Arquivo para agosto, 2009

palestra de alfredo manevy – abertura do seminário "cultura, cidade e desenvolvimento" – capela santa maria – curitiba / pr – 27/08/09

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Alfredo Manevy, secretário executivo do Ministério da Cultura, discorreu sobre os principais avanços da sociedade brasileira em relação as pautas da cultura no governo Lula. A equipe do blog esteve presente no evento promovido pela Fundação Cultural de Curitiba em parceria com o Ministério da Cultura e transcreveu sua fala visando contribuir para o esclarecimento da proposta de reformulação da Lei Rouanet e dos eixos temáticos a serem discutidos nas etapas municipais e estaduais da Conferência Nacional de Cultura.

Link para a programação completa do seminário

Link para o áudio integral da palestra

“O tema aqui hoje não poderia ser mais oportuno. Discutir cultura, desenvolvimento e cidade é um tema que para o Ministério da Cultura é como levantar a bola pra gente cortar. A gente vem discutindo isso na verdade há 6 anos. Desde que Gilberto Gil entrou no Ministério da Cultura este vem sendo nosso tema, nosso mantra. A gente tem as vezes até sido acusados de sermos evangelizadores nesta questão, porque a gente vem insistindo em que essa é uma discussão estratégica. O Brasil tem uma carência sistemática de espaço de discussão. É uma marca da política convencional, e isso está marcado em todos os grupos políticos do Brasil, em todos os partidos, o pragmatismo, o imediatismo, a incapacidade de renovar as idéias, de renovar o pensamento, renovar as atitudes, práticas de valores, capacidade de absorver a sociedade, o pensamento e a cultura, idéias novas, práticas novas. Nós fomos muito reféns de um modelo político baseado nesta aritmética de conquista de espaço, de reprodução do poder, que é algo que esvaziou em grande medida o espaço político brasileiro. Precisamos recuperar espaços como este aqui, onde a política se alimenta de uma discussão pública, onde a política é feita fora de gabinete, fora dos espaços convencionais, que a gente possa fazer uma discussão aberta e crítica sobre os nossos padrões de desenvolvimento, nossos padrões de política pública. Nós vamos falar aqui hoje sobre uma política estratégica no Brasil, que é a política cultural. A verdade é que durante décadas o Brasil deu as costas para essa dimensão. O estado brasileiro tem uma péssima tradição de relação com a cultura. Então é muito saudável e muito comum que as pessoas fiquem ressabiadas com um debate como esse, achando que o estado é um problema da história e não parte da solução. Com razão. O estado tem um histórico péssimo de relação com a cultura. Nestes 500 anos ele buscou intervir de maneira autoritária para determinar padrões e valores de cima para baixo, de maneira vertical definindo o que é cultura. Nos momentos autoritários da nossa sociedade nós tivemos um estado que buscou pela censura, por mecanismos de controle, ofuscar aqui e ali certos aspectos da cultura brasileira, escondendo o resto de nossa diversidade cultural como se isso não fosse Brasil, escolhendo aquilo que interessava em determinados momentos para capitalizar politicamente em troca de algum caráter simbólico que artistas e produtores pudessem dar para aqueles governos autoritários. Isso é comum, é recente na história brasileira, está perto de todos nós. Quem não viveu tem parentes que viveram. Esta marcada, é muito recente. Também é recente um outro aspecto do estado brasileiro que é a omissão. Na redemocratização, quando o Brasil reinstala a democracia, há pouco tempo, pouco mais de 20 anos, nós fizemos o caminho oposto. Saímos de um estado que tinha uma presença ruim para um estado sem presença nenhuma. Como se o estado democrático na cultura fosse um estado ausente que transfere sua responsabilidade para terceiros realizarem uma missão insubstituível que é a realização dos direitos que ninguém realiza senão o estado. Muito de nossa discussão hoje tem a ver com isso. A defesa de um estado democrático, republicano, moderno, que na área da cultura tem uns papéis estratégicos, que é garantir os direitos culturais como necessidade básica da população. O estado não é o vilão da história. Não é o lobo mal que fica esperando o chapéuzinho vermelho. É, na verdade, um agente estratégico no país que precisa ser discutido publicamente, controlado pela sociedade, controlado pela imprensa, controlado pelos debates públicos. Precisa ter metas, orçamento e capacidade de investimento no campo cultural.

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As demandas na área da cultura são gigantescas. Essa pendularidade entre um estado autoritário e um estado que nada faz, nos levou a abandonar uma série de questões estratégicas do Brasil. Uma série de temas que são relevantes para o desenvolvimento do país que ficaram escondidas em baixo do tapete e que agora aparecem com força total. Aparecem e surpreendem pelo tamanho da demanda, pelo tamanho dos problemas na área da cultura, que se reflete na baixa qualidade de vida das pessoas, se reflete no empobrecimento das discussões públicas e na desqualificação dos debates públicos no Brasil. Reflete-se na baixa presença nos poucos equipamentos culturais como esse, onde debates podem ser feitos. Não são comuns espaços como esse nas cidades brasileiras. O IBGE aponta que mais de 90% dos municípios brasileiros não tem sequer um equipamento cultural onde se pode fruir cultura, literatura, onde se possa ter acesso a um acervo qualificado, onde se faça um debate como esse que estamos fazendo aqui agora. Nós temos um déficit histórico na área da cultura que se deve a estes equívocos do passado, a essa pendularidade entre um estado autoritário ou estado omisso e agora precisamos chegar a um terceiro estado que é um estado presente, democrático, transparente e que seja capaz de realizar políticas públicas de cultura a altura dessa demanda cultural que o país tem.

Nós, quando chegamos no ministério encontramos uma visão de política cultural que era pobre. Era cultura como cereja do bolo, era o adereço, era o último dos ministérios em importância na esplanada dos ministérios porque não havia uma clara compreensão que o Ministério da Cultura, para realizar a sua função, precisa se relacionar com todos os brasileiros. Cabe ao Ministério da Cultura se relacionar com os artistas e produtores culturais de todo o pais, mas também ele precisa incorporar como sua missão a de realizar o direito de cidadania cultural de todos os brasileiros. Seria algo tão estranho como se o Ministério da Educação tratasse de apoiar os professores, mas, não incorporasse como sua meta fundamental alcançar os estudantes. Seria algo tão estranho como se o Ministério da Saúde tivesse por objetivo construir hospitais e não tivesse como meta fundamental alcançar o cidadão, os pacientes e as pessoas que estão precisando de atendimento. O ministério se apequenava. Era praticamente um pequeno balcão de troca de recursos para uma pequena parcela, uma ínfima parcela de artistas e produtores que conheciam o caminho das pedras, que eram amigos do rei e acessavam uma pequena e ínfima parcela de recursos que era distribuída sem critérios, sem transparência, sem visibilidade, porque a visibilidade era preocupante para aquele ministério. Porque se você vai dar o que é pequeno para poucos a visibilidade pode causar confusão, apreensão e ansiedade para aqueles que estão de fora, a grande maioria dos que não acessam o recurso.

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Era o único ministério da esplanada que não tinha convênio com o IBGE para saber quais eram os seus números e estatísticas culturais. Não se conhecia o território da cultura brasileira. Não sabíamos que a cultura significa 5% da mão de obra formal no Brasil. A informal nós não temos ainda capacidade de enxergar, mas certamente chega a 10% ou 15%, e nós sabemos a presença informal da cultura, como ela é grande no Brasil, como ela é na verdade parte da sobrevivência de populações no Brasil. A cultura representa 7% do PIB do país. No começo do governo a gente tinha conversas com o Ministério da Fazenda para pedir um orçamento da cultura e a gente ouvia coisas absurdas, como por exemplo, “não existem evidências de uma tal de economia da cultura no Brasil”, a gente ouvia coisas desse tipo e se perguntava: onde é que os nossos economistas são formados? Provavelmente não no Brasil. É impossível que mesmo empíricamente não se perceba isso. Sabemos que no Brasil a economia da cultura é pujante, é uma economia que significa muito para o país, uma economia forte, significativa que sempre foi relegada a última importância e nunca houve um plano econômico para a cultura que fizesse dela um artigo estratégico para o país. Nós tivemos que ir para um embate interno no governo e para um embate externo com a sociedade. Porque muitas vezes o governo reflete a mentalidade da sociedade. Foi preciso botar esse tema em pauta e Gilberto Gil, na época em que foi ministro, comprou esta briga abertamente. A cultura tem uma importância para a cidadania, é um direito de todos os brasileiros. Tudo o que tem carga simbólica interessa ao ministério da cultura. É uma importante economia, uma importante industria, uma importante movimentação de renda e não pode ser desconsiderada quando o Brasil se reposiciona no mundo como um país estratégico, que é esse o momento que o estamos vivendo hoje. Nosso complexo de vira-lata chegou ao limite. O mundo inteiro demanda do Brasil uma nova presença. Eu lembro que no começo do governo Lula algumas pessoas diziam, “lula erra ao se aproximar da África, é perda de tempo. Lula vai para a China procurar o que? O importante é ter relação com a Europa e com os Estados Unidos”. Se nós tivéssemos seguido esse receituário de complexo de vira-lata a gente teria, num momento de crise econômica esse ano, e do ano passado, sido puxados como o México foi puxado, teríamos sido gralhados como vários países da América do Sul foram gralhados. O Brasil foi um dos países que mais resistiu porque diversificou a sua pauta política, a sua pauta de exportação e a sua pauta cultural. Passou a ter uma outra postura diante do mundo. Não uma postura de subalternidade privilegiada, feito uma teoria científica dos anos 70 que foi aplicada no Brasil, que foi ensinada nas universidades e que virou teoria aplicada ao estado brasileiro. Nós teríamos sido dragados nessa crise.

No Brasil surgiu um novo papel. A Ásia tem uma expectativa enorme em relação ao Brasil. A Europa em relação ao nosso modo de convivência social, que apesar de nossa imensa desigualdade, de nossa brutal desigualdade, que ainda persiste, o Brasil é exemplo de convivência e de assimilação da alteridade, da capacidade de absorver todas as nações, todos os povos. Eu sei que estou falando para um estado que é exemplo disso, que foi capaz de absorver contribuições de povos de várias partes da Europa e de várias partes do mundo. Não tem lugar do mundo que não tenha no Brasil uma representação simbólica de seu povo, de sua matriz cultural. Ser brasileiro não significa abrir mão desse passado, que é um patrimônio do país. No Paraná nós temos uma comunidade de descendentes ucranianos mais importantes do mundo. Tem um patrimônio arquitetônico, um patrimônio cultural. Recentemente o ministro da cultura lá esteve. Pela primeira vez um ministro da cultura esteve nesta comunidade. Ele foi lá dizer em alto e bom som: vocês são brasileiros e o Brasil considera vocês parte fundamental de nossa riqueza cultural, e para serem brasileiros, vocês não precisam se desassociar de suas origens, da sua cultura européia, ucraniana. Isso é um valor do Brasil. A Europa olha para nós com uma certa admiração e inveja, no melhor dos sentidos, porque nós desenvolvemos uma capacidade de assimilação que lá é um problema, é motivo de tensionamento, de desagregação social, de tensionamento econômico, de perda de direitos, de ódio social, de revanchismo, de um monte de pulsões sociais. Aqui no Brasil nós temos outros tipos de problemas. A desigualdade brutal, um desemprego alto, a educação com pouca qualidade, uma série de defeitos e problemas que nós conhecemos.

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Os governos autoritários olhavam essa diversidade como uma preocupação, como algo que ameaçava a nossa integridade territorial. Isso era um temor do século 20. Não faz mais sentido pensar assim. O Brasil está consolidado como nação. Vivemos o momento de afirmar a diversidade cultural. Um país que tem tantas matrizes culturais, como essas que eu citei, e ainda tem 180 línguas indígenas, e mais de 250 etnias indígenas no Brasil, que são verdadeiras tecnologias sociais, tecnologias culturais milenares, que influenciam mais do que a gente possa imaginar nossa cultura, língua, culinária, nosso modo de pensar. Mais do que a gente muitas vezes imagina, essas culturas influenciam nosso modo de vida de maneira positiva, são os nossos primeiros ambientalistas.

Não é possível pensar um modo de vida sem um meio ambiente preservado, uma floresta em pé, um ecossistema integrado, vivo, plenamente vibrante. São esses povos tradicionais, que são brasileiros, que são parte de nossa sociedade, os que em grande medida apontam para uma serie de questões fundamentais para o futuro do Brasil, não para o passado do Brasil. Essa diversidade que no passado foi vista como uma ameaça, um problema, algo que nós devíamos temer e buscar perseguir e controlar, quando na verdade nós vemos como algo positivo que nos engrandece e nos torna mais brasileiros e não menos brasileiros. Essas são mudanças profundas de paradigma. Tem a ver com o aprofundamento da democracia, tem a ver com a maturidade social do Brasil e com avanços importantes.

Você vai para América do Norte, para a Europa, e esta relação com os conhecimentos tradicionais, com os povos tradicionais se aboliu, se esgotou. Lá eles foram liquidados. Não há traços mais de etnias e povos tradicionais que contribuam com a nação. Eles olham para cá com uma atenção especial, até porque na Amazônia, estes povos que lá habitam, são fontes de conhecimento estratégico para as mais altas tecnologias avançadas na área de remédios, cosméticos, na área de propriedade intelectual, de moda, design. Enquanto o Brasil ignorou e jogou para baixo do tapete esse enorme potencial de futuro que eles significam, esses paises mandaram antropólogos, etnólogos, pesquisadoras, fazendo trabalho de bio pirataria para retirar esses conhecimentos tradicionais e patentear esses conhecimentos. Enquanto nós tratamos isso como atraso, eles trataram como alta tecnologia, enquanto a gente tratou isso como arcaísmo, eles trataram como industria de ponta.

Está na hora do Brasil dar esta virada. A gente não pode ficar brincando com esse patrimônio porque ele se dissolve, ele se perde, ele pode ser abolido se as nossas estratégias políticas de desenvolvimento ignorarem esta cultura como ignoraram no passado. Por isso, de 2003 a 2006, nós lutamos internacionalmente, e nesse sentido Gilberto Gil e todo seu patrimônio simbólico foi decisivo, para aprovar a Convenção Internacional da Unesco sobre a Proteção e Promoção da Diversidade Cultural do Planeta. Uma convenção que trata a cultura como o protocolo de Quioto trata o meio ambiente. Uma convenção que tem quase 100 signatários, e só teve dois na época, na conferência das partes, em Paris, Estados Unidos e Israel, que se recusaram a assinar. Mas a Europa fechou, a Ásia, a América do sul, etc. Uma convenção que diz claramente duas coisas. O Estado tem um papel de realizar políticas públicas fundamentais para realizar o direito de cidadania e esta convenção autoriza os Estados a disponibilizarem recursos orçamentários para essas políticas. O Estado tem direito de recuar os seus mercados culturais. A regulação da economia da cultura é uma dimensão estratégica.

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Pensemos no nosso cinema, que é dentro do próprio mercado cinematográfico brasileiro minoritário. Não chega, quando chega, a 15% do mercado interno. Nós temos uma situação onde um cinema do mundo ocupa basicamente 80% do mercado mundial! Naturalmente os países têm preocupação porque o cinema é uma atividade importante, e não é só pela qualidade dos filmes desses pais que eles tem 80% do mercado mundial, tem muita qualidade os filmes desses pais, mas por práticas econômicas, práticas comerciais que levaram o mercado a se concentrar de tal maneira. É preciso que os estados tenham um papel saudável de recuar a competição entre os atores garantido que o cinema de seus próprios países tenham chance de chegar ao seu público interno. A convenção autoriza os países a fazer isso.  Essa convenção é importantíssima, porque ela cria um marco legal internacional para uma série de movimentos políticos dos estados em nível internacional, alianças, movimentos de ordem internacional que permitem que a cultura se restitua no centro das negociações internacionais, e não achem que isso é pouco, porque a cultura, há 15 anos atrás, estava entrando de troco, como se fosse uma espécie de prêmio de negociação. A cultura estava sendo tratada como um serviço, e os mercados do mundo inteiro regulados de forma que a cultura fosse tratada como se fosse um sapato, como se fosse uma geladeira. Desconsiderando que a cultura na verdade não é mercadoria. A cultura agrega identidade, agrega vida simbólica, diz respeito ao que nós temos de mais profundo como seres humanos, como comunidade, como sociedade. Então não pode ser tratada na economia como uma mercadoria qualquer nas regras da organização mundial do comércio. A cultura tem que ser tratada como um diferencial estratégico. Isso é um cenário internacional onde as políticas públicas de cultura se afirmam como políticas protagonistas. Políticas que passam a ganhar uma importância nova no pais.

