museu da maré – rio de janeiro – memória e cidadania

museudamare_foto_gilsoncamargo_20_03_09aNo galpão principal uma palafita reconstruida de acordo com os modelos da época.

O Museu da Maré, inaugurado em 2006, é o primeiro museu em favela do Brasil. Seu acervo, em construção permanente, é formado por fotografias, documentos escritos, objetos do cotidiano, objetos históricos, e pelos contadores de histórias da Maré e outros membros da comunidade que divulgam a cultura local. O projeto se tornou possível através das parcerias realizadas entre a Rede Memória do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré – CEASM e o Ministério da Cultura – MinC.
O Museu da Maré foi contemplado com a Ordem do Mérito Cultural, a mais alta comenda da cultura brasileira concedida a pessoas e instituições que se sobressaem nesta área.

link para texto “DA MEMÓRIA AO MUSEU: A EXPERIÊNCIA DA FAVELA DA MARÉ”, de Antônio Carlos Pinto Vieira – diretor do CEASM – no arquivo público do Rio de Janeiro.

museudamare_foto_gilsoncamargo_20_03_09lA Maré antigamente era uma comunidade de palafitas – toda a região era permeada pela água e foi sendo aterrada em sucessivos tempos. Vista parcial do complexo da Maré, em imagem de 1971.

museudamare_foto_gilsoncamargo_20_03_09iVista atual da Maré a partir do CEASM . Março 2009.

Na concepção de José do Nascimento Júnior, diretor do Departamento de Museus e Centros Culturais do IPHAN, o Museu da Maré representa um marco nas novas práticas museológicas brasileiras. “O conjunto das políticas públicas de cultura tem sido percebido como fator preponderante de desenvolvimento econômico e de inclusão social, o que implica o reconhecimento da Cultura como área estratégica para o desenvolvimento do país. Devemos avançar para uma reflexão geral acerca do papel do Estado, que, mantendo-se afastado do “dirigismo cultural” e da interferência no processo criativo, deve assumir plenamente seu papel no planejamento e no fomento da produção de cultura, na preservação e valorização do patrimônio cultural do país e na estruturação da economia da cultura, considerando sempre em primeiro plano o interesse público e o respeito à diversidade cultural (…) ainda não se viu qualquer Estado de bem estar social que não seja indutor de políticas públicas comprometidas com a ampliação do acesso a bens e serviços públicos, com uma estrutura compativel à dimensão e com as tarefas que garantam esses direitos. É nesse sentido que o Museu da Maré se coloca, transformando a instituição museu em ferramenta de inclusão da comunidade na cidade e apresentando ao conjunto da população a sua narrativa sobre quem são esses moradores, suas trajetórias de vida e como enxergam a cidade. É um espaço de convivência convidativo e que simultaneamente reflete o cidadão e o instiga a refletir sobre a sua história e da sua comunidade. Somente neste sentido podemos falar em políticas públicas que dialoguem com as diversidades e não reforcem as desigualdades.”

museudamare_foto_gilsoncamargo_20_03_09s

A exposição permanente é dividida em doze tempos não-cronológicos, onde uma sala conta a história dos emigrantes, outra refere-se à infância dos moradores e uma terceira recorda episódios da resistência social das comunidades.

“Tempo do medo. Quais são os nossos medos? No tempo do medo havia tábua podre, criança caindo na água, ventanias, tempestades, ratos, remoções… no tempo do medo existe a bala perdida, a violência, a morte bruta… os medos que nos assombram podem nos paralisar tanto quanto nos motivar a lutar pela transformação da realidade. Tempo da criança. Bola de gude, bate-beg, bambolê, pião. Amarelinha, caracol, garrafão. Pipa, roda, corda, rua, cabra-cega, esconde-esconde, passa-anel. Também passa o tempo mesmo contra a nossa vontade. Agora, criança na rua é ruim, e a brincadeira onde fica?… Tempo da água. Mangues, ilhas, biodiversidade marinha. Piquenique, areal, banho de mar. Redes, barcos, pesca, sustento. Festa de S. Pedro, N. Sª dos Navegantes, procissão. Balanças d’água, rola-rola, bacias, latas na cabeça, varais. Aterros, fábricas, poluição… E o futuro? Tempo da casa, do aconchego e da segurança. Para muitos que chegaram depois, só restaram o mar e o mangue. Antes da casa foi necessário construir o chão. Casa de madeira sobre as palafitas. Depois vieram o aterro, o tijolo e a laje. Em mutirão vão surgindo novas casas. Outras, o governo construiu: Centro de Habitação Provisória, casas coloridas, telhas de amianto, apartamentos duplex de tijolinhos vermelhos… Tempo da casa, do aconchego… E a segurança? Tempo da migração. Muitos chegaram no pau de arara. Outros vieram numa terceira do Ita. Rodoviária, lugar do desembarque de quem ainda chega. Lugar de um novo começo. Ingá de Bacamarte, Codó, Sapé. Campina Grande, Serra Branca, Ipu. Cachoeira Alegre, São Fidelis, Ubá… tantas cidades e pessoas. Saudades, expectativas, esperanças, memórias. Diferentes tempos que aqui se encontram. Tempo da feira. Tempo de sons, sabores, cores e cheiros. Um dia aqui, outro ali, cada dia uma feira, cada dia um lugar diferente. Tempo de acordar antes do sol, trabalhar duro pra ganhar o pão. Caixotes, barracas, lotes, balanças… e aquele jeito especial de cativar: – Ei, freguesa! Tá bom e barato, vai levar?! Este é sobretudo o tempo da negociação. Como falar de feira sem lembrar de uma boa pechincha?… tempos da feira, fé e festa. Música, alegria e devoção. Tempos de encontrar o Transcendente, o outro e a si mesmo. Tempos da ginga e da dança, do silêncio e da oração. Tempos de expressar nossa cultura, feita de mistura e troca, carregada de paixão e vida. Tempos de resistência. Aqui, resistir sempre foi preciso: Resistir à força da maré, à ação da polícia, às ameaças de remoção. Os moradores se organizaram em associações, lideranças surgiram, muitas conquistas foram alcançadas. Mas o tempo da resistência não acabou. Violência, preconceito, discriminação. Aqui, resistir sempre é preciso.

