, como um partido que rejeitava que os trabalhadores ficassem sob o comando tanto do PDS quanto do PMDB. Era um partido que tinha um compromisso ainda não muito claro com uma forma de socialismo, mas que punha como questão central, primeiro a representação independente dos trabalhadores e, segundo, a questão da democracia. A democracia foi vital para o PT no início da sua existência e continuou sendo vital nos anos seguintes, tanto que no mesmo ano em que estava sendo gestado o PT, nasce o sindicato Solidarnosc, na Polônia, que foi o início do processo de queda daqueles regimes, e o PT se solidarizou com o Solidarnosc por que o PT entendia que socialismo sem liberdade não era socialismo. Então o regime militar começou a deixar de existir por um impulso dos opositores do regime. Ele não cairia sozinho.

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Blog Vanhoni: Qual o papel da resistência popular na derrubada do regime militar, como a luta armada e os movimentos estudantis que antecederam as greves no ABC em 1979?

Roberto Elias Salomão: Existiu um processo de resistência a ditadura militar desde que ela se instituiu, mas o processo de luta armada foi absolutamente derrotado. Em 1973 já não existia mais luta armada. As organizações clandestinas tinham sido completamente desbaratadas, um monte de gente foi morta, presa, torturada, exilada e assim por diante. Há um periodo que a gente pode caracterizar como de luta sem massa, porque os grupos armados estavam cada vez mais isolados da massa. Isto é um processo de autocrítica que estes próprios grupos fizeram. Não é uma opinião de alguém de fora.

A partir de 1975 a gente pode começar a ver um reinício do movimento de massas contrário a ditadura militar. Eu participei de um dos momentos mais importantes, que foi a greve da ECA, a Escola de Comunicação e Artes da USP, em 1975. Uma greve que durou 73 dias, na qual o objetivo era derrubar o diretor, um português facista, o Manuel Nunes, o que evidentemente não conseguimos; mas foi uma revolução na cidade e foi uma revolução não só do ponto de vista do reacenso do movimento de massas, mas também do ponto de vista do movimento cultural. A ECA era considerada a escola mais alienada da USP, a escola dos “fumetas” e dos “jacarés”, que era o pessoal lagarto, que só ficava tomando sol. A partir da greve da ECA, ela passou a ser a escola mais politizada do campus e foi o sinal para o reerguimento do movimento estudantil. Em 1976 nós reconstruímos o DCE da USP, em 1977 reconstruímos a União Estadual dos Estudantes de São Paulo. No começo de 1977 nós saímos pela primeira vez para rua e começamos a gritar “abaixo a ditadura!”. Lá por maio de 1977 nós fizemos manifestações no centro da cidade. As imagens existem até hoje, de bombas de gás lançadas contra os manifestantes encostados na parede, uma confusão geral na cidade, e em julho, quando teve a reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, o plenário da SBPC aprovou uma carta pedindo a redemocratização do Brasil. Logo após, no dia 11 de agosto, data do sesquicentenário da instalação dos cursos jurídicos no Brasil também foi feita uma carta que passou para a história falando da redemocratização.

O que eu queria deixar claro é que o movimento estudantil precedeu estas duas manifestações dos intelectuais. Ele já vinha num acúmulo de lutas desde 1975, que não se limitou a USP, mas aconteceu em vários locais. Aí veio a primeira greve do ABC, em 1978, e quando aconteceu a segunda greve nós ja tínhamos um movimento sindicalista no sentido de construir um outro partido. Ninguém falava ainda na sigla PT, mas a idéia era essa, um partido dos trabalhadores, e o partido acabou sendo fundado oficialmente no dia 10 de fevereiro de 1980.

Então o PT é herdeiro desta luta do povo brasileiro, da juventude, dos estudantes e dos intelectuais. O PT absorveu o que havia de mais expressivo entre os militantes que estavam voltando com a anistia a partir de 1979. Neste livro eu registrei a volta de um dos exilados que depois virou dirigente do PT no Paraná, o Vitório Sorotiuk, além de  militantes de várias organizações que entraram no partido. O PT reuniu sindicalistas, a juventude, intelectuais, militantes anistiados, militantes da igreja, e a partir daí começou a fazer história no país.

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Blog Vanhoni: O surgimento do PT no Paraná, como ocorreu? Foi centrado em Curitiba ou partiu também de outras cidades?

Roberto Elias Salomão: Tem um episódio interessante. A primeira discussão em relação a formação do PT ocorreu em janeiro de 1979, em Lins, São Paulo, numa reunião de sindicalistas, e a partir daí começou a se falar em Partido dos Trabalhadores. A comemoração do 1° de maio aqui em Curitiba foi na Vila Nossa Senhora da Luz. Eu entrevistei um companheiro, o Davi da construção civil e outros que falaram que aquele 1° de maio já foi um encontro petista, que a idéia de um partido dos trabalhadores já estava tomando conta dos militantes de bairro, das favelas e dos sindicalistas. Para confirmar isso temos o congresso de fundação da UNE, em Salvador, em 1979, onde foi feito um abaixo assinado pela formação de um partido dos trabalhadores. A diferença é que aqui o movimento sindical era muito fraco. Nós tivemos dois movimentos de uma certa expressão em Curitiba: a Oposição Metalúrgica, vários fundadores do PT estavam nela, e o Sindicato da Construção Civil, mas o PT encontrou em Curitiba um forte apoio no movimento dos bairros.