É aí que a gente vem discutir o lugar das cidades, o lugar estratégico das cidades brasileiras. Eu há dois anos atrás, estive em contato com uma delegação chinesa que veio ao Brasil para estudar o Brasil, e disseram: a gente esta estudando o Brasil porque nós não queremos viver na China o que o Brasil viveu nos anos 70. Nós queremos promover o desenvolvimento e uma passagem do rural para o urbano que não seja igual ao que o Brasil viveu nos anos 70. A gente quer fazer um planejamento de longo prazo, estudando os erros e acertos do Brasil. Eles localizaram que nós tivemos nos anos 70 uma passagem abrupta, sem planejamento, do rural para o urbano. Em vinte anos o Brasil se urbanizou, sem planejamento, sem organizar este movimento, sem criar políticas públicas de qualificação de vida das pessoas que estavam migrando. A migração foi na verdade induzida, e depois quando não interessou mais, virou um reservatório de seres humanos que poderiam ser descartados, uma vez que não interessavam mais pragmaticamente aos projetos de crescimento daqueles estados.

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A gente sente nas cidades brasileiras a fumaça, a poluição, a hipertrofia do transporte individual. Infelizmente nós optamos por esse modelo. Foi um modelo político no Brasil. Ainda optamos por um modelo que privilegia o transporte individual em detrimento do transporte coletivo. É oneroso para o cidadão, oneroso para o estado, leva a custos sem fim de manutenção dos equipamentos. Não planejamos a dimensão ambiental. O impacto ambiental desta ocupação das cidades brasileiras, esse grande contingente populacional que aconteceu de uma hora para outra na verdade construiu uma grande favela no Brasil. Esses imensos contingentes de pobreza ou pobreza extrema. Os chineses perceberam que eles não podem viver isso lá. É 1 bilhão de pessoas! Se eles fizerem isso o país vai viver uma fissura. Então, eles vieram estudar para não fazer o que nós fizemos. Uma coisa interessante que eles fizeram lá, a gente sabe que é um estado autoritário, um estado que nós não queremos, com pouca democracia, mas eles tem uma outra dimensão do estado que é o planejamento, a capacidade de planejar, sair do imediatismo que contaminou a política brasileira a tal ponto que a gente não consegue enxergar para além da esquina, para além do dia seguinte, para além da eleição seguinte. É uma precariedade na formulação estratégica do Brasil que dificulta o olhar de um horizonte além do imediato.

Por exemplo, uma coisa muito interessante que eles fizeram lá. A tv digital chinesa começou pelo interior do país. Por que? Porque eles resolveram dar um benefício social, cultural, etc, começando pelas populações que sentem necessidade de ir ao centro para acessar justamente aquilo que não está disponibilizado nas cidades do interior da China. Então eles resolveram criar uma série de benefícios. É uma questão de decisão estratégica, uma decisão a partir de um plano muito maior para lidar com a questão do desenvolvimento, que é vital para nós.

Certa vez conheci um intelectual argentino que achava que a cidade utópica, para ele, seria uma mistura entre Curitiba e Porto Alegre. Em Curitiba, ele via a capacidade de planejamento que a cidade conseguiu desenvolver e em Porto Alegre, a participação social no destino do orçamento. Muitas vezes as cidades dão ênfase à participação, mas subestimam a gestão, a eficácia e o planejamento. O contrário também acontece do outro lado, dá-se uma ênfase muito grande ao gerenciamento, mas subestima-se a contribuição de um processo aberto da sociedade. Eu achei isso um elemento importante e a cultura é vital. Tudo o que falei aqui tem a ver com cultura. Essa mudança de paradigma que a gente esta vivendo no mundo, essa mutação de valores, essa exigência de um novo padrão de valores, de um novo padrão ambiental e de consumo. Nosso modelo de consumo chegou num limite. As novas gerações não vão poder consumir como as velhas gerações. Vamos ter que criar novos hábitos, novas predisposições e expectativas em relação às cidades. Novos serviços vão ser necessários, novas demandas estão surgindo. Tudo isso é uma dimensão cultural. É a cultura entendida como valores e práticas. Não só como arte. Esta é uma mudança profunda. As artes são parte fundamental da cultura, mas é preciso enxergar e alargar o conceito de cultura para que as políticas culturais influenciem positivamente todas as outras políticas estratégicas.

Não vai ser possível pensar a política educacional nas cidades brasileiras sem a presença da cultura. Parte do problema da baixa qualidade educacional é por que a cultura foi alijada nos anos 70. Uma tragédia! A música brasileira, a arte foi alijada da educação. Isso foi um ato, um decreto. Estamos recuperando isso agora. O congresso recuperou o ensino de música.  O governo está se preparando para isso. É um passo importante. Não é educação artística, é a arte e a cultura como um item básico de formação para o mundo, como o trabalho e a cidadania, e para o mundo emotivo, familiar. É fundamental recuperar a cultura na política educacional.

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Na política de segurança a Colômbia é um exemplo disso. A Colômbia fez da cultura algo estratégico na política de requalificação das favelas, de reurbanização das favelas. A Colômbia colocou os melhores equipamentos culturais nas áreas mais degradadas, de forma que hoje os meninos de classe media frequentam os espaços que eram conhecidos como favelas, e que agora são bairros de classe media baixa, com dignidade, com iluminação, com saneamento, com escolas públicas de qualidade. Em Medelin, que foi uma das cidades mais violentas, conhecidas por todos nós como o supra-sumo do tráfico internacional, Pablo Escobar, etc. Hoje Medelin é um exemplo, você tem centros culturais de ponta que não estão disponibilizados no centro da cidade, e que estão nesses bairros mais pobres, e servem inclusive para quem mora fora destes bairros. Isso foi fundamental na estratégia deles para reduzir drasticamente os índices de criminalidade. Criou alternativas importantes onde o estado só chegava dando tiro, só chegava dando porrada, disponibilizando serviço de violência. O estado chega agora disponibilizando todos os serviços básicos para uma cidadania plena, e a recompensa disso é um espaço com plena dignidade e com plena integração. Periféricos que permitem que um cidadão lá do alto da favela chegue ao centro de Medelin em menos de 20 minutos e possa se inserir no mercado de trabalho. Tudo isso somado não é cultura isolada. Não é uma política cultural salvacionista, como alguns acreditavam há 10 anos atrás. Fazer trabalhos com a comunidade apesar de todo o resto não estar resolvido. Não é assim. É política pública de cultura integrada a uma outra política social, na qual vai fazer parte de maneira integrada.

Na política de saúde a cultura tem um papel estratégico. Eu estava agora no Recôncavo Baiano e uma secretária de saúde de um dos municípios me disse que está utilizando o samba de roda, porque lá a população, majoritariamente negra, tem uma enorme propensão à morte por razões cardiovasculares. Então eles descobriram que o samba de roda, se disponibilizado para esses pacientes traz um índice de redução enorme, pelo impacto clínico, pelo impacto ambiental, pelo impacto cultural. Muitas vezes os nossos hospitais são verdadeiras prisões. Eu já fui em hospitais da Europa que são centros culturais, são espaços de reabilitação num sentido mais amplo, são espaços onde a dimensão cultural mente/corpo estão integrados e a reabilitação da saúde faz parte de um todo. E no Brasil muitas vezes nossos hospitais são verdadeiros presídios, são antipáticos, são feios, não oferecem serviços complementares. Então a cultura tem um papel estratégico, ela é mais do que muitas vezes uma política “stricto sensu” disponibiliza nesse processo. E o Ministério tem trabalhado nestes termos, num organograma que envolve todos os ministérios da república, a gente trabalha em conjunto com esses ministérios todos, buscando qualificar em ações concretas, nós trabalhamos em apoio direto à comunidade, reconhecendo aquilo que a sociedade faz. O nosso pressuposto é o de que não é o estado que faz cultura, é a sociedade que faz cultura, então cabe ao estado disponibilizar meios e orçamentos para que artistas, produtores e as comunidades possam se realizar, e nesse sentido eu quero parabenizar aqui a inauguração de um Ponto de Cultura, eu não pude ir ontem, mas, eu soube que foi uma grande festa com dj`s, com pickups disponibilizadas a partir de uma experiência que já existia em Curitiba e que agora passa a ter um suporte pra acontecer de maneira plena. Nós temos mais de 2 mil pontos no Brasil nesta direção e vamos fazer mais ainda, via edital público. Sociabilizamos o acesso ao recurso público, ao edital público. São critérios transparentes, através do site do Ministério. Não é pra quem é amigo do rei, pra quem é amigo do ministro, pra quem é amigo do empresário. Na verdade hoje nós temos regras claras, editais públicos, nós temos critérios objetivos na relação com o recurso que nós podemos disponibilizar, que é o recurso orçamentário do ministério.

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Agora, tem uma outra parte do dinheiro, e são 80% do dinheiro público investido em cultura, que nós temos discutido e viemos aqui discutir com vocês que é a reforma da Lei Rouanet, porque imaginem, a gente pôde fazer tudo isso que a gente fez, Pontos de Cultura, Pontos de Leitura, com 20% do dinheiro público pra cultura no Brasil. O que seria, o que poderíamos fazer se a gente tivesse 100% do dinheiro público a partir de critérios públicos? O que seria se a gente tivesse 100% dos critérios públicos utilizados de maneira absolutamente republicana nos grandes objetivos e demandas centrais da política cultural brasileira? Essa é a pergunta de fundo da reforma da Lei Rouanet. É isso que nos moveu a fazer essa grande discussão pelo Brasil, a gente circulou pelo Brasil e ganhamos o debate. Tem editorial da Folha de São Paulo, de todos que ouviram, reconhecendo que a reforma é necessária, não tem jeito do jeito que está, a Lei Rouanet está sempre metida numa grande confusão, não são claros os critérios, a palavra critério nem existe na Lei Rouanet e não é possível que apenas duas cidades do Brasil concentrem mais de 80% do recurso público pra cultura. Isso é um absurdo, isso é insustentável! A gente não está mais no Brasil da república velha, a gente não está mais no Brasil arcaico, onde apenas uma pequena parcela dos brasileiros podem acessar a cultura, acessar o bem estar social e o restante precisa esperar e ver o navio passar, ver o trem passar. Não dá mais, a sociedade não suporta mais isso, a sociedade tá demandando republicanismo, igualdade de oportunidades a todos os brasileiros. Então, nada contra o Rio e São Paulo, são dois pólos importantes naturalmente, que tem história, tem lastro e merecem uma parte importante do recurso, mas, 80% pra duas cidades? E você vai pro Rio e São Paulo e não encontra quem acessa esse recurso, você encontra com muita gente que não acessa esse dinheiro. O que eu mais vejo no Brasil são pessoas com bons projetos enfiados debaixo do braço tentando captar um patrocinador e é difícil conseguir patrocinador, é quase impossível conseguir um patrocínio no Brasil. Então o que eu vejo muito no Brasil é isso, bons projetos culturais embaixo do braço, o que eu mais vejo é uma porção de artistas sem Rouanet que conseguiram aquele certificado que o Ministério dá, porque todo dia eu assino, mais cem, mais duzentos e as estatísticas mostram que desses cem, desses duzentos, dez vão conseguir alguma coisa. Alguma coisa. Os outros vão ficar com aquele papelzinho debaixo do braço, aquele crédito que parece de Banco Imobiliário. É um jogo, só que é um jogo cruel porque a maioria perde. É uma propriedade: comprei Jardins, comprei Morumbi. Comprou, e daí aquele certificado do Ministério não mudou nada.Na verdade a gente fica lá enxugando gelo com aqueles pareceres, que são ruins, do Ministério da Cultura, com aquele sistema burocrático, com um custo enorme e pra que? Linha de tráfego, carregando dez mil projetos ano, aí ficamos distribuindo esses papéis de Banco Imobiliário pras pessoas irem captar e ninguém capta. Aí as empresas vão lá e decidem: ah, esse eu quero, esse eu não quero, esse eu quero, esse eu não quero!

Tem empresas no Brasil que estão fazendo um uso bacana da Lei Rouanet, algumas empresas tem um uso exemplar. Agora, é exceção. A grande maioria na verdade, e os escândalos aí que misturaram Lei Rouanet com política nos mostraram como é que funciona, é isso. Encontra um diretor de marketing que conhece o caminho das pedras e ele vai lá e decide. Cadê a regra desse mecenato? Cadê o edital? Cadê o critério? Por que você e não eu? Por que o seu projeto é melhor que esse ou aquele? Isso é bom pro Brasil? Isso é péssimo pro Brasil! Isso é uma coisa arcaica, pré-república velha, isso não se sustenta em lugar nenhum do mundo. Agora, se fosse dinheiro das empresas eu acho que não caberia ao estado dizer onde investir. O problema é que nesses 18 anos de Lei Rouanet, e a idéia do nosso querido embaixador, filósofo Rouanet, era a parceria público/privada, o dinheiro público alavancando mais dinheiro pra cultura, uma idéia com a qual todos nós concordamos. Mas, o que a gente vê nesses 18 anos é o seguinte: 95% do dinheiro é público, do contribuinte. Agora, se 95% do dinheiro é do contribuinte, se as empresas não agregarem nada, se as empresas vão dizer pro Ministério de primeira: só manda o projeto com 100% de renúncia fiscal porque daqui não tem como botar dinheiro próprio, só pode ser desse jeito. Se for compulsório, se é dinheiro do contribuinte então é o seguinte: por que é que os artistas e produtores aqui do Paraná, por exemplo, vão fazer uma via crucis infernal pra conseguir um patrocínio se eu posso dar logo o dinheiro do Ministério aqui direto pra vocês? Não é muito melhor? É por isso que nós estamos fazendo a reforma da Lei Rouanet. Pra criar um mecanismo direto de apoio. (aplausos)

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Não significa que a gente vai acabar com a renúncia fiscal, a gente acredita na parceria com a iniciativa privada e nesse momento, aliás, nesse debate público, graças à militância de vocês, graças a mobilização que nós conseguimos em todo o Brasil, essa mobilização chegou ao Rio e São Paulo. A voz do Paraná, a voz do povo do Sul, o grito dos excluídos da Rouanet chegaram de todo o Brasil ao Rio e São Paulo, aos ouvidos de todos e eles sentiram que era importante evoluir nas posições, e estamos conseguindo uma coisa muito bacana, tomara que dê certo, uma parceria público privada onde as empresas assumem o compromisso de botar dinheiro próprio nas artes populares. Nesse sentido a reforma da Lei Rouanet não vai ser uma reforma de mecanismos, vai ser uma reforma para ter mais recursos pra Cultura, Mais recursos públicos, porque o orçamento público pra cultura tem que aumentar e vai sair da reforma da Lei Rouanet fortalecido, vai crescer o orçamento pra cultura no Brasil, mas, vai crescer também o orçamento privado das empresas na cultura, e isso vai significar o nascimento do verdadeiro mecenato privado no Brasil, olha que encantador isso! O verdadeiro mecenato privado, como tem nos Estados Unidos, como tem na Europa, onde os empresários cuidam das universidades, cuidam das escolas, isso é muito bom! A gente quer estimular isso no Brasil. Agora, o dinheiro do contribuinte tem que ser uma alavanca pra isso, não pode pagar isso, senão perde o sentido. Então a gente está construindo um diálogo com as maiores empresas que usam Rouanet no Brasil e a gente está acreditando que vai ser possível construir um diálogo, uma parceria com eles, um entendimento, um pacto político público de que eles vão fazer um investimento mínimo em cultura, em todos os projetos culturais. Se a gente for capaz de fazer isso nós vamos pegar isso como exemplo de que política vale a pena, de que fazer debate público vale a pena, porque na verdade parte da desqualificação do debate público no Brasil é porque as pessoas não arredam pé e fica uma contenção, como se tivessem o rei na barriga e a razão. Todos evoluímos, todos avançamos numa posição de maior clareza e o debate da Rouanet foi fundamental pra isso.