museudamare_foto_gilsoncamargo_20_03_09b
Uma caixa com projéteis coletados pelos moradores da comunidade traz um expressivo testemunho da violência na região.

museudamare_foto_gilsoncamargo_20_03_09m

“Um pequeno barraco de madeira sustentado por estacas. Ícone de uma paisagem resistente no presente, imagem simbólica do passado, âncora da lembrança. Sua cor é azul. Não o azul monótono e frio das paredes lisas. É um azul de muitos sóis roubado da cor das águas, do céu e da vida. Mutável conforme a luminosidade dos dias, os anúncios de tempestade, os fluxos do mar e os dramas da existência. Uma pequena varanda é o que sobrou do mundo exterior. Portas que abrem em duas, primeiro para olhar quem chega, depois para convidar a entrar. Por dentro a vida é rosa. Num único comodo se inscreve a vida. Aqui os objetos falam. na parede a lamparina, velhas fotos retocadas, um calendário antigo, quadros, muitos quadros, o sagrado coração, São Jorge, o Menino Jesus de Praga, Nossa Senhora da Conceição, todos acima da velha cama. No guarda roupas vestidos de chita, saias, blusas, calças e camisas usadas com suas marcas e cheiros. Sobre o guarda roupas há malas de couro e papelão, malas surradas, corroídas por inúmeras viagens, depósitos de lembranças denunciando que quem vive ali esta sempre de passagem. Há um criado mudo. Duas gavetas que podem ser abertas. Por aqui os objetos dialogam, podem ser tocados e ao abrir se encontra mais vida. Grampos de cabelo, bijuterias descoradas pelo tempo, orações a muito tempo recitadas, dinheiro que não compra nada além de memórias. E uma imagem de Nossa Senhora Aparecida.”
Trecho da narração de Marilene Nunes no video “Museu da Maré”.

O DVD “Museu da Maré, memorias e (re) existencia” pode ser acessado integralmente na internet.
clique aqui para assistir ou fazer o download

museudamare_foto_gilsoncamargo_20_03_09f1museudamare_foto_gilsoncamargo_20_03_09c3museudamare_foto_gilsoncamargo_20_03_09d1

Fotos: Gilson Camargo.


13 Respostas a “museu da maré – rio de janeiro – memória e cidadania”


  1. 1 de souza 4 de julho de 2010 às 0:29

    para todos meu amigos

  2. 2 EDIVALDO RODRIGUES (VAVÁ) 6 de dezembro de 2010 às 9:47

    EU VENHO JÁ ALGUMS TEMPO PARTICIPANDO DE OFÍCINAS SOBRE O MUSEU DO COQUE EM RECIFE (PE), MAIS ATE AGORA NÃO VEJO COMO IREMOS REALIZA ESTE MUSEU NA COMUNIDADE SE NÃO TEMOS GRANDES APOIO. FAVOR MANDEM RESPOSTA.

  3. 3 andre 10 de abril de 2011 às 19:42

    O Ceasm já faliu e esse museu tem outra historia!
    Coisa feia..enganando a comuniudade!

  4. 4 Rogério Santos 22 de novembro de 2011 às 12:06

    O video do museu é muito interessante: evidencia a realidade da Maré em uma retrospectiva cronológica muito bem feita. Valeu!!

  1. 1 Topics about Rio-de-janeiro | museu da maré - rio de janeiro - memória e cidadania « angelo vanhoni Pingback on 23 de abril de 2009 às 18:41
  2. 2 mupe – museu de periferia do sítio cercado – abaixo assinado solicita oficinas do ibram para criação de um ponto de memória na comunidade « angelo vanhoni Pingback on 31 de maio de 2009 às 23:16
  3. 3 mupe – museu de periferia do sítio cercado – entrevista com mário de souza chagas – diretor de centros museais do ibram « angelo vanhoni Pingback on 27 de agosto de 2009 às 20:54
  4. 4 Museu da Periferia do Sitio Cercado recebe oficina ministrada pelo Ibram — PT Curitiba Pingback on 31 de agosto de 2009 às 3:20
  5. 5 mupe (museu de periferia do sítio cercado) – oficina do ibram “museu, memória e cidadania” – curitiba – 02/09/2009 « angelo vanhoni Pingback on 9 de setembro de 2009 às 16:24
  6. 6 museu da maré – rio de janeiro – memória e cidadania « angelo vanhoni Pingback on 4 de dezembro de 2009 às 18:49
  7. 7 gabinete 672 – anexo 3 – ala b – congresso nacional at Angelo Vanhoni Pingback on 7 de agosto de 2010 às 18:10
  8. 8 acervo de publicações do blog at Angelo Vanhoni Pingback on 29 de setembro de 2010 às 21:45
  9. 9 assembléia de fundação do museu de periferia do sítio cercado (mupe) – curitiba/pr at Angelo Vanhoni Pingback on 18 de abril de 2011 às 6:29

Cadastre-se em nosso mailing

Twitter Angelo Vanhoni