Tem um companheiro nosso, o Jairo Graminho, que é um velho militante que participou da revolta dos colonos e ele afirma textualmente que o PT do Paraná nasceu da favela. O PT aqui teve que fazer uma série de adaptações na sua estrutura e na sua forma de ser porque não tinha a mesma composição de São Paulo, Minas ou Rio de Janeiro. Era uma situação bem diferente e nós, a partir desta reunião de militantes em Curitiba começamos a nos organizar. Aí tem toda uma teia de contatos, tem ex-militantes da organização da época da luta armada, de ex-exilados, que tinham companheiros em Londrina, Arapongas, Rolandia e assim por diante, outros que em função da sua atividade profissional conheciam e contataram trabalhadores de outras cidades, militantes da igreja acabam se incorporando ao PT, e como a igreja tinha uma estrutura muito ramificada o partido acaba crescendo, mas no momento da legalizaçao do PT nós atingimos exatamente o número de municípios que precisavamos, nenhum a mais.

Nós conseguimos legalizar o partido em 59 municípios. Na verdade, nas 59 zonas eleitorais, sendo que em Curitiba eram 5. Nós fizemos isso, mas o PT é um partido que ainda carrega, neste começo no Paraná, uma fragilidade que vai acompanhá-lo por algum tempo, fragilidade em termos de inserção no movimento sindical e fragilidade em termos de recursos. O partido nunca tinha dinheiro. As primeiras eleições que o PT do Paraná participou, em 1982, 1985 e 1986 foram feitas quase sem recurso nenhum.

Em 1982 apesar do resultado ruim nas eleições, o PT já conseguiu uma certa representação em várias cidades do estado. Em 1983 formamos a CUT no Paraná. O primeiro sindicato que constituiu a CUT foi o Sindicato dos Bancários de Londrina junto com o Sindicato da Construção Civil de Curitiba, mas a construção do PT varia de região para região. No Oeste e Sudoeste o peso dos trabalhadores rurais é muito grande.

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Blog Vanhoni: Você fala que o PT do Paraná nasceu nos bairros. Isso significa que as associações de moradores tiveram um papel importante na organização do partido?

Roberto Elias Salomão: As associações de moradores também, havia a União Central de Bairros e a Asssociação dos Moradores de Bairros, mas, além delas havia movimentos concretos como o movimento pela moradia, que teve grande expressão, o movimento contra a carestia, e havia o movimento em relação ao transporte coletivo. Particularmente, Curitiba experimenta a partir da criação da Cidade Industrial um inchaço muito grande e as condições de vida, transporte e moradia se tornaram explosivas. O Bairro Novo, por exemplo, foi uma conquista do movimento pela moradia. Estes movimentos acabaram sendo muito importantes para a consolidação do PT no Paraná.

Blog Vanhoni: Quais foram os maiores desafios do partido no estado na primeira década de sua fundação?

Roberto Elias Salomão: Eu já referi alguns deles, mas as coisas que o PT aqui vivia faziam também parte da conjuntura nacional. O PT teve quatro momentos nos primeiros anos, de isolamento total. O primeiro foi a decisão de fundar o PT e a legalizaçao do partido.

O segundo foi no processso eleitoral de 1982, quando aqui no Paraná nós fizemos menos votos que o número de filiados que tínhamos. Pior, em alguns municípios nós tivemos menos votos que o número de membros do diretório e, em alguns, pelo menos em um, com diretório formado e tudo nós tivemos zero votos. O que mostra a grande pressão naquele momento do voto vinculado.

O terceiro foi na questão do colégio eleitoral. Nós estavamos saindo da campanha das diretas derrotados. Saiu a candidatura do Tancredo contra o Maluf e todo mundo embarcou, só o PT que ficou sozinho. Não era uma questão de não escolher entre Tancredo e Maluf, mas, a ida para o colégio eleitoral significava a negação das diretas. Era um espaço ilegítimo de eleição para presidente.