O Vale Cultura está chegando também e vai injetar um volume imenso de recursos na cultura. O Fundo Pró Leitura, que é outro mecanismo decisivo e que tem sido objeto da nossa parceria com o nosso querido deputado Marcelo Almeida, de tirar do Ministério da Fazenda um projeto do Fundo Pró Leitura que vai permitir um investimento de aproximadamente 70 milhões de Reais por ano em políticas de leitura e que significa uma contribuição do setor privado, das empresas editoriais, do mercado editorial de 1% do seu faturamento nesse fundo em decorrência da desoneração lá de 2004 onde elas deixaram de pagar impostos e ficou combinado de que elas colocariam 1% do seu faturamento nesse fundo. Esse fundo vai estimular práticas de leitura no país, vai ser um mecanismo importante para que o Brasil se transforme numa nação de leitores, nós não somos uma nação de leitores, somos poucos leitores no Brasil e nós temos uma dívida imensa; não só do estado. O estado, o setor privado, a sociedade, as escolas. De uma maneira não instrumental, mas, como fruição, prazer, como foro estético, com tudo aquilo que faz a gente numa dimensão imaginária, de plenitude, não é externo no sentido instrumental, é um uso e presença diferente da leitura e pra isso é preciso uma política de leitura, é preciso um fundo específico pra leitura no país, e esse fundo deve estar saindo da Fazenda e indo pro Congresso e lá a gente espera muito carinho do parlamento pra que a gente possa tramitar com ele com rapidez.

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Quero terminar fazendo justamente uma menção a essa relação com o Congresso, todos os anteprojetos da Cultura vão pro congresso. O Congresso agora passa a ser o epicentro do nosso novo arcabouço institucional da cultura. Porque tudo que nós fizemos esses anos todos, ao longo da revolução que Gilberto Gil representou, tudo isso pode ficar solto se nós não amarrarmos um novo arcabouço institucional pro país. Um Plano Nacional de Cultura como temos um Plano Nacional de Educação. Tá na câmara. Ontem inclusive foi lançado lá em Natal, já vai ser votado. A nova legislação de fomento a cultura democratizando a cultura no país. Um Sistema Nacional de Cultura que permitirá que parcerias como essa aqui de hoje, onde nós, governo do estado e município trabalhamos juntos pela cultura, a cidade de Curitiba. Vindo aqui, debatendo com vocês pra que isso seja uma prática comum em todo país, suprapartidária, cooperativa. Temos que aprovar isso no congresso. O Fundo Setorial de Políticas da Leitura, fundamental, estratégico. Tudo isso é um novo arcabouço institucional da cultura, é um arcabouço estratégico e com isso a gente finaliza uma etapa importante, fecha um ciclo da política cultural do país.

E por ultimo a PEC 150, não menos importante, a PEC 150 é a garantia por parte do Estado de um orçamento mínimo, digno da cultura brasileira. 2% pra Cultura no país, 1,5% pros estados e 1% para os municípios. Hoje o orçamento do Ministério da Cultura é de 0,6%, se for pra 2% por cento o número dobra e metade repassado pras políticas estaduais e municipais. Isso significa um índice de recursos sem precedentes, uma política de estado permanente, onde todo o orçamento anual vai ter que seguir o que está na lei, o que está na constituição, então anotem aí a PEC 150, mobilizem os parlamentares que vocês conhecem, mobilizem o Paraná, porque nós temos aqui a oportunidade de fazer uma grande mobilização nacional pra votar a PEC na Câmara e depois no Senado. Também, não é coincidência, o Marcelo Almeida preside a Comissão que vai votar no Congresso. Estamos com o relatório pronto pra votar. A gente também precisa de publicidade, a gente precisa de discurso público, a gente precisa de mobilização, o que não é fácil. Eles, do outro lado da rua, as Fazendas dizem que isso engessa o orçamento. 2% engessar o orçamento é brincadeira! E outra coisa, o gesso muitas vezes é bom pra pegar alguma coisa que está fraturada, machucada e botar no lugar. É o caso do orçamento da cultura, que está denegrido. No governo Lula a gente conseguiu triplicar, beleza, muito bom! O apoio do presidente foi decisivo pra isso, mas, ainda é pouco e o presidente sabe disso, então a gente precisa agora aproveitar essa oportunidade. Nunca se discutiu tanto Cultura no Brasil, nuca se discutiu tanto política cultural, nunca tivemos tantos espaços como esse, então vamos aproveitar todos os debates e tentar reunir os dados pra que a gente aprove essa que vai ser a grande mudança, a PEC 150 garantindo orçamento público federal de cultura como principal compromisso de fomento à cultura. Porque nós teremos mais centros de cultura, mais centros culturais, mais bibliotecas, mais artistas e produtores do Paraná fazendo o que sabem fazer muito bem. Muito obrigado”.
(Uhuu, uhuuuu, uhuuuu, fiu fiuuuu, uhuu, clap, clap, clap!)

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Fotos: Gilson Camargo

aprovada lei que institui o dia nacional da educação ambiental

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Nascente na trilha para a Praia dos Naufragados. Florianópolis/SC –
Foto: Gilson Camargo

1. APROVADO POR UNANIMIDADE NA COMISSÃO DE EDUCAÇÃO EM 24 DE OUTUBRO DE 2007.
2. APROVADO POR UNANIMIDADE O PARECER NA REUNIÃO DO DIA 20 DE AGOSTO DE 2009.
RELATOR: Deputado VITAL DO RÊGO FILHO – PMDB/PB
PARECER: pela constitucionalidade, juridicidade e técnica legislativa.
3. ENCAMINHADO PARA PUBLICAÇÃO.

PROJETO DE LEI Nº 769/2007.
(Do Sr. Angelo Vanhoni)
Institui o dia 03 de junho como o Dia Nacional da Educação Ambiental.
O Congresso Nacional decreta:
Art. 1º Fica instituído o Dia Nacional da Educação Ambiental, a ser
comemorado, anualmente, no dia 03 de junho em todo o território nacional.
Art. 2º Esta lei entra em vigor na data de sua publicação.

JUSTIFICATIVA
As últimas cinco décadas marcaram toda humanidade com profundas mudanças na relação homem-sociedade-natureza, engendradas a partir da Revolução Industrial. Notadamente com o advento das novas tecnologias de produção e, mais recentemente, com as tecnologias de informação, as sociedades modernas e suas organizações puderam usufruir dos avanços de bens e serviços que estabeleceram novos patamares de acesso e consumo.
No entanto, esse modelo de desenvolvimento, que perdura até os dias atuais, também trouxe ao conjunto da humanidade graves consequências ambientais como o aquecimento global, a poluição e escassez da água, a poluição do solo e do ar com efeitos nefastos à biodiversidade do planeta e o acentuado problema do desmatamento das florestas. Esses fatos ensejaram, nos últimos trinta anos o surgimento de movimentos ambientalistas em todo o mundo com o fim de combater os exageros promovidos pelas ações muitas vezes irresponsáveis cometidas pelo atual modelo econômico.
E, para esses movimentos, corretamente, o tema Educação Ambiental reveste-se da maior mportância, pois, é capaz de otimizar, enraizar e consolidar uma prática ecológico ambiental que deve moldar um novo comportamento individual e coletivo na perspectiva da construção de uma ética ambiental.  Na esteira desse entendimento, a Lei nº 9394/96- LDB – Leis de Diretrizes e Bases, consagrou em seu artigo 27 a Educação Ambiental enquanto tema transversal a ser trabalhado no ensino básico brasileiro. Na mesma direção, os Parâmetros Curriculares Nacionais PCN – não consideram o tema Educação Ambiental uma disciplina com caráter obrigatório, mas, um conteúdo que deve permear a dinâmica de toda a grade curricular. Ao situar o referido tema dentro dentro dessa compreensão, fica, portanto, sugerido que todos os esforços e iniciativas devem procurar construir uma sinergia em torno dessa temática.
Daí porque tomamos a iniciativa de apresentar o presente projeto (o dia 03 de junho foi escolhido em referência a realização nesta data da ECO-92 no Rio de Janeiro) conscientes de que sua repercussão constitui fator importante no processo de consolidação e permanente debate deste tema.

Sala das Sessões, 2007.
Deputado Angelo Vanhoni – PT/PR

mupe – museu de periferia do sítio cercado / curitiba – entrevista com mário de souza chagas – diretor de processos museais do ibram

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Mário de Souza Chagas é poeta, museólogo, professor da UniRio, mestre em Memória Social e doutor em Ciências Sociais. Atualmente dirige o Departamento de Processos Museais do Ibram (Instituto Brasileiro de Museus). Mário Chagas e sua equipe estarão ministrando a oficina “Museu, Memória e Cidadania”, que visa a instalação de um Ponto de Memória no bairro Sítio Cercado, em Curitiba, nos dias 2 e 3 de setembro de 2009, na sede da Associação de Moradores Nossa Senhora da Luta. As inscrições podem ser realizadas por e-mail em museudeperiferia.mupe@gmail.com – maiores informações podem ser obtidas através dos telefones: 41 9211 4915 e 9699 3851.

A entrevista, concedida com exclusividade para o blog, descreve o desenvolvimento das políticas museais brasileiras, as práticas museológicas em curso no país e sua inscrição no cenário internacional.

Blog Vanhoni: Mário, o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) tem poucos meses de existência, mas, sabe-se que era uma meta antiga do governo Lula, criado com o objetivo de formular e atender especificamente a política cultural para todos os museus. Quais foram os avanços frente a estes objetivos e quais são as prioridades para o 2º semestre de 2009?

Mário Chagas - Havia mesmo um anseio antigo para a criação de um instituto, de uma entidade que pudesse articular uma política de museus. É um anseio mesmo anterior ao ano de 2003, anterior a eleição do presidente Lula. É um anseio de toda a comunidade museológica brasileira. O que existia antes de 2003 era uma grande desarticulação do setor. O setor museológico brasileiro estava mobilizado, no entanto, com pouca articulação. Muitos encontros, muitos congressos aconteciam, mas, faltava um alinhavo de todas essas forças, essas energias no campo museológico brasileiro. O que aconteceu foi que por ocasião do lançamento da Política Nacional de Museus, em maio de 2003, permitiu-se que fosse criado um eixo de articulação. Esse eixo de articulação passou a ser a Política Nacional de Museus e logo em seguida foi criado o Departamento de Museus e Centros Culturais, em agosto de 2003. Ainda em 2002, houve uma grande mobilização da comunidade museológica brasileira; um documento foi entregue aos candidatos a presidência da república apresentando os preceitos e as reivindicações básicas do setor museológico. Ainda durante a campanha do presidente Lula, foi produzido pelo Conselho Federal de Museologia um documento chamado “A Imaginação Museal a Serviço da Cultura”. Isso tudo foi encampado pelo governo Lula após a eleição e ali estava já a previsão da criação de um Instituto Brasileiro de Museus. O nome não estava definido ainda, mas a idéia estava bem indicada e amadurecida.

O que se percebia era a necessidade de um orgão que pudesse articular todo o setor museológico. Durante o século 20 as experiências de museus avançaram muito. Para você ter uma idéia, quando a corte portuguesa aportou no Brasil nós tinhamos apenas um museu, que era um museu de historia natural conhecido como Casa dos Pássaros, dirigida por Francisco Xavier a quem o povo carioca apelidava de Chico dos Pássaros. Esse museu chegou inclusive a mandar material para os museus de Lisboa. Quando D. João VI chegou ele fechou este museu e abriu um outro em 1818. Parte do acervo deste museu de historia natural foi para o novo museu criado por ele. Na verdade o que importa ai? Nós tínhamos um museu no Brasil que não estava voltado para o atendimento das camadas populares. Longe disso, ele atendia o interesse dos viajantes, dos nobres da corte e da elite intelectual do Brasil, que era uma elite em formação. Ninguém vai imaginar que os índios bravios, os negros escravos visitavam esse museu. O museu surge no Brasil como um projeto da aristocracia, da família real portuguesa e da aristocracia local. Quando encerramos o século 19 no Brasil, tínhamos em torno de 10 a 12 museus. Uma situação diferente acontecia na França. Na França, no começo do século 19 haviam 20 museus e no final em torno de 600. Por isso na França eles falam que o século 19 foi marcado como o século dos museus. Mas no Brasil isso não foi assim. Nós iniciamos o século 20 no Brasil com 10 ou 12 museus e terminamos o seculo 20 com mais de 2.500. Aí nós temos um fenômeno novo acontecendo. Uma situação extraordinária, e com um detalhe, a maioria absoluta desses museus foi criada a partir da segunda metade do século 20.

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Blog Vanhoni: Hugues de Varine descreve as perspectivas museológicas para o devir, em entrevista concedida a você em 1995, sob três categorias: o museu espetáculo, o museu coleção e o museu comunitário. Como estas diferentes conceituações são vistas pelo Ibram e qual delas se impoêm como prioridade para o recém criado instituto?

Mário Chgas – O Hugues de Varine faz mesmo essa tipologia. O museu coleção é uma herança que vem do século 18, entrando pelo século 19. É um museu que valoriza o acervo, são coleções de caráter universal. Esse é o modelo de museu clássico. Ele valoriza a coleção, se instala num excelente edifício, em geral um edifício de caráter palaciano e trabalha com um público controlado, um público bastante disciplinado.

O museu espetáculo foi uma tendência que começou a ter um pouco mais de presença depois da segunda guerra mundial. Este tipo de museu se projetou com força até os anos 90 e mesmo até a atualidade. Um museu que valoriza especialmente o grande acontecimento expositivo. São as grandes exposições, o museu como um grande espaço de comunicação, mas, com pouco interesse na transformação social e na produção de novas utopias. É o museu do acontecimento, focado na conservação da situação tal qual ela está. Eu diria, é um museu espetáculo, mas ao mesmo tempo um museu conservador. Isso teve o seu auge nos anos 90.

Ao lado destas tendências, gradualmente vem se consolidando uma outra tendência que o Hugues de Varrine chama de museu comunitário. Houveram algumas experiências isoladas nos anos 50. Depois veio se consolidadndo um pouco mais com os ecomuseus. Essa experiência vem se fortalecendo. Quanto mais vivemos num regime democrático, mais possibilidades nós temos de aprofundar a experiência dos museu comunitários.

Eu diria que hoje no Brasil tem espaço para o museu coleção, para o museu espetáculo e também tem espaço para os museus comunitários. O nosso desafio é não abandonar o museu coleção, pois existem coleções que são importantes de serem valorizadas, não abandonar também as tendências do museu espetáculo, algumas grandes exposições são importantes, mas, o desafio é efetivamente trabalhar um campo que está pouco trabalhado, que são os museus comunitários. Eles se caracterizam pela valorização das pessoas. São as pessoas que produzem acervos, que conservam acervos e que transformam também esses acervos. As experiências de museus comunitários valorizam as pessoas, valorizam as comunidades, valorizam o desenvolvimento local sustentável. Tem um outro foco. Os acervos são importantes, mas eles são um pretexto para o desenvolvimento comunitário. Os espaços, os edifícios onde os museus se instalam podem ser importantes, mas, continuam sendo pretexto para o desenvolvimento comunitário. Todos esses elementos: as coleções, os acervos, o patrimônio, o local, tudo passa a ser uma estratégia a favor do desenvolvimento social daquela comunidade.

Esses museus ganham formatos muito variados. Eles podem ter o formato de um ecomuseu, rompendo com a idéia de um museu clássico. Ao invés de edifício, ele trabalha com a idéia de território. Ao invés de coleção, trabalha com a idéia de patrimônio, e ao invés de público, trabalha com a idéia de comunidade ou de sociedade local. Esse é o modelo do ecomuseu a favor do desenvolvimento local. Mas alguns desses museus são museus de território, de percurso. São museus que se instalam nas comunidades sustentados pelas comunidades locais. Ao invés de ter um espaço definido eles ocupam um terrritório, se espalham pelo território, criam percursos e caminhos. É uma tendência que vem ganhando muita força no Brasil. Existem experiências no Rio de Janeiro como o Museu de Favela (MUF) Pavão, Pavãozinho e Cantagalo e o Museu da Maré. Também temos experiências em Duque de Caxias, em Minas Gerais na cidade de Carlos Drummond de Andrade, Itabira, lá tem um museu de percurso, e outros lugares também vão fazendo as suas experiências. Essas são as três tipologias que o Hugues de Varine de fato indica. Eu diria que no Ibram, respondendo agora a sua pergunta de fundo, o nosso desafio é trabalhar a favor do respeito à diferença e o respeito ao direito de ser diferente. O que significa, em ultima análise, garantir o direito às comunidades populares de manterem os seus museus ao seu modo. Um respeito a diferença e a diversidade museal. Existem diferentes tipos de museus e eles são importantes. Museus que podem ser palácios e museus que podem ser instalados em palafitas, museus que podem estar na rua e museus que podem estar na casa. São experiências muito diversificadas.

Ainda ontem eu visitei a favela da Rocinha para um trabalho de museu que está se desenvolvendo, assim como vou visitar o Sítio Cercado em Curitiba agora nos dias 2 e 3 de setembro. Lá na Rocinha se falava no museu itinerante, num museu que seria levado às pessoas quase de casa em casa. Eles falavam no museu cortejo. As pessoas iriam andando pelas ruas, um arauto anunciando, o museu esta chegando! O museu está chegando! Eu achei essa coisa completamente alucinada, no bom sentido. Uma coisa iluminada! Tem uma espécie de baú, o museu vai dentro do baú. Quando o cortejo pára abrem o baú, tiram as coisas, mostram, se apresentam, depois fecham e continuam andando. Essas experiências são notáveis! Nós estamos operando com o conceito de museu de um modo completamente criativo, criador. Estamos muito longe dos modelos clássicos do século 19. Isso é que eu acho interessante.

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Blog Vanhoni: Onde surgiu a idéia dos Pontos de Memória e qual a inscrição desta formulação nas políticas culturais brasileiras?
Mário Chagas - Os Pontos de Memória são uma especialização dos chamados Pontos de Cultura. Uma idéia que eu acho maravilhosa do então ministro Gilberto Gil. Ele mencionava a idéia do do-in antropológico. Era preciso tocar os Pontos de Cultura do Brasil para energizar esses pontos produzindo assim uma maior diversidade cultural. A medida que os Pontos de Cultura foram criados nós passamos a observar ali um trabalho de memória. Alguns deles se especializaram e se transformaram em Pontos de Memória, porque o foco de trabalho estava exatamente na memória. Muitas vezes as pessoas lidam com a memória como se ela fosse algo do passado. A memória não está no passado, ela está no presente. É a invenção do passado no tempo atual, é um olhar criativo. Sem memória não há criatividade. Não há hipótese de se criar absolutamente nada se não houver memória.

Blog Vanhoni: Qual a perspectiva de implantação dos Pontos de Memória, como é o caso do MUPE (Museu de Periferia) no Sítio Cercado, aqui em Curitiba, e que outras localidades no Brasil foram identificadas para receber este programa?

Mário Chagas - O Ministério da Cultura numa parceria com o Ministério da Justiça, desenvolveu um projeto que está no âmbito do Ibram que é o da criação de 11 Pontos de Memória no Brasil. Nós vamos fomentar o desenvolvimento desses pontos em cidades como Curitiba, no Paraná, onde vai se instalar um Ponto de Memória no bairro Sítio Cercado, Rio de Janeiro, Recife, Salvador, Brasília, Belém, Porto Alegre, São Paulo e Vitória

Será uma espécie de experiência piloto para o lançamento no ano que vêm de um edital ainda mais ampliado para a instalação de Pontos de Memória. Eles funcionam como museus sociais. Dentro do Ibram, presidido por José do Nascimento Junior, eu estou dirigindo o Departamento de Processos Museais. Neste departamento temos uma Coordenação de Museologia Social e Educação e ali está o trabalho com estes Pontos de Memória.   Nós temos dois departamentos que estão especialmente focados nisso. O departamento dirigido pela Eneida Braga, que é o Departamento de Fomento, Difusão e Economia de Museus e o Departamento de Processos Museais.

Nós estamos mobilizados no Ibram e no Departamento de Processos Museais para o trabalho no Sítio Cercado. Vamos iniciar uma oficina chamada “Museu, Memória e Cidadania”, esta é uma oficina que tem o sentido de mobilização e sensibilização dos participantes para a temática do museu compreendido como uma tecnologia social e a idéia de um museu cooperativo. Nós estamos trabalhando fortemente na direção da construção de museus cooperativos, museus que também produzem um saber cooperativo, um saber que não é de um indivíduo. Um museu não depende de um indivíduo, ele se constrói no coletivo. Ele precisa do coletivo.

A oficina tem esse sentido, trabalhar a temática museu e trabalhar a memória também na perspectiva da criação. Não há criatividade sem memória. A memória como uma possibilidade também de futuro. Pela memória criamos novas utopias, novos futuros e finalmente a idéia de cidadania. Tanto o museu como a memória são direitos do cidadão. Os moradores do Sítio Cercado tem direito não só a visitar os museus existentes no Paraná, no Brasil e também fora do Brasil, mais ainda, tem direito de fazer o seu próprio museu. Esta é a ideia da oficina “Museu, Memória e Cidadania”. Nós temos outras duas oficinas que são a de Plano Museológico e a de Elaboração de Projetos. Trabalheremos em Curitiba a primeira delas e estamos animados com essa possibilidade.

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Blog Vanhoni: Como o Ibram vem pensando os museus de artes visuais e qual o seu papel no fomento à produção artística nacional nas áreas de artes plásticas, performance, intervencionismo urbano e sites específicos?

Mário Chagas - O Ibram vem também atuando nesta área. Nós temos um interesse bastante expressivo no que se refere a arte contemporânea, até porque no nosso entendimento o próprio museu na forma como nós o compreendemos é um espaço de arte contemporânea. Ele é mesmo uma expressão contemporânea de arte. Determinadas experiências e práticas desenvolvidas no campo da arte contemporânea também foram desenvolvidas no campo dos museus e agora estes dois campos se aproximam. Se de algum modo se pode falar na desmaterialização da obra de arte, podemos falar também na desmaterialização dos museus e a desmaterializaçao dos museus se expressa com essa experiência. Um museu que ganha a sociedade, um museu que se espalha pelas ruas, se espalha pela cidade, os museus de percurso. Neste sentido as coisas estao muito próximas e o Ibram reconhece isso. Estamos buscando justamente o diálogo com os artistas contemporâneos, curadores de arte, colecionadores de arte, mas, principalmente com os fazedores de arte. E compreendendo também que o fazer artístico hoje está muito mais disseminado. Compreendendo que nas comunidades populares existem também fazedores de arte. Na medida em que os museus dialogam com a sociedade de uma forma mais radical, eles se abrem mais para as expressões artísticas. Sabemos o quanto a arte contemporânea tem atuado nesta direção de produzir intervenções urbanas, de produzir estranhamentos na cidade, de estimular que novos olhares sejam feitos para a cidade. Os museus também tem esse mesmo compromisso. Os museus podem e devem atuar nessa direção, da mesma maneira quando se percebe a atuação da arte contemporânea no que se refere aos sítios específicos. Os próprios museus se oferecem como sítios especificos para a atuação do artista contemporâneo. Estas tendencias são muito bem acolhidas nos museus, são tendências muito bem vindas. Interessante ainda é como nos museus sociais, nesses museus de comunidades populares, tem espaço de diálogo com a arte contemporânea. Eu posso citar o caso da Rocinha, eles estão criando 20 unidades de grafitti que vão contar a história da comunidade na favela. É o próprio museu como obra de arte. Isso ocorre também em outros lugares. Eu não estive pessoalmente no Sítio Cercado mas vejo que existem lá expressões artísticas variadas.

Blog Vanhoni: Existe algum estímulo a formação de acervos digitais? De que forma o Ibram vê o espaço cibernético como suporte para as novas práticas museais?

Mário Chagas – Essa questão é fundamental, exatamente porque a internet hoje nos possibilita um tipo de trabalho que era impensável há 10 ou 15 anos atrás, que é essa possibilidade de disponibilização de acervos digitalizados e com isso gerar uma circulação extraordinária. È um tema da maior importância. Uma questão que já está colocada é a repatriação de informações digitais. Muitas vezes não podemos repatriar determinados objetos ou bens que estão no exterior. Pela internet nós podemos acessar informações de uma forma que antes era inteiramente impossível. Além disso podemos pensar o próprio espaço cibernético como um espaço de preservação, como um espaço de investigação e de comunicação. Temos a possibilidade de pensar museus digitais que existem inteiramente em meio digital. Não se confunde um museu digital com um site, um portal. São coisas distintas. Um museu digital existe inteiramente neste meio. Ainda temos a possibilidade também de pensar a relação entre as práticas museais e as novas mídias. Dentro dos museus tem espaço para as novas tecnologias e as novas mídias, para o uso destas teconologias nas exposições como uma nova interatividade. Temos também a compreensão do próprio museu como mídia. Como um meio de comunicação quente e vivo. Numa época em que vivemos de tanta comunicação fria é sempre bom lembrar as possibilidades que o museu traz consigo. Um espaço de encontro, convivência, conversa e namoro. Então é mesmo uma mídia quente!

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Blog Vanhoni:  A cidade do Rio de Janeiro foi escolhida para sediar a Conferência Geral do ICOM em 2013. Como foi este processo?  Como é vista a  museologia brasileira no cenário internacional?

Mário Chagas – No panorama internacional o Brasil tem uma boa presença, uma boa colocação, no que se refere a museologia e ao pensamento museológico. Está se desenvolvendo no Brasil uma tradição de formação de novos museólogos. É uma coisa que chama bastante atenção quando viajamos ao exterior. No Brasil há muitos jovens atuando neste campo porque tem uma formação em nível de graduação.  Hoje nós temos 13 cursos de museologia em nível de graduação. O Paraná está discutindo e elaborando neste momento um projeto pedagógico para a criação de um curso de museologia na Universidade Federal do Paraná. O que é muito bem vindo.

Toda essa força museológica no Brasil e reconhecimento no exterior foi ampliado a partir da Política Nacional de Museus e isso permitiu que nós levássemos ao ICOM (Conselho Internacional de Museus) a candidatura do Brasil para sediar em 2013 a Conferência Geral do ICOM. Essa é uma conferência que acontece de 3 em 3 anos. A próxima será em 2010 em Shangai e em 2013 na cidade do Rio de janeiro a Conferêcia Geral do Conselho Internacional de Museus. Foi uma disputa importante. Estavam participando da candidatura as cidades de Moscou e Milão. O Rio de Janeiro participou e o Brasil ganhou logo em primeiro turno. O Ibram se envolveu diretamente assim como a equipe do ICOM-BR. Foi uma soma de forças, nós participamos e ganhamos. Isso nos coloca numa situação bastante especial e privilegiada. A última vez que houve uma participação da América Latina foi em Buenos Aires em 1986. Ou seja, há quase 20 anos. Isto será muito bom para o Brasil, para a America Latina e também para o Rio de Janeiro. Uma das questôes que agora estamos lidando é o legado museal. Será importante construir para 2013 um legado museal. Quais os benefícios que serão deixados após a realização desta conferência em termos de melhoria dos nosso museus no Brasil, em termos de publicações, em termos de qualificação dos nossos profissionais e em termos de maior articulação com o mundo? Temos aí um conjunto de possibilidades que formam um legado sócio cultural brasileiro na área dos museus.

Nós temos possibilidades e é neste sentido que estamos trabalhando. Possibilidades ao mesmo tempo complexas e singelas. Nós temos condições de trabalhar para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, a favor de uma memória criativa, uma memória que produz futuro, uma utopia social transformadora e coerente com os nossos tempos.

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Blog Vanhoni: Professor Mário, gostariamos de agradecer sua participação em nome de toda e equipe do blog e abrir para as suas considerações finais.

Mário Chagas - O museu é uma ferramenta contemporânea e pode contribuir para a melhoria da sociedade. É evidente que não temos ingenuidade e não devemos ter ingenuidade nenhuma com os museus. Eles são nossa ferramenta de trabalho. Os museus tanto podem servir para a transformação da sociedade como podem servir para a conformação e a domesticação das mentalidades. A questão é o que nós vamos fazer com eles. Eu pessoalmete acredito que podemos trabalhar a favor desta melhoria social, da transformação da sociedade. Nós podemos fazer coisas grandiosas, podemos participar de grandes aventuras com essas máquinas sociais que são os museus.

Fotos: Gilson Camargo

digitalização e convergência das mídias – palestra de james görgen na sede da app sindicato – curitiba – 19/08/2009 – comissão paranaense pró-conferência de comunicação

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A Conferência Nacional de Comunicação, na qual o governo se põe a discutir com a sociedade os sistemas informacionais visando uma reestruturação do setor é a oportunidade que temos para rever os marcos regulatórios das comunicações que irão definir os paradigmas nacionais de liberdade de expressão no século 21. Estivemos presentes na palestra de James Görgen promovida pela Comissão Paranaense Pró-Conferência de Comunicação e transcrevemos os principais temas abordados em sua fala. A extensa matéria que publicamos visa esclarecer sobre a importância das pautas em discussão e instrumentalizar a sociedade para uma participação mais efetiva nos ciclos de debates. James Görgen é jornalista, foi secretário executivo do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) e coordenador de projetos do Instituto de Estudos e Pesquisas em Comunicação (Epcom). Acompanhou ainda o processo de privatização das empresas de telecomunicações e coordenou o projeto de pesquisa Donos da Mídia.

“A democracia das comunicações este ano comemora um momento inédito nos utlimos 30 anos, quando pela primeira vez um governo federal resolve fazer uma Conferência Nacional de Comunicação. Eu queria agradecer o convite da Comissão e de todas as entidades que fazem parte, e dar as boas vindas para quem está chegando nesta discussão, que é tão importante quanto quem já está nela a mais tempo. Queria só fazer um esclarecimento, eu trabalho no Ministério da Cultura, sou coordenador geral de Politicas Audiovisuais do MinC e não vou falar aqui pelo Ministério. Então, por favor, tudo o que vocês ouvirem aqui tem a ver com minhas pesquisas realizadas anteriormente. Eu fui secretário-executivo do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) e coordenador de projetos do Instituto de Estudos e Pesquisas em Comunicação (Epcom).

Esta fala tem muito mais a ver com o acúmulo de conhecimento durante todos estes anos do que com a minha posição atual dentro do governo. Eu pediria que quando vocês forem falar sobre estas coisas ou multiplicar este assunto, que a gente possa fazer esta distinção, porque o Ministério da Cultura ainda está tirando posições sobre como vai atuar nesta conferência de comunicação, apesar de já estar tarde para a gente começar a discutir a questão. A etapa nacional da conferência vai se dar em dezembro, mas todas as etapas acontecem antes e estamos com os prazos mais do que vencidos para estarmos na rua.