O quarto momento foi em 1986, durante o Plano Cruzado, que significou uma vitória estrondosa do PMDB. Se você pegar a lista dos deputados estaduais daquele ano eleitos no Paraná você vai se surpreender. São nomes que nunca você veria associado ao PMDB. Todo mundo embarcou na canoa do Plano Cruzado, da Nova República, e o PT ficou absolutamente sozinho. Mas, a partir daí aprendeu. Nós elegemos apenas 16 deputados para a constituinte, mas estes deputados conseguiram ter um papel de destaque. Em 1989 o Lula foi candidato, e apesar de ser uma frente pequena, com PT, PC do B e PSB, nós conseguimos ir para o segundo turno. Então o PT saiu desta primeira década com bastante força. Tem alguns partidos que até cresceram mais, mas não com a firmeza de propósitos e ideológica do PT. Veja o partido do Collor, o PRN, que chegou a ser um grande partido, mas sumiu no ano seguinte.

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Blog Vanhoni: Dentro de uma convergência mais ampla, como é visto o PT fora do Brasil e qual o seu papel na atual esquerda mundial?

Roberto Elias Salomão: O PT teve um papel decisivo no arco da esquerda mundial nos últimos 30 anos. Já tinha antes da eleição do Lula, e a partir da eleição de Lula o PT e o governo do PT são uma referência mundial para a esquerda. Tem alguns elementos que levaram a isso. Primeiro, a queda dos regimes do leste europeu fez com que os partidos comunistas ligados a Moscou, depois ligados a China e a Albânia perdessem a sua capacidade de influenciar. A segunda coisa, foi que no governo Lula, de fato o PT demonstrou que sabia governar, não só mantendo a economia estabilizada como também distribuindo renda. Houve efetiva distribuição de renda em seu governo e o PT passou a ter um papel de destaque no cenário mundial. O PT hoje é uma referência. O Fórum Social Mundial, por exemplo, nasceu em Porto Alegre, cidade que o PT governou por 16 anos.

Existe hoje uma mudança geopolítica global. Tem uma projeção que fala que até 2020 o Brasil vai ser a 5° economia do mundo. E entre estes haverá 3 paises do BRIC: a China, a Índia e o Brasil. Há uma evidente crise nos grandes redutos do capitalismo: Estados Unidos, Europa e Japão. Nós estamos na aurora de um novo momento mundial. Tem líderes europeus falando que a Europa deveria aprender com a América Latina, com a forma como nós estamos lidando com a crise.

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Blog Vanhoni: E sobre o livro “Os Anos Heróicos”, que aborda os primeiros 12 anos do PT no Paraná, você pretende uma continuação deste trabalho?

Roberto Elias Salomão: Não sei. Mesmo porque uma continuação seria completamente diferente. Este primeiro livro me deu um prazer muito grande de escrever, de ir atrás dos documentos, das entrevistas com militantes. Nós fizemos de 8 a 10 seminários ouvindo militantes antigos, mulheres, sindicalistas e assim por diante… eu tinha a pretensão de saber tudo sobre a história do PT, mas aprendi ao escrever o livro que não sabia quase nada e passei a ter um respeito ainda maior pelos fundadores do partido, pelas dificuldades que enfrentaram, pelo grau de decisão que tiveram que tomar. Nós vivíamos as turras no começo do partido, discutiamos muito, e a gente vê retrospectivamente que houve um empenho, uma dedicação e uma entrega na construção do PT que foi fantástica!

Blog Vanhoni: O que você prospectaria para um segundo livro?

Roberto Elias Salomão: Olha, eu não faria neste formato. Talvez eu escolhesse temas: um histórico sobre a participação do PT nas gestões das prefeituras do Paraná; um segundo sobre a atuação do partido na Assembléia Legislativa; um terceiro abordando a evolução dos programas de governo do PT; um quarto sobre a evolução das políticas de alianças, mas não seria de uma forma tão cronológica.

Blog Vanhoni: Neste mês se comemora os 32 anos do PT. Como você vê esta data?

Roberto Elias Salomão: Eu acho que nós temos motivos pra fazer festa mesmo! Só acho que a festa não pode obscurecer a necessidade de uma discussão sobre os rumos do partido. O partido cresceu brigando, não só com os de fora, mas, brigando teoricamente dentro; a cada encontro era uma discussão. O PT nunca teve um momento onde houvesse uma unanimidade no rumo a tomar, porque os problemas eram inteiramente novos e as soluções não eram óbvias. Eu acho que hoje nós temos o mesmo tipo de problema que a gente enfrentou nos anos anteriores. Nós precisamos discutir. Abrir a discussão com o partido todo, discutir desde as nossas formas de organização, os caminhos que o PT vai tomar, como é que vai ficar o governo Dilma, por exemplo. Se nós estamos satisfeitos, se é isso mesmo, se não é, e assim por diante… o PT precisa ser autônomo em relação ao governo, ele precisa ter vida própria; coisa que está conseguindo ser agora, mas, no governo Lula teve um momento em que o governo quase eclipsou o PT. Eu tenho motivos não só pra festejar o passado, como pra estar otimista em relação ao futuro.

Fotografia: Gilson Camargo

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  1. […] para:  “Os anos heróicos” ,  sobre os primeiros anos do PT no Parana. e Museu de Periferia do Sítio […]

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