Só para vocês terem uma idéia, a Conferência Nacional de Segurança Pública começou há um ano e meio a ser preparada, a de educação e a de cultura, que serão em março do ano que vêm, também estão sendo preparadas desde então. A de comunicação, no entanto, continua nesse impasse. Vocês devem ter visto as notícias nos últimos dias. Primeiramente houve um impasse com os empresários e agora a sociedade civil está um pouco dividida sobre a condução e a composição desta conferência.

A discussão que me pediram para fazer aqui tem a ver talvez menos com a conferência diretamente e mais com uma preparação de vocês para atuarem na conferência estadual e nas discussões que vão ocorrer antes da conferência nacional. A idéia é tentar discutir alguns assuntos sobre digitalização nas comunicações e convergência tecnológica, mas, eu resolvi também fazer uma ligação com as políticas de comunicação do governo Lula, pegando um histórico desta discussão e ao mesmo tempo começando pela digitalização.

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O que temos para discutir? O que está se falando no mundo inteiro dos anos 90 para cá? A famosa convergência tecnológica, que nada mais é do que a união de três setores da economia: a informática, as telecomunicações e a comunicação social começando a confluir num mesmo resultado final. Ou seja, todos os produtos e serviços, as plataformas de mídia e de comunicação digital, de alguma forma contém estes três elementos. Cada vez mais eles são indissociáveis em qualquer intervenção pública usando as mídias. Antigamente conseguíamos separar claramente o que era comunicação social, o que era telecom, o que era telefonia e o que era internet, mas atualmente elas estão muito imbricadas. É muito dificil para os reguladores, seja o estado, o governo, a sociedade civil ou as empresas entenderem o que queremos dizer por convergência. Diversos modelos de convergência são possíveis, diversos modelos de regulação são possíveis e todo o arcabouço jurídico nesta área, que no caso da comunicação social vem lá de 1962, está defasado e começa a ser revisto. Dependendo de quem olha o enfoque é diferente. Se os empresários da comunicação social olham a discussão de convergência eles tem uma determinada posição, os empresarios de telecom tem outra, a sociedade civil também tem opiniões diferentes, assim como o próprio governo. Mesmo ele, está dividido sobre as posições de como resolver este embróglio que a convergência traz para o cenário mundial. Ou seja, na verdade não é uma discussão só do Brasil.

Entender que a digitalização dos anos 1960 não é mais a mesma digitalização dos anos 2000 parece óbvio, mas todo um discurso sobre liberdade de expressão na internet se coloca ainda hoje. Nos anos 60, quando surge a Arpanet, que definiu a internet como a gente conhece hoje, lá dentro da academia americana ou mesmo dentro do Departamente de Defesa Americano, a discussão sobre a liberdade já estava colocada na pauta. Sempre se defendeu uma rede mundial de computadores livre, onde se pudesse trocar informação sem restrições. O que sabemos é que na verdade os protocolos de comunicação, os protocolos tecnológicos de acesso às redes tiveram que ser definidos desde o início, uma vez que os computadores precisam falar a mesma língua para se entender. Na verdade a internet já nasce controlada sob este ponto de vista.

É importante quando a gente discutir internet entender que esta liberdade é uma liberdade relativa, porque desde as tecnologias, que não são neutras, o acesso e as empresas que exploram estas redes, em todas as instâncias existe um controle. Alguém controla isso e a discussão sobre quem controla é a que precisamos fazer neste momento de discutir uma nova plataforma.

Principalmente a partir dos anos 80 e 90 com a miniaturização dos componentes eletrônicos, dos semicondutores, quando toda essa indústria evoluiu criando os computadores pessoais, o desenvolvimento dos “chips”, quando surge a Apple, e depois a Microsoft, começou-se a trabalhar a informática do ponto de vista universal. As tecnologias de informação e comunicação de certa forma se universalizam. A miniaturização conseguiu popularizar e democratizar o acesso e a compra destes equipamentos que se tornaram muito mais baratos e a sociedade foi aos poucos substituindo as velhas técnicas e os mecanismos de comunicação por estes novos processamentos digitais que conhecemos hoje. Então, nos anos 80 e 90, tivemos, além da microeletrônica, o desenvolvimento dos processos de modulação e compressão de dados. Ou seja, colocar a informação digital num maior espaço possível de transmissão e compactar ao máximo os dados a serem transmitidos. Estes foram os grandes avanços que proporciaram à gente chegar onde estamos hoje.

Agumas tecnologias como o TCP/IP, que nasce nos anos 70, mas, se expande nos anos 80. Depois nos anos 90 o www, o surgimento desta interface gráfica que hoje a gente se relaciona. Em 1992 já havia internet aqui no Brasil que eram as DPS. Redes onde se tinha uma tela cor de fósforo verde e trabalhavamos só com texto, as pessoas trocando pequenas linhas de texto, pequenos pacotes de dados, e isso em torno de 10 anos simplesmente foi revolucionado na forma como conhecemos hoje. Eu lembro que em 1987, os primeiros computadores da Apple que chegaram em Porto Alegre, onde eu trabalhei até pouco tempo atrás, vinham já com todo um processamento de dados que os nossos computadores aqui na época sequer conseguiam alcançar. Isto porque tínhamos nos anos 80 uma reserva de mercado de informática que transformou estas mercadorias numa tentiva de produção local e sustituição das exportações aqui no Brasil e, que acabou por um lado atrasando um pouco a indústria nacional neste aspecto. Aí não vai nenhum juízo de valor, apenas uma questão de realidade. Enquanto o resto do mundo acelerava em tecnologia digital a gente estava meio parado e isso acabou atrasando algumas coisas.

Outra discussão importante neste momento foi a expansão das redes de dados, as redes de telecom, das televisões por assinaturas e todo o crescimento do acesso das infovias, das estradas digitais. Ou seja, este tripé: miniaturização, compressão de dados, toda a transição analógico-digital e mais a expansão das redes de acesso e redes de transporte possibilitaram esse salto. Temos que começar a perceber um pouco este pano de fundo para conseguir trabalhar em cima dele com a convergência.

Os anos 2000 nos pegam numa discussão muito mais avançada nas questões conceituais, como algumas que estão colocadas aqui. A neutralidade de rede, que é justamente aquela discussão sobre liberdade nos anos 60, volta agora.

Até que ponto uma operadora de telefonia pode ter controle da rede, colocar programinhas chamados “sniffers”, que farejam os dados que circulam na internet e podem controlar a banda disponível para um usuário a partir do controle destes pacotes? Todo o pacote de dados contém informações no cabeçalho que dizem o que ele é. Ou seja, um vídeo tem isso, um e-mail tem isso, qualquer conteúdo que circula pela rede o tem. Então esses “sniffers”, que são softwares que as operadoras instalam na sua rede, conseguem farejar tudo isso.

Neutralidade de rede diz respeito a isso: até que ponto uma operadora que eu estou pagando tem legitimidade para controlar a rede desta forma? Quando a gente fala de internet, temos que entender que ela não é livre, e cada vez menos ela é livre.

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Falando um pouco de economia da área digital, o que está envolvendo esta área do ponto de vista da cadeia de valores? Estes três setores se fundiram, eles estão trocando plataformas entre si. Os equipamentos digitais acabam puxando toda essa discussão da convergência. Vocês podem reparar que na parte das comunicações o mundo de certa forma continua parecido ao que era nos anos 70 sob o aspecto dos conteúdos informativos e dos conteúdos audivisuais, obviamente que tudo isso digitalizado. Mas por outro lado não, a coisa foi totalmente revolucionada. A lei de Moore fala que a cada um ano e meio um processador atinge o dobro de sua velocidade e o preço dele cai pela metade. A obsolecência programada é outra lei que diz que as economias principais mandam para as economias periféricas as tecnologias obsoletas. É por isso que esse ciclo da tecnologia precisa mudar muito rápido, porque toda planta industrial sediada nos Estados Unidos ou em países da Europa acaba precisando reciclar sua produção e despacha para o terceiro mundo os equipamentos obsoletos.

Por trás deste processo não enxergamos muitas vezes como estas coisas estão misturadas. No Brasil, por exemplo, pegando como estudo de caso neste processo de convergência a tv digital. Eu acompanhei este processo no Comite Consultivo de TV Digital, que passou por essas discussões de uma forma geral de 2003 até 2006 quando saiu o decreto. O foco acabou se concentrando muito na discussão tecnológica, infelizmente, e não no modelo de serviços e nas mudanças que essa tecnologia representava no sistema de comunicação e nas políticas de comunicação.

No Brasil, tanto o governo quanto os empresários e uma parte da sociedade civil acabou caindo neste canto da sereia e discutindo tecnologia puramente, sem discutir de uma forma geral os marcos regulatórios do setor.

O que foi então discutido sobre a tecnologia da tv digital? A questão da compressão e a questão da modulação, que é a grande discussão que a mídia focou. Ou seja, qual é o padrão de modulação que o Brasil iria ter: japonês, americano, europeu ou este modelo híbrido que o Brasil acabou desenvolvendo, mas que não deixa de ser uma derivação do padrão japonês. A discussão ficou muito restrita a estes quatro temas: qual seria a compressão? MPEG2 ou MPEG4? Qual seria a modulação? Os tres padrões internacionais? Qual seria a definição dos canais que iriam ao ar? Em alta definição ou definição standard? Teríamos monoprogramaçâo ou multiprogramação? Hoje em dia a transmissão de televisão ocupa um canal de 6 megahertz dentro do espectro que está dividido para ter um controle do Estado. Uma vez que o espectro pertence a toda a sociedade, o Estado gerencia este espectro e diz quem o pode ocupar e precisa de um ente que regule o espectro radioelétrico e as frequências. Estes são os canais que a gente conhece.

Tudo isto estava em discussão naquele momento e acabou sendo absorvido e engolido pela questão do padrão, quando na verdade seria importante discutir como se iria ocupar esses 6 megahertz de canal? Como isto seria colocado do ponto de vista legal e jurídico? A questão da ocupação deste espectro foi varrida para baixo do tapete e acabou imperando a discussão do padrão, que agora o governo chama de nipo-brasileiro. Isso tudo sob um ponto de vista otimista porque a unica inovação brasileira é o “middleware”, o Ginga, que é o sistema que faz a ligação entre o software e o hardware e que realmente foi um desenvolvimento brasileiro. Foi uma inovação, de fato, mas é um pedaço pequeno e inclusive o middleware até hoje não foi implantado nos decodificadores que estão sendo vendidos nas lojas. Ou seja, não existe um canal de retorno para a transmissão. O “middleware” viabilizaria isso, que é podermos usar a televisão de uma forma interativa nos diversos degraus e padrões que esta interatividade permite.

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Na questão da estrutura o que se discutiu muito foram os três primeiro ítens: a bidirecionalidade (as informações poderem ir e vir a partir do próprio telespectador), a portabilidade (a gente poder carregar isso para todo lado em pequenos dispositivos portáteis) e a mobilidade (que é justamente poder se mover com estas tecnologias). O que ficou sublimado é o compartilhamento. Como tudo isso seria usado de forma mais equânime? Com acesso à sociedade ou não? E esse conceito de rede pública e rede única, que são as estradas digitais do futuro? Ou seja, existirem estradas (fazendo aqui uma analogia com as estradas de rodagem) nas quais o cidadão possa entrar aqui em Curitiba e ir até os Estados Unidos de uma forma pública por uma mesma rede e com um controle maior, no sentido de um controle social desta rede, e não um controle privado como existe hoje, no qual as empresas cobram pedágio. As pessoas trafegam pagando esse pedágio e a maioria da população esta fora desta estrada. Numa estrada de rodagem hoje em dia a gente não questiona mais, mas lá na decada de 20, no século passado, trafegar por uma estrada que foi implantada em parte pelo setor privado era mais complicado numa via federal ou estadual. Isso se repete hoje em dia nas estradas digitais. Trafegar por essas vias não é para qualquer um, infelizmente. A discussão sobre rede pública e rede única iria colocar isso em pauta e também foi abafada, digamos assim.

Do ponto de vista do conteúdo as questões foram menos discutidas. São os serviços públicos na tv digital chamados e-gov, o governo pela televisão. Sendo que o “middleware” não foi acoplado ao sistema nós acabamos não podendo desenvolver o uso destes aplicativos brasileiros, apesar de termos belas experiências na PUC do Rio Grande do Sul e em varios lugares do Brasil, que conseguiram desenvolver aplicativos que hoje em dia estão engavetados porque não existe no decodificador a possibilidade de carregá-los. Os canais de áudio também são pouco explorados. Ou seja, aquela banda de 6 megahertz, assim como ela pode levar 4 programas ao mesmo tempo, ela também pode ser subdividida em 13 portadores, caminhõezinhos que transportam os dados. Não precisa usar aquilo tudo para transmitir televisão apenas. Podemos usar para áudio ou para trafegar dados. Toda esta perspectiva por enquanto está represada na tv aberta, e a tv aberta chega em 98% dos domicílios brasileiros que têm acesso a tv dita gratuita e, ao contrário, no caso do banda larga da internet estamos restritos a 9%, ou 5% no caso da tv por assinatura.

Somando tudo e botando na balança, no caso da tv digital acabamos tendo mais contras do que prós e fomos absorvidos pela política que o governo baixou e que agradou muito às emissoras de tv aberta. Porque o “status quo” da rádio difusão, acaba em 2016 pelo decreto e ele vai estar do mesmo jeito pois não se mexeu no núcleo desta discussão que é o canal de 6 megahertz. Não se subdividiu este canal. Entregou-se para o mesmo atual radiodifusor, a mesma empresa de televisão esses 6 megahertz que hoje em dia passam a ser um latifúndio, porque este espaço suporta muito mais programação que podemos colocar ali. Mas mesmo a multiprogramação e toda a possibilidade que essa tecnologia permite os radiodifusores não quiseram tocar. Hoje eles estão explorando os canais digitais que receberam com monoprogramação. No momento que eles acoplassem esta multi-programação mudaria o modelo de negócios. Portanto a discussão não é a tecnologia. É o modelo de negócios, o modelo de serviços e o modelo regulatório que deveria normatizar tudo isso.

A mensagem que eu quero deixar aqui é justamente essa. Tudo o que vai ser discutido nesta conferência vem de uma decisão de governo que não foi discutida anteriormente. Mesmo nos governos anteriores ou nesse governo a discussão foi capenga. Ela foi sempre podada pelos interesses comerciais das empresas de radiodifusão.

Se a gente for reparar, todas as empresas de tv por assinatura faturam mais ou menos o que a Globo fatura por ano sozinha. Somando todas as empresas de telecomunicações elas faturam 10 vezes mais que todo o mercado publicitário brasileiro. São 120 bilhões por ano, ao passo que o mercado publicitário fatura entre 10 e 15 bilhões. Na verdade, o grande impulsionador hoje em todo o mercado de telecomunicações é movido pela banda larga. As pessoas querem ter internet em alta velocidade e estão pagando por isso. Todo o crescimento que houve na plataforma das tvs por assinatura nos ultimos 2 anos passa pela banda larga. Esse é um outro assunto que a gente tem que ter em mente, que tem a ver com aquela discussão das estradas digitais. Telefonia fixa e telefonia móvel, esse “boom” da telefonia móvel em todo o Brasil, apesar das pessoas usarem basicamente o aparelho só para falar e não para transmitir dados, o Brasil não passou ainda por essa revolução.

A inclusão digital poderia ocorrer também pela telefonia móvel. São esses os grandes atores do momento. Eles passam à frente da radiodifusão, dos jornais, das revistas, e acabam por ditar todo o processo, menos o processo politico que ainda é a queda de braço entre as emissoras de tv e as teles e que acaba sendo mais desequilibrado para o lado da rádio difusão.

O que não deveria faltar numa balança equilibrada nesta discussão, a meu ver, quando observamos a questão de convergência com uma necessária regulaçao? Nós temos as políticas sociais. Daí eu começo a sair um pouco da esfera da tecnologia para tentar fazer a conexão com a discussão de política que interessa para a conferência. A questão da comunicação, a inclusão social através da inclusão digital, o controle público das comunicações ou algo parecido. Algumas pessoas chamam de controle social da mídia, que é um dos grandes tabus na agenda das empresas na conferência. ninguém quer falar de controle social. Este é o lado bom, digamos assim, o governo está bancando a questão do controle social apesar de não usar este nome, mas, vai bancar a agenda em parte desta discussão do controle público, a chamada “accountability”, que nada mais é do que mecanismos que possam dar transparência e uma prestação de contas que os meios de comunicação deveriam fazer à sociedade. Ter programas, ter ouvidoria, ter serviços de atendimento ao consumidor.

Se a água de nosssa casa chega com uma cor estranha e um gosto horrível a gente tem para quem reclamar. Se a energia elétrica falta a gente sabe para quem reclamar, mas a comunicação, sob o ponto de vista da qualidade, a gente não tem para quem reclamar.

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Num outro ponto de vista. Quais seriam os gatilhos regulatórios que conseguiriam proporcionar um pouco esta discussão? Ocorrência monopolística, inclusão social e auto regulação.

A grande discussão nesta conferência vai ser a liberdade de expressão e a auto regulação, e o grande perigo é esse, porque existe todo um discurso de movimento social do ponto de vista do software livre na internet que prega esta liberdade, que a gente acredita, mas por outro lado é o mesmo discurso que as televisões pregam a quarenta anos.
A gente tem que cuidar muito na hora de discutir isso, porque o discurso da liberdade de expressão por si só não resolve o nosso problema. Ou seja, “eu sou livre pra usar a internet como eu quero” se aplica tanto às empresas como às pessoas físicas. Essa é uma discussão que a gente tem que enfrentar, não podemos ficar só com chavões. A rede é controlada, pesadamente controlada por vários tipos de protocolos e tecnologias de governo e de operadoras privadas, e nós temos que discutir a regulação destes caras no mundo da internet. Se a pessoa física pode ter uma liberdade maior, em relação às empresas a gente tem que ter alguns cuidados.

A diversidade cultural está sendo muito abalada com a padronização. As empresas tem que transformar a informação em comodities para conseguir vender bastante. Então eles acabam percorrendo este caminho da padronização de conteúdo. Precisam lançar uma fórmula que possa ser vendida no mundo todo e para isso acabam padronizando o conteúdo. Usam a mesma fórmula “ad nauseam” até cansar todo mundo que está vendo e depois tentam produzir uma outra receita e essa padronização simplesmente abafa a diversidade cultural. De um lado, ela não é regionalizada, a programação que vemos aqui é gerada no eixo Rio – São Paulo. A gente tem que ter consciência disso, que 85% da programação de uma emissora de tv é gerada pela cabeça de rede que é essa geradora que fica no eixo Rio- São Paulo. Mesmo os 15% que sobram para a programação local acabam sendo impregnados por esse modelo “padrão Globo” de qualidade que padroniza o conteúdo de forma geral. A gente tem que tomar cuidado com esse processo porque ele vem abafando a diversidade cultural desde a década de 60, quando a Globo implantou esse padrão de rede vertical. É um modelo que valeu no mundo analógico e eles estão tentando aplicar e implantar goela abaixo no mundo digital. Ou seja, modelo de rede, um sistema blocado onde o afiliado, no caso do Paraná a RPC, retransmite essa programação e por isso ela fatura proporcionalmente a empresa majoritária, que no caso é a Globo e acaba replicando aqui tanto o modelo de negócios quanto o modelo de padronização desse conteúdo.

Todo o ordenamento econômico da área de comunicações pode ser e deveria ser uma agenda da conferência de comunicação. Não estamos discutindo aqui só liberdade, ou só televisão ou só internet. Estamos discutindo todo um setor que fatura quase 150 bilhões por ano, somando todos, e que está à margem, não da lei, mas de uma regulamentação atualizada que dê conta de todas as inovações nos últimos anos e, na verdade, que dê conta de um passivo desses últimos 40 anos, onde a comunicação quase não foi regulamentada. A questão das concessões, de monopólio, oligopólio e do coronelismo eletrônico.

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Panorama atual: onde se chega neste momento de conferência no governo Lula?

Na legislação temos um panorama fragmentado por várias normas defasadas. A questão da complementariadade do sistema estatal privado-público que a constituição permite. A gente cresceu e expandiu muito o sistema privado, temos uma hipertrofia deste sistema.

Qual é o conceito de comunicação publica? O governo ainda nos deve este conceito e também à sociedade. A gente tem dificuldade neste debate. Qual é a fronteira desta questão? Os marcos regulatórios são anacrônicos, sem uma ponte com a convergência tecnológica e a convergência econômica dos grande conglomerados que passam a margem dessas normas.

O embate em torno do PL29, por exemplo. De 2007 para cá ele vinha forte e agora subiu no telhado. Uma lei geral das comunicações adiada. Ou seja, esse marco regulatório seria uma lei guarda chuva para tudo isso, que é o código brasileiro de telecomunicações de 1962, que por mais defasado que esteja, naquele momento era bastante inovador. A manutenção do “status quo” da rádio difusão até 2016, a manutenção do “status quo” das teles fixas que tiveram suas conceções renovadas até 2025 e o governo o ano passado entregou para eles o “backhaul” das redes de telecom. O que é “backhaul”? Se a gente for comparar com o corpo humano, o “backbone” seria o tronco principal, a “last mile” que é a rede que chega na nossa casa seria a mão e o braço seria o “backhaul”. Em outra analogia, o “backhaul” é justamente a rede ou infovia estadual que faz a ligação entre a rodovia federal e a rodovia municipal. Isto está nas mãos de redes sem controle do Estado ou parcialmente controlado pela Anatel ate 2025. Essa discussão também não foi pública. O governo federal trocou obrigações que as prestadoras de telefonia fixa tinham, que era a de instalar orelhões e outras obrigações de universalização em troca de banda larga nas escolas.

A banda larga é o grande filão de negócios. Vamos fazer inclusão digital, mas inclusão digital tem uma conta. Quem é que paga esta conta? Estas cidades digitais que estamos criando, ao invés de serem uma rede pública e única, como eu estava defendendo, são entes privados que estão sendo colocados, e quando o governo vem com a discussão de reavivar a Telebrás que era um núcleo estatal até 1998, toda a mídia cai em cima. Por que? O filé mignon da rede está sendo operado pelas empresas privadas.

Os nossos satélites, a segurança nacional está nas mãos de uma rede privada que tem sede no México, que é a Telmex, que controla a Embratel e a Net. A gente tem que ter isso muito em conta quando for discutir comunicação na conferência e mesmo discutir comunicação na casa da gente. Que estas redes tem dono, que esta liberdade é uma liberdade vigiada.

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Qual seria a nossa agenda para ir a uma conferência de comunicação?

Definir melhor quais são os conceitos de comunicação neste momento. O que é comunicação pública, o que é comunicação estatal, o que é comunicação social e o que é comunicação interpessoal. Usamos a rede telefônica para passar e-mails. Isso é comunicação interpessoal, ou se passar uma newsletter do sindicato passa a ser comunicação social? A lei não tem resposta para isso. Quase no mundo todo não há resposta para isso.

Produção nacional e produção independente:

Produção própria das emissoras ou de produtores independentes. Que as emissoras sejam obrigadas a comprar conteúdo das produções independentes. Isso ocorre em vários países da Europa, programação regional. Num país do tamanho do Brasil a programação regional daria outra cara e outra cor para esta discussão de comunicação.

Direitos autorais:

Esse é também um assunto muito delicado. No ano que vem o Ministério da Cultura vai estar reformando a lei do direito autoral e a conferência vai ser um palco para os empresários baterem. Eles não querem mudar nada na lei do direito autoral. Quem usa software livre sabe muito bem o que o Creative Commons, o copyleft e todos estes conceitos causaram no mundo inteiro em relação aos conteúdos de mídia digital. A lei de direito autoral é sim um assunto muito importante para ser debatido na conferência.

Camada estrutural:

Toda esta parte das estradas digitais, a desagregação das redes. Sobre uma rede de telecomunicação são transportados diversos serviços, a nação trata isso como uma coisa só e inclusive deixa serviços fora da regulação. Desagregação de rede é justamente isso, tratar os desiguais de forma desigual. Infraestrutura e camada de transporte é uma coisa e, a camada de serviço é outra. Isso é muito importante no caso das operadoras que fazem tudo. Por exemplo, o Terra é um provedor de internet mas ao mesmo tempo é uma operadora telefônica, e vende tudo de uma forma casada como se fosse uma coisa só. Desagregar a rede é um pouco desse conceito que está em jogo.

A discussão de rede pública e rede única:

Singapura e alguns paises da Ásia estão estatizando de volta as suas redes, e não tem nenhum pecado nisso. Dando um exemplo de novo da questão analógica aqui. Nos anos 20 toda a implantação da rede elétrica e rede de saneamento no Brasil foi feita por empresas privadas, muitas delas estrangeiras, britânicas e americanas. Em seguida elas passam a explorar só o filé mignon e o Estado percebe que isso é insuficiente, vai lá, encampa estas empresas, estatiza as redes para poder universalizar o serviço. Hoje a gente tem saneamento e energia elétrica de uma forma universalizada no Brasil. Não há mal nenhum que ciclicamente, historicamente, o Estado volte a se apropriar destas redes, pagando por isso como uma forma de conseguir democratizar o acesso. Rede pública e rede única não é uma forma de stalinizar, como dizem alguns, as estrutras de comunicação.

Muitas vezes o Estado tem que fazer um papel que as empresas não cumprem. Que é o de oferecer um serviço barato de qualidade para a maioria das pessoas. Quando as empresas param de fazer isso o Estado geralmente intervém.

Vamos ver nos próximos momentos por que nós estamos chegando a este colapso. Temos redes privadas exploradas por operadoras que não estão atendendo o conjunto da demanda. Acabamos de falar do “backhaul” das escolas e o interior do Brasil continua sem internet. Como fazer isso, como universalizar o acesso? Porque não permitir ao contribuinte pagar uma taxa menor e ter esse acesso de forma ilimitada? É uma discussão que se coloca. Em alguns países isto é feito por uma empresa estatal ou mesmo pública. Por que aqui precisa ser necessariamente privada? Hoje a legislação não permite que o Estado entre na seara destas operadoras. Elas exploram esta área de uma forma totalmente monopolista.

A discussão das cidades digitais:

O acesso público gratuíto como se fosse uma estrada onde os veículos transitam. Nós pagamos imposto para transitar de automóvel, o IPVA, pagamos imposto para ter uma casa, o IPTU, e pagamos taxas para a limpeza urbana. Por que não poderíamos pagar imposto para ter um serviço de qualidade de banda larga? Uma família brasileira para ter banda larga, um pacote bom de tv por assinatura, telefonia móvel e telefonia fixa, gasta pelo menos 300 Reais por mês. 3.600,00 Reais por ano! Por que não pagar bem menos do que isso em imposto e ter o mesmo serviço?

A camada econômica:

Definição de poder de mercado destas empresas. Até onde estas empresas podem ir? No caso da comunicação é preciso ter um choque de capitalismo no Brasil. A competição poderia ser colocada. Sequer o capitalismo chegou na área de comunicação. As empresas aqui são operadas de uma forma familiar arcaica, quase feudalista. É meio complicado a gente falar que no Brasil um grupo como a rede Globo, somando todas as afiliadas, acaba tendo 80% do mercado! Isso em qualquer país já teria sido coibido e punido, mas aqui no Brasil é tolerado e a gente precisa discutir isso.

Política de preços para os serviços de telecomunicação:

Hoje isso é totalmente livre. A Anatel mal controla esses pacotes, por isso os preços variam tanto e na maior parte das vezes são exorbitantes. Desverticalização da cadeia de valor nesta área. A mesma empresa que produz conteúdo e transmite conteúdo vende este conteúdo. Isso tem a ver um pouco com desagregação e é quase impensável em qualquer outro setor. Na produção de chocolates por exemplo, imagine que a mesma empresa controlaria a produção do chocolate, a distribuição do chocolate e o ponto de venda do chocolate! Imagine pensar isso do ponto de vista dos orgãos antitruste e defesa da concorrência! A comunicação faz isso, ela produz conteúdo e transmite conteúdo, só não chega a fabricar equipamentos.

A Camada regulatória:

Os indicadores de qualidade. Hoje em dia a qualidade do conteúdo das comunicações não está em questão. Não existem indicadores que controlem isso para que a sociedade possa reclamar e para que o Estado possa intervir.”

Fotos: Gilson Camargo

entrevista com juca ferreira – ministro da cultura

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O ministro da Cultura, Juca Ferreira concedeu, por telefone, entrevista exclusiva para o Blog Vanhoni. As imagens que  ilustram a matéria se referem a última visita do ministro a Curitiba, em abril de 2009, por ocasião da assinatura do convênio do programa Mais Cultura com o Governo do Estado  do Paraná, e visitas a Mallet, Irati e Prudentópolis.

Link para o áudio integral da entrevista.

Blog Vanhoni:  Em primeiro lugar gostaríamos que o senhor falasse um pouco, a pedido do deputado Angelo Vanhoni, a respeito das mudanças a partir do governo Lula, no cenário cultural brasileiro.

Juca Ferreira: Quando nós chegamos em 2003 no Ministério ficamos surpresos e perplexos com a desorganização, a desestruturação e a fragilidade da área cultural no governo. O Ministério não tinha relevância, não estava a altura da grandeza da cultura brasileira, da diversidade cultural brasileira, não conseguia lidar com os principais aspectos dos processos culturais, ou seja, não dava nenhuma contribuição e o pior de tudo é que foi construído um mito que tem origem em toda essa afirmação de uma ideologia neoliberal no mundo, de que o estado não tinha papel na cultura. O grande slogan que nós encontramos aqui era “Cultura é um bom negócio”, e a idéia era repassar a responsabilidade do desenvolvimento cultural para a área privada, então nós começamos um processo longo. Já no discurso de posse do ministro Gil, ele afirmou que interessava ao Ministério toda a produção simbólica brasileira, que cultura não é só arte, muito menos arte consagrada, e que nós teríamos uma responsabilidade imensa de montar relações do Ministério com todo o corpo simbólico do país. Manifestações tradicionais, jogos eletrônicos, produção audiovisual e nós fomos estruturando esse trabalho em três dimensões: Cultura como fato simbólico, como necessidade básica do ser humano, não há como pensar o ser humano sem pensar na necessidade de simbolização, que é isso que nos diferencia dos outros animais; depois Cultura como direito de cidadania, todo brasileiro tem direito de ter acesso pleno à cultura, coisa que não acontece e, terceiro, fortalecer a economia da Cultura, que é uma economia importante. Essas três dimensões nós fomos estruturando dentro de uma política pública, dentro de uma idéia de que o Estado tem obrigação, na medida em que é uma necessidade básica o Estado passa a ter obrigações.
Todos estes anos a gente reestruturou o Ministério. Conseguimos sair de 0,2% do orçamento para em torno 0,8%. É um crescimento significativo, mas muito insuficiente, por isso que a gente não comemora. Conseguimos ampliar a renúncia fiscal, conseguimos dinamizar o Ministério. Hoje o Ministério de fato se relaciona com aspectos estratégicos da produção simbólica brasileira. Estruturamos o projeto Cultura Viva, que criou os Pontos de Cultura, que é um reconhecimento de que a sociedade faz cultura independente do Estado. São mais de 100 grupos sociais existentes, às vezes em condições sociais absolutamente degradadas, nas favelas, nas periferias, nas regiões metropolitanas, nos assentamentos rurais, nas tribos indígenas. Nós começamos a estimular, fomentar e proporcionar recursos para a ampliação destas experiências. Estruturamos a área de patrimônio e memória, encontramos o “Monumenta” praticamente inerte (um convênio que foi estabelecido com o Banco Interamericano e que não tinha vida). Nós hoje estamos atendendo quase todos os Estados do Brasil, financiando a recuperação de imóveis e de centros históricos, inclusive imóveis privados. Criamos o Instituto Brasileiro de Museus, assumimos a responsabilidade de contribuir para todos os museus, os públicos e os privados, considerando que são de utilidade pública, estruturamos uma política na área de inclusão digital. Nós estamos disponibilizando computadores, banda larga, e treinando grupos culturais para se expressarem, para se comunicarem via internet.
Estou dando um apanhado muito sucinto, mas de alguma maneira o Ministério mudou a qualidade da relação, deu visibilidade e estamos trabalhando também na área de regulamentação. As leis que regem a cultura empurraram mais da metade da cultura para a ilegalidade, para a informalidade e é preciso incorporar, porque é uma economia importante, é uma atividade básica, é fundamental para a sociedade. Então é da responsabilidade do governo, do legislativo e dos produtores culturais criar um ambiente favorável para a institucionalização do conjunto da cultura brasileira.

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Blog Vanhoni: Segundo informações do próprio Ministério da Cultura, apenas 14% da população brasileira vai regularmente aos cinemas, 96% não freqüentam museus, 93% nunca foram a uma exposição de arte e 78% nunca assistiram a um espetáculo de dança. Qual o alcance do Vale Cultura dentro deste cenário e de que forma contribuirá para alterar estes índices?

Juca Ferreira: Como eu disse, nós estamos trabalhando a cultura não só como fato simbólico mas como um direito de todos os brasileiros. Nós sabiamos, mas nunca havia sido feita uma pesquisa desta natureza. Nós demandamos ao IBGE e ao IPEA e a pesquisa apresentou números “dantescos”. O Brasil não consegue incorporar em nenhuma das atividades culturais, excluindo apenas a tv aberta, nem 20% dos brasileiros. Um pouco mais de 5% dos brasileiros entrou alguma vez num museu. Então não há possibilidade de você ficar financiando a produção cultural se o povo não tem acesso. É preciso, além de financiar a produção cultural, estimular esta produção. A gente tem que abrir as portas dos teatros, dos cinemas, criar possibilidades das pessoas terem acesso a livros. Nós estamos agora zerando, até o final do ano, o número de municípios sem bibliotecas no Brasil. Esse processo está criando vários mecanismos: financiamento direto à produção cultural popular, estímulos a barateamento dos custos dos produtos culturais que nós financiamos.
Criamos um instrumento agora, o Vale Cultura. É a primeira vez no Brasil que se financia o consumo cultural. Este mecanismo, quando estiver em uso pleno, vai beneficiar em torno de 14 milhões de pessoas, vai disponibilizar o consumo cultural para esse número de brasileiros. Nós vamos injetar 2 bilhões e 7 milhões por ano, quando estiver plenamente em uso, e com a incorporação do dinheiro dos empresários e os 5 Reais que cada trabalhador dará para ter acesso ao Vale Cultura, a injeção pula para 7 bilhões de Reais. Esse recurso vai irrigar toda a produção cultural brasileira, vai facilitar negócios culturais, livrarias, teatro, cinema perto de onde os trabalhadores moram, eliminando uma concentração terrível que é a concentração territorial, e vamos estimular também, por exemplo, a compra do cd legal no lugar do cd pirata. As consequências são altamente positivas, mas a maior de todas elas é que nós estaremos estimulando o consumo cultural.

Blog Vanhoni: Aqui no Paraná nós realizamos junto ao mandato do deputado Angelo Vanhoni dois debates sobre a lei Rouanet nessa primeira etapa de consulta pública e dos debates que o Ministério realizou. Gostaríamos de saber, juntamente com os artistas e entidades que nos procuram, quando chegará o novo texto e quais as novidades que ele traz?

Juca Ferreira: O projeto já saiu do Ministério e está na mão da Casa Civil. Eles fazem este trabalho de revisão sempre, porque é uma lei que vai ser enviada ao Congresso. As novidades são, basicamente, que nós não vamos mais ficar dependendo da renúncia fiscal, que é um mecanismo que não se presta para atender a toda a cultura brasileira. O Fundo Nacional de Cultura vai se tornar o principal instrumento. Nós vamos modernizar o Fundo, setorializá-lo. O Vale Cultura é parte da reforma, é um outro mecanismo que a gente está criando. Vamos fortalecer os fundos privados, que existem há 18 anos e ainda nenhum aconteceu, estamos criando vantagens para a ampliação destes fundos. Que estes fundos etimulam o investimento privado e o financiam, e a renúncia fiscal, que nós vamos manter, mas, vamos reformatar para virar uma verdadeira parceria publico/privada. Porque como é hoje o Governo entra com o dinheiro, se responsabiliza por todos os procedimentos burocráticos e quem decide o que deverá ser financiado é a área privada. Então esta é uma divisão injusta e ruim. Você permite a privatização do dinheiro público, permite o excesso de concentração. Por exemplo, 80% do dinheiro vai para duas cidades no Brasil: Rio de Janeiro e São Paulo, e dentro destas duas cidades, apenas 3% dos proponentes ficam com mais da metade do dinheiro da Lei Rouanet. Quer dizer, é um escândalo! É falta de controle do dinheiro público, é privatização do dinheiro público e não cumpre a finalidade que é a de irrigar e fortalecer a produção cultural brasileira.

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Blog Vanhoni: Na época da consulta pública e dos debates a proposta recebeu elogios, porém, provocou muitas polêmicas. Como o senhor avalia a incorporação das propostas decorrentes da consulta pública dentro do texto que será encaminhado ao Congresso?

Juca Ferreira: Nós recebemos mais de 2 mil propostas de aprimoramento do texto, que é um sucesso absoluto de uma consulta pública. É evidente que tem gente que é contra a reforma. Quem ganha na situação atual, esses 3% de proponentes não querem mudar porque eles tem acesso a todo o dinheiro. Tem instituição privada que recebe mais dinheiro pelo mecanismo da renúncia, onde a gente paga até o papel higiênico, do que por exemplo a Funarte, que tem a obrigação de atender às demandas e necessidades do teatro, da dança, das artes visuais, da música e do circo no Brasil inteiro. Então é um escândalo, e é evidente que tem pessoas contra. Mas mesmo assim, todos os argumentos pertinenentes que foram levantados nós absorvemos. Por exemplo, a necessidade de explicitar os critérios públicos já no Projeto de Lei, a necessidade de proteger a renúncia fiscal para que ela não entre em normativas posteriores a criação dela e que a restringem. Vários aspectos nós absorvemos, nós abrimos pra valer esse debate, fizemos uma escuta rigorosa, somos responsáveis com o processo que nós deflagramos. Neste período trabalhamos em cada uma destas 2 mil propostas e as absorvemos o máximo possível. O projeto, todos haverão de convir, é muito mais denso que a minuta inicial que colocamos para consulta e acho que hoje nós temos uma base de apoio enorme no Brasil inteiro. Fora do Rio de Janeiro e São Paulo é quase unânime. Tem um pouquinho, dois ou três produtores culturais de Minas que tinham vantagens no sistema atual e, no Rio de janeiro e em São Paulo já temos um quadro fartamente favorável, mas, tem uma polêmica estabelecida porque é aí que ficava quase todo o dinheiro da Lei Rouanet, para pouquíssimos.
Tem uma novidade na Lei Rouanet que está indo para o Congresso, na proposta de substituição da Lei Rouanet por um novo sistema que é muito boa. Quase a metade do dinheiro do Ministério que nós vamos alocar no Fundo Nacional de Cultura para ser distribuído para promover a produção cultural no Brasil, 47% vai ser repassado fundo a fundo para os municípios e estados dentro de uma proporcionalidade que considere a densidade demográfica, o grau de desenvolvimento cultural, a estruturação da sua área cultural institucional. Então é uma grande novidade. Nós estamos dando ouvidos ao Sistema Nacional de Cultura através desse novo projeto.

Blog Vanhoni: Em Curitiba, assim como em vários municípios e estados brasileiros, a sociedade civil se mobiliza para a Conferência Nacional de Cultura. Qual é a expectativa do Ministério na organização das etapas estaduais e municipais? Quais os mecanismos que a sociedade civil dispõe junto ao Ministério para garantir sua participação no processo de organização destas etapas?

Juca Ferreira: Em relação a Conferência, essa vai ser a Conferência mais importante, a última do Governo Lula. Nós vamos colocar em discussão todos os mecanismos criados, todo esse processo de institucionalização da cultura brasileira, que nós tivemos a preocupação de além de desenvolver as políticas, criar normativas legais que pudessem de fato desafogar os procedimentos. Normativas que garantam o exercício pleno do direito do autor, normativas que garantam a livre expressão no Brasil. Nós estamos trabalhando um corpo legal bastante amplo que vai do Plano Nacional de Cultura, modificação da Lei Rouanet, a PEC 150 que é uma iniciativa do Congresso mas conta totalmente com o nosso apoio. Estamos trabalhando juntos. Estamos trabalhando a lei da modificação do direito autoral no Brasil para dar vida de fato ao direito autoral no Brasil. Esse conjunto, não só as políticas, como as normativas serão colocadas à discussão dos conferencistas, para que a gente tenha um encontro bastante positivo e é um exercício democrático fundamental essas consultas permanentes através das Conferências e outros mecanismos que a gente cria. A gente não faz nada sem consulta dentro do Ministério, porque não acreditamos em política pública construída dentro de gabinete.

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Blog Vanhoni: Neste momento começa a mobilização para as etapas municipais e estaduais da Conferência Nacional de Cultura, qual é a recomendação do Ministério para estas etapas?

Juca Ferreira: São várias, mobilizar todos os setores, evitar apadrinhamentos, mobilização parcial, fortalecimento de apaniguados. Primeiro isso; criar de fato um fórum que seja um ponto de intersecção de todos os interesses, todos os conceitos, todas as atividades culturais. Depois temos que estruturar de tal maneira que a começar da base do município, e depois nos estados e nas conferências regionais, a gente tenha um processo de aprofundamento dos debates. É preciso compreender que a cultura está acima de todos os dissensos ideológicos e político partidários. Há a possibilidade de se construir uma política pública de cultura que seja uma liga, uma argamassa que nos una a todos e possibilite sustentar o edifício da democracia brasileira, e possibilite que o dissenso se dê num ambiente de coesão.

Blog Vanhoni: Temos pela frente também a Conferência Nacional de Comunicação que dialoga com o campo da cultura e vice-versa. A Cultura Digital é um dos temas transversais entre estas pastas. Apesar dos esforços do Ministério da Cultura em estimular o software livre, um grande obstáculo para a inclusão digital no Brasil ainda é o monopólio das prestadoras de serviço de acesso à internet. O Mandato acompanhou o lançamento do Fórum da Cultura Digital Brasileira e gostaríamos de saber qual é a sua avaliação sobre como as pautas da Conferência Nacional de Cultura podem intervir neste processo?

Juca Ferreira: Olha, o Ministério da Cultura tem estado ativamente trabalhando nas pautas de comunicação. Foi o Ministério que estimulou o fortalecimento e a criação de uma rede nacional de tvs públicas. A TV Brasil nasce de uma experiência que foi induzida e estimulada pelo Ministério, que foram os seminários e encontros das tvs públicas, o Fórum de tvs Públicas. Nós temos não só exercitado uma política de inclusão digital como nós temos assumido a discussão. Estamos conversando com o Senador Azeredo no sentido de modificar o projeto de lei, que consideramos negativo, de regulação da internet, que ele está trabalhando no senado, e nós achamos que tem um campo enorme para avançar na área da comunicação. Porque o monopólio não é só esse que você referiu. Nós temos dificuldade de incorporar o cinema brasileiro nas tvs. As tvs comerciais não compreendem a importância de assimilar a produção independente em suas grades de programação. restringindo praticamente, algumas evidentemente, à sua própria produção, coisa que nenhum país democrático permite. Então a conferência de comunicação é estratégica. Talvez seja, nos próximos meses a principal atividade que pode empurrar a democracia brasileira mais adiante.

Blog Vanhoni: Ainda sobre o software livre, de que forma, no seu entendimento, as plataformas livres podem estimular o desenvolvimento na área da cultura?

Juca Ferreira: Nós temos utilizado no Ministério o software livre. Nós achamos que o software proprietário cria uma fidelidade injusta, incabível. Você não pode aprimorar o software, você fica prisioneiro de outras ferramentas. É uma economia que cria uma indução à fidelidade a determinadas empresas. Eles compatibilizam um software com outro, com outro e com ferramentas, e você acaba prisioneiro de uma economia e fica incapaz de desenvolver sua própria autonomia e cobram muito caro por esse serviço. Na área do software livre houve um desenvolvimento enorme, porque houve uma opção política não só no Brasil e do governo, mas no mundo inteiro, de áreas empresariais no sentido de ir quebrando esses monopólios tecnológicos dentro da área da informática. Não é só o Ministério da Cultura que usa o software livre na área do governo, ele é fartamente usado. Foi uma opção política do governo. Isso disponibiliza e permite que cada usuário modifique, adapte, aprimore esse software, e não fique prisioneiro de uma cadeia de serviços, podendo conectar com vários outros serviços.
É uma ferramenta importante, é uma opção política importante, que tem possibilitado a informatização mais rápida, mais veloz, porque o preço é proibitivo desses softwares proprietários. Com isso a gente está criando uma possibilidade de acesso ao meios digitais e à digitalização de acervos e expressão artística e cultural dentro do meio digital, criando hoje um campo de cultura digital muito forte no Brasil, criando um campo de informação digital pulverizado, não mais de poucos controlando a comunicação no Brasil. Acho que nós estamos vivendo já, apesar do acesso ainda ser restrito, pois são poucos os brasileiros que tem acesso aos computadores. A grande maioria ainda não tem, nem em casa, nem no trabalho, nem na escola. Mas a política do governo Lula é democratizar ao máximo possível o acesso a informática. O presidente inclusive tem uma meta de disponibilizar o acesso livre em banda larga para todas as escolas públicas do Brasil. Então nós estamos vivendo um momento muito importante, que evidentemente vai se expressar dentro da Conferência de Comunicação, se expressa já nas políticas, inclusive nas políticas de cultura, e evidentemente que, se você cria um território que vai demandar conteúdos audiovisuais numa quantidade inimaginável hoje, porque as pessoas vão deixar de estarem vinculadas a uma programação feita por poucos e todos vão querer fazer sua propria programação, assistir o que quiserem na hora que quiserem, então isso tudo abre as portas para nos tornamos um grande produtor de conteúdos audiovisuais, e isso passa pela digitalização de toda a nossa produção.

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Na igreja de São Josafat, em Prudentópolis, acompanhado pelo roco Efrem Krefer.

Blog Vanhoni: Ministro, muito obrigado, estamos chegando ao fim do nosso tempo previsto. Gostaríamos que nestes últimos minutos o senhor fizesse suas considerações finais.

Juca Ferreira: Eu quero primeiro agradecer a entrevista, dizer que o deputado Vanhoni é um grande parceiro do Ministério da Cultura, é um deputado que tem a cultura como parte de suas atividades parlamentares. Ele tem ajudado a fazer do parlamento um aliado das demandas do segmento cultural, não só nessas áreas que nós abordamos aqui, mas, como por exemplo, eu como ministro da cultura visitei uma área do Paraná que é colonizada por eslavos, por ucranianos e poloneses, e foi ele que me induziu à visita e eu saí muito agradecido, porque amplia nosso campo da diversidade cultural brasileira. O Brasil tem uma origem cultural que foi um amalgamento, como diz Jorge Mautner, de negros, índios e portugueses, mas hoje, no século 21 e desde o início do século passado, nós tivemos fluxos migratórios que multiplicaram essa complexidade cultural brasileira. Hoje nós temos mais libanenses no Brasil do que no Líbano, quase 30 milhões de italianos e descendentes de italianos vivendo no Brasil, a maior colônia japonesa no exterior, temos mais de 500 mil ucranianos no Brasil e uma quantidade ainda maior de poloneses, alemães, ou seja quase todas as culturas do mundo hoje contribuem para esse adensamento cultural do Brasil.
Eu diria que o Brasil é o maior laboratório interétnico e multicultural do mundo, e isso com o ponto de partida generoso que o Brasil tem de incorporar a todos e de criar um ambiente, não só que possibilita que a pessoa seja o que quiser ser, tenha a  identidade cultural que queira ter, que tenha a ver com seus antepassados e ao mesmo tempo cria um diálogo intercultural, um amalgamento, uma mestiçagem cultural, uma sociedade aberta para incorporar todos esses valores, esses signos que são produzidos por essa complexidade. Eu acho que o deputado Vanhoni acertou em ressaltar para o Ministério da Cultura e para o ministro a importância de incorporar plenamente essa comunidade de eslavos que vivem no Paraná, e ele de alguma maneira representa eleitoralmente essa comunidade, entre outras que ele representa, e o Ministério da Cultura é eternamente agradecido, porque nós temos trabalhado o tempo inteiro para fortalecer a diversidade cultural brasileira, mas chegou a hora de no próprio discurso nós incorporarmos esse adensamento que houve durante todo o século passado e que hoje faz do Brasil esse país com essa riqueza, que eu diria ser infinita culturalmente.

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Angelo Vanhoni, o deputado estadual Felipe Lucas, Juca Ferreira e Luiz Fernando de Almeida, diretor do IPHAN, na igreja de São Miguel Arcanjo, em Mallet, em 28 de abril de 2009.

Fotos: Gilson Camargo

aprovada lei que institui o dia nacional da comunidade ucraniana

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Foi publicado hoje no Diário Oficial da Camara dos Deputados o Projeto de Lei 4324/2008 que institui o Dia Nacional da Comunidade Ucraniana.
A partir desta data, contam-se 5 sessões ordinárias do Plenário para recurso caso algum deputado queira se manifestar. Após essas 5 sessões o Projeto retorna para a Comissão de Constituição e Justiça para redação final e posterior encaminhamento para a aprovação do Senado.
Após analisado e aprovado no Senado segue para a assinatura pelo Presidente da República e publicação no Diário Oficial da União.

PROJETO DE LEI N.º 4324/2008
(Do Sr. Angelo Vanhoni)
Institui o dia 24 de agosto como o Dia Nacional da Comunidade Ucraniana, com fundamento no § 2.º do Art. 215 da Constituição Federal.
O Congresso Nacional decreta:
Art. 1o É instituído o dia 24 de agosto como Dia Nacional da Comunidade Ucraniana, passando a integrar o calendário oficial da República Federativa do Brasil.
Art. 2o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

JUSTIFICATIVA
O Brasil abriga hoje a maior comunidade ucraniana da América Latina, contando com aproximadamente 500 mil pessoas, entre ucranianos e descendentes, 75% deles vivendo no Estado do Paraná com destaque para os municípios de Prudentópolis, Mallet e a região metropolitana de Curitiba. A língua ucraniana ainda é falada pelas gerações mais antigas, todavia a maioria dos jovens atualmente fala apenas o português. Os ucranianos formaram o segundo maior contingente eslavo a imigrar para o Brasil. A imigração de ucranianos para o Brasil começou efetivamente nos anos de 1895-96. Em apenas dois anos, cerca de 15 mil ucranianos desembarcaram no Brasil. A grande maioria foi encaminhada para o Paraná, onde se tornaram pequenos agricultores. Até a década de 1920, aproximadamente 50 mil ucranianos imigraram para o Brasil, a maior parte proveniente da Galícia, região ocidental. O número de imigrantes, de fato, deve ter sido ligeiramente maior, tendo em vista que parte da Ucrânia estava dominada pelo Império Austro-Húngaro e pela Polônia, e muitos imigrantes possuíam passaporte austríaco ou polonês.
A permanência dessas culturas representa uma ligação mais afetiva do que efetiva com os países de origem, em sociedades quase isoladas na vastidão do nosso território. No caso dos ucranianos, prevaleceu a religiosidade como fator de coesão interna e tradição cultural, embora traços laicos também tenham permanecido. Em que pese a semelhança dos ritos das igrejas ortodoxa e católica, a caracterização arquitetônica das cúpulas criou uma especificidade que é marcante nessas regiões. Mais de 300 igrejas com suas cúpulas bizantinas marcam a presença na paisagem do sul do Brasil. Não só a cúpula as caracteriza, mas também a planta – espaços internos e externos – e ornamentos, fortemente vinculados à origem dos construtores. Como muitas das arquiteturas paranaenses, também as igrejas ucranianas foram construídas com a então abundante madeira da Araucária. Num processo bastante comum, foram sendo substituídas ao longo do tempo por igrejas de alvenaria que, embora atestem o zelo dessas comunidades por seus templos, implicam na perda de tecnologias específicas e caracterizadamente regionais e de importância nacional.
Esta proposta está respaldada pela Constituição Federal que no § 2.º do Art. 215 expressa que a lei disporá sobre a fixação de datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais. No caput do mesmo dispositivo afirma a Constituição Federal que o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais e pela Convenção para Salvaguarda do Patrimônio Imaterial em 2003, da UNESCO, na qual se reconhece a “profunda interdependência entre patrimônio cultural imaterial e o patrimônio material cultural e natural”. É nessa noção integral de patrimônio cultural, que proponho o dia 24 de agosto como o Dia Nacional da Comunidade Ucraniana como data simbólica para reconhecer a expressão cultural destas comunidades que perpassa pelas tradições, códigos e significados do povo ucraniano.
Na data do dia 24 de agosto no ano de 1991 o parlamento ucraniano declarou a Independência da Ucrânia ansiada pela comunidade. Nessa data, em todo o Brasil, a comunidade ucraniana realiza atos festivos. Em particular, no Memorial Ucraniano em Curitiba, a comunidade ucraniana reúne-se com seus trajes e grupos folclóricos para lembrar a data. A Assembléia Legislativa do Estado, por unanimidade, já votou lei reconhecendo em seu território a data como o dia da  comunidade ucraniana.
Pela importância da matéria esperamos contar com o apoio dos nobres Pares para esta iniciativa que reconhece e homenageia os ucranianos, como um dos povos responsáveis na formação da sociedade brasileira.

Sala das Sessões, 2008.
Deputado Angelo Vanhoni – PT/PR

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Angelo Vanhoni durante a abertura dos trabalhos de restauro da igreja de São Miguel Arcanjo, símbolo da arquitetura e da cultura eslava, na Serra do Tigre/Mallet/PR, em 28 de abril de 2009.

Fotos: Gilson Camargo

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Presentes na reunião nesta terça feira
, 04 de agosto, da esquerda para a direita: o presidente da Representação Ucraniano-Brasileira no Paraná, Vitório Sorotiuk, o deputado federal Angelo Vanhoni, o ministro da Cultura, Juca Ferreira, o embaixador da Ucrânia, Volodymyr Lakomov, o deputado estadual Felipe Lucas e o vereador de Irati, Rafael Lucas. Também presente na reunião, a vice prefeita de Irati, Marisa Massa – Foto: Rafael Oliveira / Assessoria de Comunicação – MinC

Em reunião com o embaixador da Ucrânia, Volodymyr Lakomov, o ministro da Cultura, Juca Ferreira, garantiu a participação do governo do Brasil na comemoração dos 120 anos da imigração ucraniana em 2011. As atividades deverão contemplar três níveis de ação: as festividades da própria comunidade, a comunidade e a sua relação com todo o Brasil e o intercâmbio entre o Brasil e a Ucrânia. Para tratar do acordo de cooperação cultural entre os dois países, o ministro da Cultura irá até a Ucrânia no mês de outubro.

lançamento do fórum da cultura digital brasileira

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Tela da interface de acesso ao Fórum da Cultura Digital Brasileira durante transmissão ao vivo do debate inaugural em São Paulo.

O ministro da Cultura, Juca Ferreira, abriu os trabalhos do Fórum da Cultura Digital Brasileira. O evento, realizado em parceria com a Rede Nacional de Pesquisa, aconteceu no dia 31/07/2009 em São Paulo e inaugura um debate com a sociedade e com as comunidades ativas na internet sobre o futuro das políticas da comunicação digital no Brasil. O Mandato do deputado Angelo Vanhoni acompanhou o evento “on-line” e transcreveu momentos da fala do ministro. Esta iniciativa do MinC traz  um importante incentivo ao acesso participativo da sociedade nas discussões públicas através das novas bases informacionais. O encontro foi transmitido em tempo real e o vídeo pode ser acessado na íntegra no site do Fórum da Cultura Digital Brasileira.

A proposta de debate partiu das seguintes considerações:

* A adoção dos novos aparatos tecnológicos de transferência e depósito da informação influencia cada vez mais os fenômenos culturais contemporâneos.
* A digitalização representa uma profunda alteração nos processos de produção, reprodução, distribuição e armazenamento dos conteúdos simbólicos.
* A mudança do paradigma impacta direta ou indiretamente os modos de organização das cadeias econômicas que circundam as expressões culturais e os valores estéticos.
* A era digital da cultura passa a exigir políticas integradas que possam reverberar nos distintos domínios dos saberes e das práticas.

O Fórum visa, entre outras frentes, construir uma Carta de Princípios sobre a liberdade na rede e o direito à comunicação digital como ponto de partida para as discussões da Conferência Nacional de Comunicação, no início de dezembro. As discussões sobre as políticas culturais e sua implementação são nucleares para o desenvolvimento das politicas públicas de comunicação e devem estar presentes e atuantes nas resoluções sobre o futuro das novas bases informacionais, da internet e dos veículos midiáticos em geral.

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“Boa tarde à todos e à todas. Eu queria entortar um pouco a proposta inicial aqui feita pelo Júnior. Primeiro, esta não é uma conversa com o ministro, mas, é uma conversa com o Ministério. Muitas das questões, eles (a equipe técnica) podem responder melhor do que eu, pois são eles que operam, e dentro do Ministério funciona com uma razoável autonomia esta parte que está construindo as políticas digitais. Obviamente a gente está sempre retomando o fio da meada, conectando com as outras políticas, mas a velocidade que esssas coisas exigem, e a melhor maneira de trabalhar não seria fortalecer a dimensão hierárquica, mas, sim a capacidade autônoma das partes do Ministerio em desenvolver suas políticas em cada área. Então, eles aqui são até mais do que eu, e vocês vão perceber rapidamente isso, os que formulam e levam à prática esta relação que o Ministerio está procurando ter com toda a cultura digital, com todas essas dimensões, não só no sentido de assimilar as novas tecnologias, mas também de estimular que a sociedade assimile, de levar para dentro do governo esta discussão e criar a possibilidade para os artistas e para os que se expressam através desta base, que tenham apoio e estímulo por parte do Ministério e de toda a estrutura de fomento.

Eu primeiro queria dizer que agradeço o debate que foi feito pelos blogs sobre a reforma da Lei Rouanet. Se não existisse a internet e os blogs certamente nós teríamos sido “cercados” no início do debate. A grande mídia veio para cima tentando caracterizar a proposta como uma proposta de dirigismo cultural, como uma proposta que ameaçava a política de patrocínio, e que seria um retrocesso. A primeira iniciativa foi de tentar desenvolver o medo seguindo um pouco uma experiência anterior que tinham desenvolvido e na qual conseguiram isolar o Ministério numa outra tentativa, a de criar uma regulação para a economia do audiovisual.

O problema é que desta vez nós estavamos preparados para o enfrentamento, mas, o que decidiu mesmo foi uma segunda capilaridade de comunicação que não foi a grande mídia. Nós começamos a dialogar pela internet com todas as regiões do Brasil. Percebemos que o debate foi para dentro da rede, os blogs repercutiram, muitos desfavoráveis à proposta do Ministério, mas o mais importante não era que fosse favorável ou contra, mas sim a força que criou de um sistema de debates mais aberto com possibilidade de intervenções dos artistas e de vários protagonistas que tem relação com o tema, e isso foi dando a tônica envolvendo uma quantidade de pessoas bem maior do que aquelas envolvidas a partir da leitura da grande midia, ou até mesmo da televisão, e isso foi possibilitando o debate evoluir.

Evidentemente que o Ministério também organizou debates presenciais em todo o Brasil. Passamos em torno de vinte estados no país. Tem quase cinco meses que eu só faço viajar e debater com mil, com quinhentas pessoas, com setecentas, com duas mil pessoas. Esse debate presencial também teve uma importância grande, mas, foi enriquecido pelo debate que já estava constituído pelos blogs, pelo conjunto das intervenções na rede que acabaram acontecendo. Então, eu senti na prática, na condução de um debate importante na cultura brasileira, em ultima instância, a necessidade de democratizar o acesso aos recursos, bens e serviços que o Ministério disponibiliza. O nível de concentração é excessivo, e a rede demonstrou uma eficiência comunicacional impressionante. Inclusive os jornais regionais pararam de reproduzir a grande imprensa e passaram a ter outras fontes de informação importantes que alimentaram estes orgãos da imprensa escrita e de radio e de televisão, e muitos citavam os blogs que estavam de alguma maneira reverberando e discutindo e criando um sistema paralelo.

Para nós foi muito importante construir uma política pública utilizando o potencial que a rede cria. Foi importantíssimo! Criou uma possibilidade de a gente ir mais longe. Hoje as distorções já estão hiper consolidadas, já ficou claro no debate que se tratava de fato de uma proposta de democratização. Inclusive a fragilidade do Ministério na prestação de serviços surgiu de uma forma bastante intensa. Nós assimilamos que o Ministério tem um dever de casa neste processo. Isso foi bem caracterizado neste debate. A nececessidade de uma distribuição mais justa dos recursos e dos bens e serviços do Ministério, as carências da estrutura cultural do Brasil. Mais de 90% dos municípios brasileiros não tem um cinema sequer, não tem um teatro, não tem acesso à informação a não ser através da TV aberta. A demanda de acesso é generalizada e de alguma maneira esse debate potencializou esta percepção.

Eu queria registrar isso como uma experiência importante que nós tivemos recentemente, e percebemos no contato com produtores culturais de assentamentos e alguns ligados a tribos indígenas que eles também se conectam à rede, que se informam, formam opinião e que participam destes debates. Então me parece que esta já é uma realidade importante, e é preciso compreendê-la.

No Governo Federal, o Ministério da Cultura não está isolado. O Ministério de Ciências e Tecnologia vem fazendo um esforço importante, e também o Ministerio da Educação. O Gabinete da Presidência vem coordenando um trabalho de fortalecimento da cultura digital. O presidente tem idéia de extender a conexão banda larga para todas as escolas do Brasil. Está tendo um problema jurídico importante e a opção que o governo fez está tendo um emperramento mas, a expectativa é a de resolver isso rapidamente. Existe uma consciência da necessidade de desenvolver esse tipo de comunicação num plano muito mais intenso, mais profundo e mais ágil.

Para nós, do Ministério da Cultura é essencial não só como um terrritório de comunicação, mas de expressão cultural. Uma parte dos artistas brasileiros hoje estão migrando para a expressão em base digital ou para o uso das novas tecnologias. É preciso apoiar este processo. Este processo tem uma capilaridade internacional muito grande que coloca o Brasil dialogando diretamente com redes de museus, estruturas de comunicação e de expressão cultural do mundo inteiro, e o Ministério está atento à isso.

Acabamos de fechar aqui uma parceria. Nós vamos levar o evento da cultura digital para as comemorações de Brasília. O aniversário de Brasília, que vai ser uma celebração internacional pelo que ele significa de sonho tecnológico e de grandeza do Brasil. É importante atualizar esta comemoração para que a gente não se volte para o passado apenas num determinado momento e acabe fazendo uma comemoração saudosista. Talvez esta seja a renovação do sonho de Brasília, desta singularidade brasileira dialogando com o mundo inteiro, e as artes digitais podem cumprir um papel importante nesta conexão atualizada do Brasil. “

Juca Ferreira – ministro da Cultura.




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